Novo plano de investimentos anunciado pela Petrobras surge enquanto o Brasil busca expandir a exploração
A Petrobras anunciou que irá investir US$ 102 bilhões (aproximadamente R$ 500 bilhões) antes do final de 2028, enquanto a maior nação da América Latina se posiciona para se tornar uma das principais potências mundiais do petróleo. “Alguém tem que produzir petróleo, certo?” questionou Jean Paul Prates, o presidente da companhia, em entrevista na última sexta-feira (24).
O plano de investimento, divulgado na quinta-feira (23) por Prates, é 31% maior do que os US$ 78 bilhões (cerca de R$ 381 bilhões) que a Petrobras havia anunciado em seu plano anterior de cinco anos para o período de 2023 a 2027. Mais de 70% dos gastos serão destinados à produção e exploração, segundo o plano.
Enquanto as principais economias do mundo investem pesadamente em energia limpa, abandonando os combustíveis fósseis, o Brasil tem investido cada vez mais na produção de petróleo, explorando reservas em águas profundas ao largo da costa do Rio de Janeiro e visando depósitos potencialmente extensos perto da foz do Rio Amazonas.
“Só porque chegamos à conclusão de que o mundo precisa de energia limpa e cada vez mais dela”, disse Prates, “não significa que devemos condenar o petróleo e parar de extrair da noite para o dia”.
Ele acrescenta que se não fossem os lucros do petróleo, a Petrobras não seria capaz de investir em energia renovável. Se tornar verde é um processo de “metamorfose contínua”.
Com cortes na produção pela Arábia Saudita e Rússia, o Brasil está prestes a ser uma das três principais fontes de crescimento da produção global de petróleo este ano, ao lado dos EUA e Irã, de acordo com a Agência Internacional de Energia, grupo sediado em Paris dos maiores usuários mundiais de energia.
O Brasil já é o nono maior produtor de petróleo do mundo e o maior da América Latina. Em setembro, registrou produção recorde de petróleo e gás de 4,7 milhões de barris equivalentes de petróleo por dia, mais que o dobro do México. Desses, 3,7 milhões de barris eram de petróleo bruto, equivalente a mais de um quarto da produção dos EUA e 17% a mais do que no mesmo mês do ano anterior, segundo o regulador do petróleo ANP.
“A Petrobras tem uma capacidade absurdamente alta de gerar dinheiro”, disse Pedro Galdi, analista de investimentos da corretora Mirae Asset Brasil, com sede em São Paulo.
O problema da Petrobras não é fluxo de caixa ou conhecimento técnico, de acordo com Galdi. “A grande preocupação é política”, afirmou ele, citando temores de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que assumiu o cargo em janeiro, possa buscar maior influência sobre como a maior empresa do Brasil é administrada.
Entre 2011 e 2016, durante o último mandato do Partido dos Trabalhadores (PT) no governo, a Petrobras perdeu cerca de US$ 30 bilhões depois que o governo forçou a empresa a financiar subsídios para gasolina e diesel para combater a inflação. Em 2015, a Petrobras se tornou a petroleira mais endividada do mundo, devendo US$ 130 bilhões a credores.
Os políticos também usaram a empresa como um cofrinho por décadas, recebendo subornos em troca de contratos, conforme os procuradores descobriram ao investigar o escândalo de corrupção Lava Jato.
O caso, descoberto em 2014, envolveu dezenas dos empresários mais poderosos do Brasil. Também levou Lula à prisão em abril de 2018 por 19 meses, antes que suas condenações fossem anuladas.
Prates compartilhou que não sofreu pressão do atual presidente para baixar os preços e não espera isso. “Lula nunca me pediu direta ou indiretamente para interferir nos preços”, disse Prates, que é membro do Partido dos Trabalhadores. “Estamos comprometidos em honrar a confiança que os investidores depositaram em nós.”
Mudanças na governança após o escândalo ajudaram a “blindar” a Petrobras contra os erros do passado, afirmou Carolina Chimenti, analista sênior da Moody’s Investors Service em São Paulo. As decisões sobre contratos agora são tomadas por grupos de executivos, não apenas um, aumentando a transparência e dissuadindo a corrupção, explicou ela.
A Petrobras também vendeu algumas de suas refinarias, renunciando ao monopólio sobre o setor e reduzindo a participação para cerca de 80%, tornando mais difícil para o Estado controlar os preços, disse Chimenti.
No entanto, um aumento nos preços globais do petróleo poderia significar que o governo vai aumentar a pressão novamente, forçando a Petrobras a não repassar preços mais altos aos clientes, disse Adriano Pires, especialista em petróleo do Rio de Janeiro.
Ele recusou o cargo de presidente da empresa no ano passado em meio a uma série de agitações tumultuosas na gestão. “O presidente da Petrobras é o único chefe de uma empresa petrolífera que espera preços mais baixos”, concluiu Pires.
(Com The Wall Street Journal; Título original: Brazil Charts $100 Billion Path to Be Global Oil Power)