O modelo de gestão passiva de fundos vem consolidando-se nos Estados Unidos há cerca de 20 anos. Somente na NYSE, a Bolsa de Valores de Nova York, havia mais de 3 mil ETFs listados ao fim do terceiro trimestre de 2022.
No Brasil, por outro lado, o nicho dos Exchange Traded Funds – fundos listados em bolsa, os ETFs – é ainda mais incipiente que o resto do mercado financeiro nacional. A Investo nasceu para desbravar esse terreno ainda pouco explorado.
Fundada em 2020 como um projeto na Universidade de Harvard, a casa logo se tornou uma expressiva gestora brasileira especialista em ETFs. Dos 92 fundos atualmente listados na B3, 17 são de emissão dela.
O modelo de gestão passiva é basilar na filosofia de investimentos da Investo, o que faz o CEO e co-fundador, Cauê Mançanares, defini-la como “uma gestora que trouxe algo diferente para o Brasil” entre as mais de novecentas assets hoje autorizadas a gerir o patrimônio de terceiros.
Um dos benefícios para o investidor da gestão passiva no longo prazo, defende Cauê, é o relacionamento com uma instituição ao invés de um gestor.
“A gente não fala da visão macro do Cauê como gestor da Investo, a gente fala mais de visão macro dos mercados”, explicou o executivo em conversa exclusiva com o TradeNews.
O mercado decide
Cauê ressalta: a Investo foge da missão de superar o mercado. “Quando você vai olhar as estatísticas, seja no mercado americano, no europeu, no brasileiro, 90% ou mais dos gestores não conseguem bater os índices de mercado no longo prazo.”
Por longo prazo, entende-se um período de dez anos. Em períodos menores, 80% não alcançam o desempenho dos índices, e apenas 30% chegam lá em um ano.
Assim, o objetivo da Investo não é ficar à frente do mercado (e, obviamente, tampouco atrás). A proposta da asset é deixar o investidor de mãos dadas com a mão invisível.
“A inteligência é exatamente tirar o a decisão humana da jogada”.
Segundo Cauê, a gestão passiva remove brechas para um gestor individualmente definir mudanças nos portfólios baseado em projeções e expectativas pessoais – como a de que a guerra na Ucrânia vai acabar ou a reforma tributária no Brasil vai acontecer.
Referenciar os próprios investimentos em benchmarks, ou “colocar para o mercado”, portanto, faria mais sentido no longo prazo.
O CEO usa o WRLD11, um dos produtos da casa como exemplo. O fundo replica outro ETF, listado na NYSE, e investe em mais de 9 mil empresas. A ideia é justamente alocar em todas as empresas do mundo às quais se tem acesso em bolsa e deixar que o capitalismo decida.

“Se for a Apple a vai continuar crescendo, meu patrimônio vai ter muita alocação na Apple, como hoje tem. Se for uma empresa nova na China, que começa a dominar o mercado e começa a vender telefones para o resto do mundo […], eu também estaria alocado naquela empresa conforme ela ganha mercado.”
Em suma: ETFs livram o investidor dos efeitos da opinião pessoal, ideologia e projeções de um só gestor. Uma grande vantagem na visão de Cauê, que define a transparência na alocação e performance como maior garantia dos fundos listados em bolsa.
“Não que eu vá garantir a performance do fundo que vai ser melhor ou pior, mas uma performance de acordo com aquilo que você escolheu. Se você escolheu investir no mundo, eu vou te entregar uma performance do mundo, porque vamos ter aí mais de 9 mil empresas.”
O mesmo acontece em se tratando de renda fixa, agronegócio, ou qualquer outro dos setores abarcados pelos fundos. “Essa é a beleza do ETF. Você consegue dar transparência, simplificação, e você consegue entregar a performance daquele segmento, daquela classe de ativos que o investidor escolher.”
Visão macroeconômica
Assim como a gestão dos fundos resume-se a espelhar os portfólios dos índices de referência, a análise macro na Investo consiste em mapear as visões correntes no mercado global.
Nesse contexto, Cauê Mançanares explica que a atual preferência dos investidores por renda fixa decorre da névoa sobre o futuro valor de mercado das empresas, isto é, dos preços das ações. Tal dificuldade, por sua vez, é fruto da sequência de eventos incomuns deflagrada na economia mundial pela pandemia.
O executivo confirma um apetite muito maior pela renda fixa, seja a brasileira, a americana ou a global – a casa possui fundos com cada uma das três respectivas especificações. “As pessoas estão ficando mais conservadoras. Elas querem proteger o patrimônio.”
Mais que um porto seguro diante do incerto, a renda fixa obviamente ficou mais atraente dado o alto patamar dos juros no mundo. Nos EUA, os yields – retornos dos títulos americanos – subiram em torno de 5%, algo inédito para investidores mais jovens.

