Os fracos resultados subjacentes da proprietária da bolsa de valores de Hong Kong são o mais recente sinal dos profundos danos causados ao centro financeiro asiático pelas recentes mudanças na cidade e no continente
O mercado de ações de Hong Kong, sem brilho, exemplifica os desafios com os quais a cidade está lidando: a desaceleração econômica da China, que parece cada vez mais estrutural; e o controle mais rígido de Pequim sobre a cidade semiautônoma.
Nenhum desses problemas deve desaparecer tão cedo, embora a economia da China possa melhorar um pouco ciclicamente no próximo ano. Os fracos resultados do terceiro trimestre divulgados na sexta-feira (20) pela Hong Kong Exchanges and Clearing, proprietária e operadora do mercado, são o mais recente sinal de como os problemas da cidade se enraizaram.
As ações da HKEX, que também é proprietária da London Metal Exchange além das operações em Hong Kong, estão em baixa há anos. Elas perderam metade do seu valor desde o pico em 2021, incluindo uma queda de 15% em 2023 até agora.
Os resultados anunciados da empresa podem parecer bons à primeira vista: o lucro operacional da HKEX para os três meses encerrados em setembro aumentou 27% em relação ao ano anterior. Entretanto, isso foi impulsionado principalmente por um aumento na renda de investimentos devido ao aumento das taxas de depósito em Hong Kong e nos Estados Unidos.
A receita da empresa, que inclui taxas de negociação e listagem, na verdade caiu 3% em relação ao mesmo trimestre do ano anterior. O centro financeiro asiático tem sido prejudicado nos últimos anos por volumes de negociação mais baixos, menos novas listagens e um desempenho fraco do mercado.
A capitalização total do mercado de ações de Hong Kong agora é de cerca de US$ 4 trilhões: uma queda de 40%, aproximadamente US$ 2,7 trilhões, desde o pico em 2021. O volume médio diário de negociação neste ano até agora foi de cerca de US$ 14 bilhões, uma queda de 39% em relação a dois anos atrás.
O entusiasmo global pelas ações chinesas esfriou abruptamente desde 2021, graças à desaceleração econômica da China e sua repressão ao outrora importante setor de tecnologia da Internet. A intensificação das tensões geopolíticas cobrou um preço adicional.
Em 2020, a lei de segurança nacional, imposta a Hong Kong por Pequim, tirou o brilho da reputação da cidade como uma jurisdição legal distinta em que o estado de direito tem mais peso do que na China continental – algo que há muito tempo é um de seus cartões de visita como uma ponte favorável aos negócios entre a China e o Ocidente.
Muitas empresas chinesas estão agora optando por fazer ofertas públicas iniciais em Xangai e Shenzhen em vez de Hong Kong. As novas listagens nas bolsas de valores da China continental ultrapassaram as de Hong Kong já em 2020.
Nos últimos anos, o isolamento dos mercados da China continental em relação aos investidores globais era uma desvantagem. Porém, em uma era de tensões geopolíticas que crescem continuamente e uso de regulamentação governamentais para prejudicar empresas, algumas delas – e a própria Pequim – podem ver vantagens em um isolamento um pouco maior.
A desaceleração econômica da China também prejudicou os mercados chineses, mas não tanto quanto Hong Kong. As novas listagens nas bolsas do continente totalizaram cerca de US$ 46 bilhões este ano, de acordo com a Dealogic.
A HKEX costumava ser a queridinha, refletindo o papel de Hong Kong em ajudar os investidores globais a participarem do crescimento econômico excepcional da China. Entretanto, o crescimento da China não é mais excepcional, e muitas das características distintas que ajudaram a ancorar o papel de Hong Kong como uma ponte atraente para a China estão desaparecendo.
A queda no preço das ações da HKEX provavelmente significa que esse papel também está começando a desaparecer.
(Com The Wall Street Journal; Título original: Hong Kong’s Financial-Sector Feast Turns to Famine)