Apareceu no WSJ: Relações entre China e Taiwan explicadas – o que saber sobre as tensões

Analistas geralmente concordam que o exército da China poderia invadir e eventualmente tomar o controle de Taiwan, especialmente se os EUA ou outras potências não intervissem. [Foto:  Bohdan Chreptak/Pixabay]

A invasão da Rússia na Ucrânia traça paralelos com Taiwan, um ponto de conflito global ao extremo leste, com potencial para um conflito ainda mais destrutivo.

Taiwan, uma ilha autônoma de 24 milhões de pessoas a cerca de 160 quilômetros da costa da China, é uma democracia vibrante que, como a Ucrânia, viveu por anos à sombra de um conflito com um vizinho autoritário muito mais poderoso. A guerra na Ucrânia agitou muitos em Taiwan, renovando interesses em preparar resistências para uma invasão pela China, que enxerga a ilha como parte de seu território e prometeu assumir o controle dela – à força, se necessário. Da mesma forma, a ofensiva da Rússia está oferendo lições que os militares da China, o Exército de Libertação Popular, podem seguir caso decida atacar através do Estreito de Taiwan.

Para todas as similaridades entre a Ucrânia e Taiwan, existem diferenças importantes. No topo da lista estão as partes envolvidas: um conflito sobre Taiwan provavelmente incluirá diretamente o envolvimento dos EUA. Não há indicativos de uma iminente guerra por Taiwan, mas se uma explodisse, poderia colocar as duas maiores forças armadas do mundo uma contra a outra, com as duas maiores economias do mundo penduradas na balança.

Aqui segue um olhar sobre o passado e o presente das tensões entre China e EUA sobre Taiwan, e o que elas poderiam significar para o futuro da balança do poder, na Ásia e além.

 

Quais são as últimas notícias sobre a tensão China-Taiwan?

As tensões têm crescido desde que Donald Trump, então presidente, fez do estreitamento dos laços com Taiwan uma política dos EUA. Isso continuou sob a gestão do presidente Biden, com os EUA enviando armas, unidades especiais de treinamento militar e delegações de ex-funcionários em uma demonstração de apoio ao presidente taiwanês Tsai Ing-wen, que Pequim vê como perigosamente pró-independência.

Biden aumentou a temperatura durante sua primeira visita à Ásia como chefe supremo em maio de 2022. Questionado por um repórter se os EUA se envolveriam militarmente em um ataque chinês a Taiwan, após recusar enviar tropas americanas à Ucrânia para combater na invasão da Rússia, ele respondeu “Sim. É um compromisso que assumimos.”

A clareza do comentário foi de encontro à prática de longa data de Washington de dizer muito pouco sobre como os EUA responderiam a uma invasão em Taiwan – postura conhecida como ambiguidade estratégica.

O Ministério de Relações Exteriores da China atacou Biden quase imediatamente após os comentários, apesar de autoridades da Casa Branca terem dito que a política não mudou. O ministério disse que Pequim ”não tem lugar para meio-termo e concessão” em questões centrais, incluindo Taiwan, e que tomará medidas firmes para defender seus interesses de segurança.

 

Qual a relação de Taiwan com a China continental?

Taiwan foi controlada pelo Japão por meio século, até o fim da Segunda Guerra, quando se tornou parte da República da China, governada pelo Partido Nacionalista de Chiang Kai-shek, também conhecido com o Kuomintang.

Embora o continente tenha sido tomada pelas forças comunistas de Mao Zedong na guerra civil da China, a ilha permaneceu sob o controle do Kuomintang após o fim da guerra, em 1949. Tensões eclodiram com frequência nas décadas seguintes. A China bombardeou ilhas ao largo de Taiwan nos anos 50, e o Kuomintang por muitos anos nutriu ambições de recuperar o continente dos comunistas.

À medida que essas esperanças se desvaneceram, os taiwaneses passaram a ver cada vez mais a China continental como um lugar estrangeiro. No início da década de 1990, menos de 20% das pessoas na ilha se identificavam como exclusivamente taiwanesas, com a maioria se vendo pelo menos parcialmente chinesa. Em 2021, apenas um terço se identificou como chineses e taiwaneses, com a maioria dos demais se descrevendo como exclusivamente taiwaneses.

Embora o mandarim seja a língua dominante em ambos os lugares, a pressão chinesa ajudou a alimentar o interesse de Taiwan pelos idiomas locais da ilha.

