O índice de preços ao consumidor (IPCA) registrou a primeira deflação em 10 meses, conforme divulgado na terça-feira (12) pelo IBGE. Em tese, deflação é sinônimo de queda nos preços – portanto, algo positivo, correto? Não necessariamente.
A começar pelo real significado da deflação medida pelo IPCA. Considerando que o índice mede a variação dos preços de uma cesta de produtos e serviços, os resultados refletem o desempenho de uma média, então não necessariamente indicam uma queda generalizada nos preços.
Quando deflação é algo ruim
Enquanto inflação é um aumento generalizado nos preços de bens e serviços, o qual penaliza o consumidor – principalmente o mais pobre – deflação é o processo inverso. Entretanto, assim como uma ação barata nem sempre é sinal de oportunidade, queda nos preços nem sempre é sinal de melhora da economia.
Pelo contrário, deflação recorrente e prolongada pode sinalizar problemas econômicos. Caso do Japão, cujo banco central há décadas tenta fazer o nível dos preços subir para a meta de 2%.
A terceira maior economia do mundo sofre de deflação de demanda, explica Eduardo Rahal, analista da Levante Corp. O fenômeno consiste na queda generalizada do consumo dos investidores, levando a uma sobre oferta de bens e serviços, a qual pode resultar no crescimento do desemprego e queda no crescimento econômico.
O caso japonês
A economia japonesa estagnou de tal modo nos anos 1990 que o período ficou conhecido como “a década perdida”. A deflação de demanda no país insular também se deve a fatores culturais, acrescentou Rafael Rondinelli, economista da Eleven Financial.
O consumidor no Japão tende à relutância em gastar, algo comum quando a deflação perdura. Afinal, uma vez que os preços caem continuamente, pode-se adiar gastos na expectativa de preços mais baixos à frente – aprofundando o declínio da demanda.
Ou seja, da mesma forma que inflação aguda mina o poder de compra, uma deflação contínua também tem efeitos negativos. “O que se busca em qualquer economia é um ponto de equilíbrio”, resumiu Ricardo Jorge, especialista em renda fixa e sócio da Quantzed.
Assim, prossegue, o ideal é que toda economia tenha um pouco de inflação, pois esta sinaliza um equilíbrio entre oferta e demanda, com a segunda superando minimamente a primeira. A definição de “um pouco de inflação” varia de economia para economia.
O instrumento disponível para manutenção de tal equilíbrio, diz Jorge, é a política monetária. Os bancos centrais podem aumentar ou diminuir a taxa de juros de modo a regular o fluxo de disponibilidade de dinheiro disponível para consumo.
“O que não pode acontecer é ter uma demanda muito maior do que a disponibilidade ofertada, porque isso vai gerar um processo de elevação dos preços”, isto é, inflação generalizada.
Quando a deflação é positiva
Deflação representa um cenário positivo para a economia real, diz Rafael Rondinelli, quando sinaliza a dissolução de choques altistas – como os causados por guerras, que costumam impulsionar os preços das commodities.
Adicionalmente, uma deflação é positiva “quando representa um alívio de um processo inflacionário forte, abrindo espaço para possibilidade de cortes na taxa de juros de um país”, a qual abre portas para crescimento econômico.
“Se você começa a ver um processo de deflação em que os bens e serviços estão ficando mais baratos e as pessoas têm mais poder de compra”, descreveu Ricardo Jorge, há um cenário positivo de deflação.
Eduardo Rahal, da Levante, dá o exemplo das revoluções tecnológicas – que reduzem custos de produção, aumentam a eficiência e resultam em preços mais baixos – como propulsoras de deflações positivas, dada a oferta de bens e serviços mais acessíveis e uma demanda inalterada.
O que significa a deflação de junho no Brasil
A queda do IPCA em junho é algo bastante pontual, na visão da Levante Corp., e não consiste em arrefecimento estrutural dos preços. As categorias Alimentação e bebidas e Transportes foram as principais contribuições para o resultado do mês, segundo o IBGE.
Assim, a deflação veio, principalmente, do barateamento dos combustíveis, carros novos e alimentos, “itens bastante voláteis do indicador, de forma geral”, descreveu Eduardo Rahal, pontuando também sobre a volta da incidência de impostos sobre os combustíveis em março como potencial propulsor para a inflação em breve.
O bom desempenho do setor agropecuário no ano também atua como um choque baixista na inflação dos alimentos, acrescentou o especialista da Quantzed. A casa define a deflação do IPCA em junho como suficiente para permitir o início do afrouxamento monetário, “o que tende a beneficiar a atividade econômica à frente”.
Ricardo Jorge classifica a deflação do IPCA em junho como positiva, dado que reduzir os preços é justamente o objetivo da política de preços. O número computado pelo IBGE, no entanto, traduz resistência dos preços.
Ainda assim, a expectativa do especialista é que, em dado momento, já não se veja deflação no país, mas sim uma alta moderada dos preços – o ponto de equilíbrio mencionado anteriormente.

Desafios à frente
A reoneração dos combustíveis deve puxar um pouco mais os preços, “bem como a enorme defasagem de preços praticados já pela Petrobras versus o mercado internacional”, comentou Rahal. Hoje, a diferença fica em torno de 15%.
Em caso de uma alta expressiva do petróleo, sugere o analista da Levante, é possível que este item do indicador que tem contribuído positivamente para a queda da inflação passe a contribuir de forma negativa, puxando o IPCA para cima.
Além disso, a deflação dos alimentos deve-se muito ao mercado externo, “uma vez que, por receio de uma recessão mais severa e de uma China não tão aquecida como o esperado, vimos uma queda bastante expressiva em diversas commodities”.
Assim, explica Rahal, não é seguro contar com uma continuidade do movimento. Inclusive, boa parte das commodities está retornando ao patamar anterior de preços, impulsionadas também pelo fenômeno do El Niño, “que pode potencialmente puxar de volta o preço de diversas commodities e inverter este quadro mais benigno da inflação”.
A resiliência do setor de serviços e sua respectiva leitura subjacente reforçam um cenário de desaceleração mais lenta da inflação à frente, ponderou Rondinelli em relatório. Eduardo Rahal corrobora, acrescentando também a dinâmica do mercado de trabalho nacional como forte desafio antes de uma real queda de preços na economia real.