Abaixo do esperado, inflação dos EUA anima mercados

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Os mercados mundiais abriram cautelosos nesta quarta-feira (10) à espera dos dados de inflação ao consumidor (CPI) dos Estados Unidos. O CPI ficou estável em julho ante junho, mas o núcleo, que exclui os preços de energia, subiu 0,3% no mesmo período, superando as expectativas do mercado.

A atenção é fruto da influência direta do índice no quão agressivo o Federal Reserve (Fed) será no aumento de juros dos próximos meses. Com o resultado divulgado, apresentando maior controle inflacionário que o esperado, o mercado apagou a aposta majoritária de alta de 0,75 p. p. em setembro. Segundo a CME Group, hoje pela manhã, a possibilidade de alta de 0,50 p. p. era de 68,5%.

A inflação é o aumento generalizado de preços de determinada cesta de bens e serviços que abrange a maior parte da população de um país. Existem quatro tipos principais de inflação: de oferta, de demanda, estrutural e inercial.

De acordo com Marco Ferrini, analista de macroeconomia da Benndorf Research, a inflação americana está muito ligada à oferta desde o início da pandemia de Covid-19. A doença gerou muitas distorções ao longo das cadeias logísticas de suprimentos, atrasando entregas para garantir segurança sanitária tanto das mercadorias quanto dos trabalhadores, explicou.

“O produtor não conseguia entregar a produção que ele estava estimando, que estava projetada. Isso, consequentemente, acabou gerando um aumento de preços de bens e serviços, que levou os Estados Unidos à maior taxa de inflação em mais de 40 anos.”

Tipos de inflação

Inflação de oferta ou de custos

A inflação de oferta acontece devido ao aumento dos custos dos ofertantes com matérias-primas ou materiais intermediários, afetando o custo de produção e, por conseguinte, todo o decorrer da cadeia produtiva.

Essa elevação foi vista em diversos países durante o período pandêmico por conta das medidas sanitárias e o distanciamento social. Mas também pode ocorrer por vários outros motivos, como: preço de insumos, gastos energéticos – como alta de commodities, aumentos salariais, déficits tecnológicos…

Inflação de demanda

Já a inflação de demanda está ligada à lei básica da economia: oferta versus demanda. Ela é causada justamente pela assimetria das partes, em que a demanda supera a oferta. Em outras palavras, se há mais pessoas querendo comprar do que ofertantes dispostos ou capazes de vender determinado produto ou prestar certo serviço, os preços tendem a subir.

Inflação estrutural

A inflação estrutural se relaciona com, como o próprio nome entrega, a infraestrutura de determinado país. A precariedade e a insuficiência dos elementos e serviços fundamentais para o desenvolvimento socioeconômico de um país elevam o custo de produção. O processo, por sua vez, impacta no consumidor final.

Além disso, quando o mercado externo é priorizado em detrimento do mercado interno, é possível que haja falta de alguns produtos no mercado nacional.

“No caso do Brasil, isso acaba acontecendo bastante. Um bom exemplo foi a greve dos caminhoneiros que a gente teve, que paralisou tudo e acabou gerando o aumento de preços de combustíveis ou e dos supermercados embora tenha tido uma  tentativa de controle de preços”, comenta Marco. Os dez dias da greve em 2018, entre o fim de maio e começo de junho, levaram a inflação a 1,26%. Em maio, a inflação estava em 0,4%.

Inflação inercial

A inflação inercial tem relação direta com o que os economistas chamam de “memória inflacionária”. Ela é gerada pela estimativa dos produtores sobre um possível aumentos nos preços.

“Eu já sei que a minha matéria-prima vai subir. Então, consequentemente, eu já vou aumentar o preço da minha mercadoria pra um aumento de preços que eu vou receber. Ela é muito mais ligada às expectativas e acaba virando uma bola de neve. Foi um caso que a gente teve um pouco antes do Plano Real, na década de 80, que acaba gerando a hiperinflação.”, exemplifica o analista da Benndorf.

O impacto da inflação na B3

O cenário inflacionário do Brasil, assim como na maior parte do mundo, está muito ligado a custos, impactado pela pandemia e pelas assimetrias geradas por ela entre a oferta e demanda, principalmente nas commodities energéticas. Entretanto, Marco explica que também tem forte ligação com a inflação de custos, tanto pelos atrasos ao longo das cadeias produtivas quanto pela escassez de materiais.

O analista afirma que a inflação impacta a B3 por conta da elevação na taxa de juros. “Quando a taxa de juros sobe, os mercados acionários tendem a perder ímpeto, porque, por exemplo, a renda fixa fica mais atrativa, você não precisa se expor ao risco da renda variável, sendo que você tem a renda fixa com uma rentabilidade alta que acaba compensando até mesmo a inflação”.

E o trader?

Niels Tahara, head de análise fundamentalista da Benndorf, afirma que, com o possível topo da inflação no Brasil, a perspectiva é que o país esteja bem próximo do fim do aperto monetário, levando a uma possível queda na taxa Selic na segunda parte de 2023.

“Como a taxa de juros está diretamente ligada à taxa de desconto, que se utiliza para descontar os fluxos de caixa futuros da empresa e precificar as ações, a redução dessa taxa de desconto acaba influenciando positivamente o valuation das companhias e beneficiando o mercado de renda variável”, diz.

Niels indica o investimento no setor varejista, principalmente de consumo discricionário, dado que a inflação alta reduz a renda disponível, eleva o custo do crédito e reprime a demanda. Esses fatores, em conjunto com o menor crescimento econômico, acabam impactando significativamente esse segmento.

Ele também alerta sobre o setor de construção civil, em razão de uma possível queda nos juros em 2023 reduz o custo de financiamento imobiliário. “Gostamos das ações da Direcional Engenharia (DIRR3), por possuir grande eficiência operacional, diversificação geográfica, além de flexibilidade para ofertar produtos para classes de renda diferentes”.

Niels complementa que, analisando pelo ponto de vista de queda de juros, as ações de tecnologia também são bastante impulsionadas pela redução da taxa de desconto no valuation. “Nesse sentido, temos preferência para os papéis da Sinqia (SQIA3), líder no segmento de softwares para o mercado financeiro, e que possui um sólido histórico de crescimento através de M&A”.

Quanto ao mercado internacional, ele afirma que, no geral, as companhias à produzir localmente e exportarem são beneficiadas por ter seus custos reduzidos. Alguns exemplos são as siderúrgicas e empresas de papel e celulose, além do setor de bens de capital.

O analista ainda diz ser possível um novo descolamento entre as bolsas brasileira e americana, semelhante aos três primeiros meses de 2022. “O Brasil e os Estados Unidos são dois dos países que estão mais avançados no processo de alta da taxa básica de juros. Entretanto, enquanto no Brasil os últimos dados de inflação têm sido mais favoráveis, nos EUA isso ainda não tem acontecido. Inclusive, os últimos dados de emprego nos Estados Unidos vieram bem acima das projeções, o que tende a ainda pressionar a economia por lá”.

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