 

Como a China respondeu às tensões crescentes?

As forças armadas chinesas, o Exército de Libertação Popular, enviaram caças, bombardeiros e aviões espiões em centenas de missões perto de Taiwan no ano passado. Taiwan descreve as incursões e outros movimentos militares da China na região como uma espécie de guerra de “zona cinzenta”, projetada para sondar e exaurir as defesas da ilha enquanto desencoraja Taipei a estreitar os laços com Washington e outras capitais democráticas.

Pequim também começou uma expansão considerável expansão de arsenal nuclear, em parte para impedir que os EUA usem as próprias armas nucleares em um conflito por Taiwan.

 

E quanto à reação de Taiwan?

Analistas de defesa há muito questionam a capacidade de Taiwan resistir a um ataque chinês. Os próprios soldados e reservistas taiwaneses já expressaram preocupações quanto ao treinamento e prontidão.

Em resposta, o governo de Taiwan estabeleceu uma agência para renovar as forças de reserva. Também realizou exercícios que espera impedir Pequim de contemplar uma invasão.

Mais recentemente, a guerra na Ucrânia levou Taiwan a repensar seus preparativos para um ataque, com alguns legisladores pressionando por mais compras de mísseis antitanque e antiaéreos portáteis que os soldados ucranianos usaram com grande efeito. Os militares da ilha também estão considerando estender o recrutamento para 12 meses dos quatro atuais – uma proposta que era amplamente considerada uma impossibilidade política antes da guerra.

 

O que é ambiguidade estratégica?

Oficialmente, o governo dos EUA segue uma política de “Uma China”, que reconhece a República Popular da China como único governo legítimo do país, e reconhece – mas não endossa – as reivindicações de Pequim sobre Taiwan.

Desde 1979, a política dos EUA direcionada à defesa de Taiwan tem sido dirigida por uma legislação chamada Lei de Relações de Taiwan, a qual sustenta que qualquer tentativa de determinar o futuro político de Taiwan por qualquer meio não pacífico constitui uma ameaça aos interesses americanos. O ato compromete os EUA a vender armas a Taiwan para autodefesa, mas é visivelmente silencioso sobre se uma obrigação dos EUA de defender Taiwan no caso de um ataque.

Por décadas, Washington evitou estrategicamente assumir um compromisso de qualquer maneira, na esperança de que a incerteza sobre sua postura impeça Pequim e Taipei de tomarem medidas para perturbar o status quo.

 

Os EUA mudaram de postura em relação a Taiwan?

Depende de para quem você pergunta. Os comentários de Biden em maio de 2022 marcaram a terceira vez que o presidente disse publicamente que os EUA sairiam à defesa de Taiwan. O primeiro foi em agosto de 2021, em entrevista no ABC News sobre a retirada dos EUA do Afeganistão, quando Biden incluiu Taiwan em uma lista de aliados a qual disse que os EUA tinham o dever de defender. Em um evento da CNN Town Hall em outubro de 2021, ele respondeu a uma pergunta sobre os EUA defenderem Taiwan dizendo: “Sim, temos o compromisso de fazer isso”.

Nas três vezes, oficiais da Casa Branca responderam com declarações de que a política dos EUA sobre Taiwan não mudou. No caso mais recente, um oficial da Casa Branca disse que Biden estava se referindo à obrigação dos EUA em reforçar a capacidade de Taipei de se defender.

Uma quantidade expressiva de analistas e legisladores em Taiwan descreveram a política dos EUA sobre a ilha como migrando da incerteza estratégica para a “clareza estratégica” de Biden.

J. Michael Cole, membro sênior do think tank Global Taiwan Institute, baseado em Washington, disse após os comentários mais recentes de Biden que era difícil saber qual é sua posição real. “Honestamente, não tenho ideia, e qualquer pessoa que não esteja na Casa Branca ou na cabeça de Biden, que afirme o contrário, está sendo falsa”, disse ele.

 

A China pode invadir Taiwan?

Analistas de política e defesa geralmente concordam que o exército da China, muito maior que o de Taiwan, poderia invadir e eventualmente tomar o controle, especialmente se os EUA ou outras potências não intervissem. Ano passado, o ministro da Defesa de Taiwan avisou legisladores que, em 2025, o PLA seria capaz de lançar um ataque em larga-escala em Taiwan “com perdas mínimas”.

 

Versão em português por Isabela Jordão. Baseado no texto originalmente escrito por Josh Chin para o The Wall Street Journal

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