Crise bancária nos EUA: lições aprendidas em 2008 não são suficientes para evitar novo colapso

“A natureza das crises de agora e da grande crise financeira – em 2008 – são bem diferentes”, afirmou o estrategista da Nomos, Rodrigo Corrêa.

A crise de 2008 nos Estados Unidos foi um evento histórico que abalou o mundo inteiro, levando à falência de grandes instituições financeiras e resultando em uma recessão econômica global.

Mais de uma década depois, o setor bancário dos Estados Unidos está novamente enfrentando um período de instabilidade.

À medida que as autarquias financeiras se esforçam para conter a atual crise bancária, muitos se perguntam se as lições aprendidas com a chamada crise do subprime serão aplicadas para evitar um novo colapso financeiro.

Segundo Rodrigo, em 2008, a crise vivida surgiu de maus hábitos de compra e investimentos alavancados no setor imobiliário. Por serem naturalmente insustentáveis, a bolha cresceu e estourou. 

Crise dos bancos: cenário atual

A quebra sequencial de bancos regionais americanos tornou-se assunto recorrente nos jornais nas últimas semanas. O cenário ecoa 2008 – afinal, também envolve instituições financeiras – mas possui características singulares.

O Silicon Valley Bank (SVB), que se concentrava em fornecer serviços bancários a empresas de tecnologia e capital de risco, foi atingido por perdas relacionadas à sua exposição a um único cliente.

Essa exposição causou uma queda no preço das ações do SVB, levando a uma investigação da SEC, a comissão de valores mobiliários dos EUA.

Embora o cenário não seja favorável e a aversão ao risco tome conta do mercado, os governos e seus bancos centrais estão alertas e atuaram sem hesitar.

O SVB foi o primeiro banco a quebrar, e prontamente o Federal Reserve (Fed) tratou toda a situação, liquidando o problema em apenas um fim de semana.

Na mesma semana, o Signature Bank também faliu, e o BC americano, automaticamente para conter a turbulência e evitar pânico no mercado, jogou fora a própria cartilha de não usar dinheiro do contribuinte e garantiu 100% dos depósitos em ambos os bancos.

Mudanças regulatórias deixam setor financeiro vulnerável

A crise financeira de 2008 gerou mudanças estruturais no sistema financeiro global, visando manter a resiliência do setor. Nos EUA, a Lei Dodd-Frank, promulgada em 2010, teve como objetivo aumentar a regulação e supervisão das instituições financeiras.

Essa legislação classificou qualquer banco com mais de US$ 50 bilhões em ativos como “sistemicamente importantes”. Dessa forma, essas instituições estariam sujeitas a padrões prudenciais mais rigorosos, como testes de estresse e requisitos de planejamento de capital e liquidez.

Contudo, em 2018, o ex-presidente dos EUA, Donald Trump, reverteu algumas dessas regras para bancos pequenos e médios.

Uma das mudanças foi o aumento do limite de ativos para as instituições serem consideradas “sistemicamente importantes” de US$ 50 bilhões para US$ 250 bilhões, o que excluiu muitos bancos pequenos e médios da regulação.

Essa mudança teve um impacto significativo no SVB e no Signature Bank, que faliram com US$ 209 bilhões e US$ 110 bilhões em ativos, respectivamente.

O cenário é parcialmente atribuível à redução das regulamentações. “Ironicamente, o CEO do SVB foi uma das pessoas que defendeu regulações mais leves”, observou o analista de macroeconomia da Benndorf, Marco Ferrini.

Embora o Banco Central americano tenha tomado medidas preventivas, a situação gera insegurança sobre a estabilidade do sistema bancário.

Persiste o temor quanto ao colapso de outras instituições. A mudança regulatória nos EUA pode ter sido bem-intencionada, mas aparentemente deixou o setor financeiro mais vulnerável.

Contexto histórico

Em torno de 1998, os bancos americanos começaram a conceder empréstimos para pessoas sem condições de honrar com a dívida. Essa concessão de crédito, mais tarde conhecida como subprime.

O problema é que essa modalidade de empréstimo foi concedida em larga escala, o que posteriormente resultou em uma bolha imobiliária.

TradeNews

Os empréstimos concedidos foram acumulando em pacotes de investimento e foram vendidos para investidores ao redor do mundo como produtos financeiros de baixo risco.

Porém, por volta de 2008, quando as pessoas que receberam os empréstimos não conseguiram pagar as dívidas, a bolha estourou e os investidores perderam bilhões de dólares.

A confiança dos investidores se esvaiu gradualmente durante a crise do subprime, à medida que instituições financeiras registraram prejuízos causados pelas hipotecas de alto risco, o que desencadeou ondas de falências.

O subprime é considerado um dos maiores escândalos financeiros da história recente dos Estados Unidos. A crise resultou na queda no mercado imobiliário dos EUA, que se espalhou por todo o sistema financeiro global.

De acordo com os especialistas consultados pelo Trade News, as crises recentes ainda reverberam os resquícios de 2008, e a crise atual do sistema bancário é prova disso.

Apesar de os efeitos diretos do subprime já não existirem mais nos dias atuais, a cultura do “too big to fail” – “grande demais para quebrar” – tornou-se um elemento fundamental do capitalismo financeiro contemporâneo, declarou Ferrini.

Por meio dos bailouts, as injeções de capital, os governos mundiais criaram um risco moral persistente ao sinalizar para as instituições financeiras que é possível assumir riscos excessivos e não enfrentar completamente as consequências de suas ações.

Isso pode ser observado nos casos do SVB, Signature Bank e Credit Suisse. Embora a privatização dos lucros e a socialização das perdas já existissem antes da crise do subprime, elas se tornaram ainda mais acentuadas após o ocorrido.

O legado da crise

A crise deixou como legados para a economia global um aumento da regulação no setor financeiro, maior foco no gerenciamento de riscos, ênfase na transparência, cooperação e coordenação entre reguladores, além de maior atenção à proteção do consumidor.

No entanto, também surgem heranças negativas, como as taxas de juros baixas por longos períodos nos mercados desenvolvidos e o aumento significativo das dívidas públicas em países desenvolvidos – que, de acordo com o macroeconomista da Benndorf, foi o grande responsável pela crise da dívida europeia entre 2009 e 2010.

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