O pregão desta quinta-feira (23) foi daqueles no qual a expressão “festa dos 100k” soa otimista e não irônica. Aos 97.926 pontos, o Ibovespa fechou com menos de seis dígitos pela primeira vez desde 26 de agosto de 2022 e abaixo dos 98 mil pontos desde 18 de julho do mesmo ano.
Em pregões caóticos, difícil não surgir a dúvida sobre o que fazer com a própria carteira de investimentos. Victor Benndorf, sócio-fundador e analista chefe da casa de research que leva seu sobrenome, diz que “o investidor que está atualmente posicionado em bolsa precisa seguir a estratégia dele”.
Do curto ao longo prazo, como proceder em dias caóticos
Controle de risco é a chave em momentos atípicos. Ao invés de comprar ações apenas porque o preço despencou, Victor aconselha observar se houve alguma mudança no cenário macroeconômico ou nos fundamentos da empresa em questão, de modo a saber se o preço compensa o investimento.
“Precisa ter um racional para entrada e um racional de saída.” Victor destaca a necessidade de controle de entrada – motivos para entrar e motivos para sair das operações –, alertando sobre alocações intensas em empresas com potencial de desvalorizar muito os portfólios.
“O investidor que não souber fazer controle de risco por si só precisa contar com uma assessoria”, recomenda.
A despeito do panorama negativo antevisto pelo mercado na sessão do dia, movimentos de queda firme do Ibovespa como o de hoje são benignos para quem opera day trade – um “luxo que o holder [investidor de longo prazo] não tem”, sintetiza Victor.
Aos operadores do curto prazo, o especialista recomenda respeitar a tendência principal do índice. Contrariar a tendência do benchmark é sempre o caminho para um trade malsucedido.
“Não lute contra a tendência, esse é o meu recado”, reforça Victor, acrescentando que “o trader precisa ser maleável, precisa entender que as vendas fazem parte do arsenal”.
Assim, fundos gráficos naturalmente devem levar a operações de venda, enquanto os topos, a operações de compra. Quanto mais claro o viés do índice, como nesta quinta-feira, melhor para as operações de curto prazo – basta não contrariar o viés.
O analista fala por experiência. A mesa de operações da Benndorf, relata Victor, registrou três operações de venda na sessão, duas bem-sucedidas e uma “no zero a zero”.
De acordo com Filipe Borges, analista técnico da mesma casa, um dos trades de sucesso do dia foi a melhor operação do ano na Benndorf.
Para monitorar a tendência majoritária nas operações, Filipe usa o gráfico de minutos e o gráfico diário. “Eu opero por um gráfico de cinco minutos, um gráfico de execução, e sempre tento pegar continuação de tendência do gráfico diário e de 60 minutos.”
Para onde vai o Ibovespa?
O prognóstico para o Ibovespa nos próximos dias é uma assimilação dos 96 mil pontos, segundo Victor Benndorf. “O mercado deve respirar depois desse risco sistêmico, deve começar a separar o joio do trigo.”
Caso o Ibovespa de fato perca os 96 mil pontos, prossegue, o índice “perde todos os suportes e entra em uma tendência de baixa”.
No entanto, o analista indica correções dos exageros da venda generalizada na sessão desta quinta-feira, movimento comum em dias de aversão ao risco intensa. O motivo seria a causa sistêmica das desvalorizações.
“É uma queda do quadro macro, não o micro ou individual de cada empresa”, explica. O recuo do Ibovespa, de 2,29% ao fim da sessão, expressa uma expectativa por uma economia mais contraída em meio à agressividade do Banco Central no combate à inflação.
Apesar de a manutenção da Selic em 13,75% anunciada ontem pela autoridade monetária ter vindo dentro das projeções, o comunicado do Copom surpreendeu.
A autarquia se mostrou favorável a manter a taxa básica de juros nas máximas, cogitando ainda um novo reajuste em caso de piora no quadro inflacionário.
Em outras palavras, comentou Victor Benndorf, o comunicado foi bem agressivo, “e os investidores esperavam exatamente o contrário, porque nos Estados Unidos, a expectativa do Fed é começar a abrandar o aperto monetário por conta da crise de crédito”.
Na visão do especialista, o parecer do Copom foi um recado para o Poder Executivo, “de que, se eles pisarem na bola no arcabouço fiscal, ou qualquer outra medida populista na parte das contas públicas, o Banco Central vai fazer o trabalho dele de conter a inflação”.