Os juros americanos, todavia, não devem ir muito além disso. O consenso do apanhado de análises de gestoras globais apurado pela Investo é de que o aperto monetário nos EUA provavelmente estancou.
“Um pouco do porquê provavelmente chegamos no patamar superior dos juros é porque, além de a inflação estar sendo controlada”, tanto nos EUA quanto no Brasil, “também teve a crise bancária sistêmica nos Estados Unidos, causada em parte pela alta de juros”.
Hoje, acrescenta Cauê, o mercado está em torno da máxima de custo de capital para empresas e pessoas, deixando o Federal Reserve com as mãos um tanto atadas para subir mais as básicas. “Se [o Fed] subir demais e muito rápido, ele pode causar um problema no sistema bancário”.
Entretanto, manutenção dos juros não significa queda. “O patamar máximo pode durar por anos, como a gente viu por exemplo na década de 1970, quando os juros ficaram altos por muito tempo.” Ainda não se materializou qualquer perspectiva de baixa para os juros dos EUA.
Dolarizar é a chave?
“Se você vai gastar em reais, deveria investir em renda fixa brasileira. Se você vai gastar esse dinheiro no futuro ou em dólares, deveria investir em renda fixa americana.”
Cauê Mançanares é sucinto: quando o assunto é dolarização de patrimônio, os fins devem justificar os meios.
Para o executivo, comparativos entre a rentabilidade americana e a brasileira são irrelevantes, pois “você está construindo capital em uma moeda, e aquela moeda vai pagar juros condizentes com a força daquela moeda”.
A lógica de investimento é pouco difundida pois “está todo mundo tentando adivinhar o mercado”, ponderou o executivo, que reforça a simplicidade como chave de um bom investimento.
Não tem segredo. Se o investidor vai viajar para fora do Brasil, deseja comprar um imóvel no exterior ou simplesmente gastar a quantia investida de forma dolarizada, “então não fica olhando se o juro está mais alto aqui ou ali, invista em dólar”.
Do contrário, quem vai usar o dinheiro no Brasil, em reais, seja para pagar a faculdade do filho ou acumular patrimônio em moeda nacional, deve investir em reais.
“A nossa visão é simplesmente: “siga o mercado”, e a mesma coisa vale pra alocação em reais ou em dólar”, concluiu Cauê.
Mercado acionário
O ambiente corporativo brasileiro se encontra em uma fase única, na visão do CEO da Investo, no qual a governança está no centro do palco. Cauê frisa como os casos de Americanas [AMER3] e Light [LIGT3], dos quais miríades de investidores saíram prejudicados, aconteceram por conta de problemas de governança.
Além dos riscos operacionais comuns a qualquer empresa, comenta, há hoje uma percepção no mercado de possíveis riscos não precificados antes, “como risco de uma fraude contábil, ou um risco jurídico, de você ter uma recuperação judicial de uma empresa que não poderia ir pra recuperação judicial”.
Perguntado sobre as melhores empresas para investir no Brasil e no exterior, Cauê primeiro descreve a tendência dos investidores a preferirem ações que já estão subindo. “O contrassenso é que, quando está subindo, possivelmente você já perdeu a oportunidade, porque ela já subiu.”
Ou seja, quanto melhor a performance atual de determinado ativo, pior ele é como aplicação (para quem vai se posicionar durante a tendência altista, claro). A Investo considera horizontes longos de tempo ao pensar em oportunidades de investimento.
A estratégia é “exatamente” oposta, segundo Cauê Mançanares, à de alocar nas queridinhas do mercado no momento. A casa oferece dois ETFs fatoriais de valor, cujos portfólios concentram-se nas empresas consideradas de baixo valor, posto o múltiplo mais baixo delas.
As empresas com baixos múltiplos, comenta o CEO da Investo, têm um potencial de crescimento maior.
O que ninguém vê
O executivo destaca dois setores alternativos de investimentos, “um que está indo muito bem e um que tem muito potencial”, mas ambos com pouca visibilidade no mercado nacional até o momento.
O primeiro é o de gaming e e-sports, cuja performance em 2023 tem sido positiva, apesar das complicações em outros setores. A Investo possui o JOGO11, lastreado em papéis de gaming estrangeiros.
O desempenho positivo, justificou Cauê, se dá pois trata-se de um segmento “que muitas vezes independe de situações de transporte de energia, de gás, de inflação, de guerra, e é um segmento global. Então a gente independe também de política brasileira ou coisas como as relações entre países.”
Outro setor alternativo comumente fora do horizonte do investidor brasileiro é o de private equity. Cauê descreve o PEVC11, ETF da asset focado no setor e “realmente alternativo na definição”.
O fundo procura investimento em empresas do segmento de ativos alternativos e foi desenhado para acompanhar as dez maiores e mais líquidas gestoras dessa classe listadas em Wall Street.