BHIA3 subiu, mas é compra? Entenda o impacto da recuperação extrajudicial nas Casas Bahia

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As ações do Grupo Casas Bahia [BHIA3] dispararam quase 35% nesta segunda-feira (29), a R$ 7,30 no fechamento, em repercussão ao anúncio de uma recuperação extrajudicial (RE). O acordo estabelece o reperfilamento de R$ 4,1 bilhões em dívidas com os credores.

A Justiça deferiu o processo após o fechamento da Bolsa.

O efeito da recuperação extrajudicial nas operações da empresa vai além da prorrogação do prazo da dívida de Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) e debêntures. Há também carência de 24 meses para a Casas Bahia iniciar o pagamento da dívida e diminuição da taxa de juros.

A RE, neste caso, permite que a empresa “reestruture suas dívidas de forma mais rápida e eficiente, evitando os custos e a publicidade negativa associados à recuperação judicial”, ponderou Arthur Longo Ferreira, sócio das áreas de direito dos mercados financeiro e de capitais do Henneberg, Ferreira e Linard Advogados.

O objetivo é aliviar o caixa operacional da companhia para implementar transformações operacionais neste período.

Dos credores, Bradesco [BBDC4] e Banco do Brasil [BBAS3] representam 54,5% dos créditos. Assim, já se considerava o plano “virtualmente” aprovado mesmo antes da homologação judicial, já que os dois assinaram e concordaram com os termos.

Reação do mercado

A XP Investimentos enxerga o anúncio como um passo importante para a reestruturação da companhia. A RE reduz fortemente o peso da dívida nos próximos três anos, “deixando a empresa em uma posição mais confortável para executar outros ajustes operacionais e ajustar sua estrutura de capital”.

Além disso, os analistas da corretora destacaram que o plano não compromete as obrigações existentes com fornecedores e funcionários. Por outro lado, a possível diluição dos acionistas en até 83%, ligada à conversão das dívidas em ações, e a reação dos consumidores ao anúncio são os principais riscos no radar. A XP reiterou recomendação neutra para BHIA3.

Já Bruno Corano, economista e investidor da Corano Capital, avalia que o Grupo Casas Bahia “foi muito inteligente e persuasivo” ao escolher o caminho da RE.

A situação da empresa, explica, não é um privilégio e uma particularidade dela. O setor de varejo, de eletrodomésticos e afins já vem com um modelo de negócio de margens muito estreitas há anos no Brasil. “Ou seja, o limiar entre o lucro e o prejuízo é muito apertado.”

Para completar, as grandes varejistas contraíram dívidas em meio à oscilação de demanda e com a necessidade de financiamento e caixa, em razão dos altos estoques e de uma operação muito onerosa. Essas dívidas se mostraram muito nocivas com o aumento dos juros recente, comprometendo os resultados só pelo custo de se rolar a dívida.

Assim, “o CEO da Casas Bahia foi muito feliz, muito inteligente, muito persuasivo, em conseguir renegociar mais de 80% das dívidas financeiras com os bancos, principalmente Banco do Brasil e Bradesco, e jogar para muito lá para frente, dando um fôlego enorme para que a empresa possa se dedicar à operação e tentar encontrar as melhores soluções para os desafios próprios do negócio.”

BHIA3 subiu, mas é compra?

Apesar do salto de hoje, BHIA3 não apresentou nenhum sinal de reversão muito claro no gráfico, diz o analista técnico Filipe Borges.

“O ativo apresenta um bom volume, uma ótima movimentação, mas, com o gráfico, a gente consegue perceber que ainda trata-se de uma movimentação de baixa”. A um recorte mais amplo, BHIA3 está “muito longe ainda de uma reversão clássica de uma tendência de baixa”

Filipe recomenda aguardar o papel começar a trabalhar com topos e fundos ascendentes e trabalhar acima das médias, continuar com um bom volume comprador. “Esse volume realmente traduzindo uma movimentação de alta do ativo, aí eu aguardo uma pequena correção ou um descanso dos preços”, para, então, pensar em entradas no ativo.

No momento, “até por gestão de risco, não vejo nenhuma operação muito clara para ser feita nesse papel”.

Ele conclui com a recomendação para observar os próximos pregões.

Desempenho de BHIA3 de setembro de 2023 a abril de 2024. [Fonte: Filipe Borges]

Vantagens e desvantagens de uma RE

De acordo com Bruno Boris, sócio fundador do escritório Bruno Boris Advogados, a RE é muito menos prejudicial para uma empresa que a recuperação judicial (RJ). A primeira também se torna mais interessante pois não impõe restrições à companhia.

A RE “demonstra que a empresa tem, de fato, viabilidade econômica”. O processo descarta a participação de um juiz para mediar alguma negociação. “Você simplesmente negocia direto com o credor, consegue a negociação, e aí entra direto com o pedido de homologação.”

Dessa forma, prossegue o jurista, uma recuperação extrajudicial é melhor do que uma recuperação judicial até para o mercado. Isso porque a recuperanda não precisa, por exemplo, utilizar o stay period, período de suspensão das execuções contra a empresa, que é aplicado sobre todas as empresas que entram com recuperação judicial.

Efeitos da recuperação judicial nas Casas Bahia

A recuperação extrajudicial pode ser benéfica em situações nas quais a empresa tem boa relação ou maior facilidade de negociação com certos credores – como no caso atual, em que apenas dois credores conseguiram aprovar a renegociação de certas dívidas – e pode chegar a acordos favoráveis que permitam sua reestruturação sem a intervenção do judiciário, explicou Arthur Longo.

No entanto, o processo pode ser prejudicial se os credores não estiverem dispostos a cooperar ou se a empresa não conseguir chegar a acordos que sejam viáveis a longo prazo para sua sustentabilidade financeira. “Em alguns casos, a recuperação extrajudicial pode ser vista como uma medida paliativa, que apenas adia problemas maiores, se a empresa não conseguir resolver suas questões subjacentes.”

Como acontece uma Recuperação Extrajudicial 

A RE é muito mais rápida que a RJ, diz Bruno Boris. Por ser acertada com os credores desde o início, não há assembleia ou negociação.

O juiz simplesmente recebe o acordo e publica um edital informando eventuais credores que não foram abarcados ou eventualmente tenham alguma objeção. “Se ninguém se manifestar, o plano é homologado e a empresa começa a cumprir.”

No caso das Casas Bahia, foram negociados os créditos quirografários, chamados também de créditos comuns. Houve negociação com os principais credores, representativos de mais de 50% do valor, a maioria bancos, em razão das CCBs e das debêntures.

acordo estabelece uma prorrogação do pagamento, com os juros previstos no plano. “A empresa regularmente tinha atividade há mais de dois anos, com a documentação toda em ordem, nunca entrou com recuperação judicial, não foi falida, preenchendo os requisitos que o artigo 48 determina e apresentando documentos que comprovem esses requisitos.”

Com as atribuições descritas pelo advogado, a empresa ficou livre para pedir homologação da RE à Justiça – como aconteceu hoje.

 

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