Depois do IPCA, faz sentido pensar em corte da Selic em breve?

O índice nacional de preços ao consumidor amplo (IPCA), divulgado ontem (11), surpreendeu investidores  com seu resultado, levando o Ibovespa a um salto de mais de 4%, aos 106 mil pontos. 

O indicador ficou no patamar de 0,71% em março, impulsionado pela alta da gasolina e desacelerando dos 0,84% registrados em fevereiro. O resultado ficou abaixo do consenso de projeção do mercado, de 0,77%. 

Neste ano, a inflação acumula alta de 2,09% e, nos últimos doze meses, de 4,65%, bem abaixo dos 5,60% registrados nos doze meses imediatamente anteriores. 

De acordo com o analista de macroeconomia da Benndorf Research, Marco Ferrini, o IPCA deve continuar esta trajetória de desaceleração até os primeiros meses do segundo trimestre.

“Então [o IPCA deve] ganhar ritmo na segunda metade do ano, à medida que a retomada chinesa aumentar a demanda por bens brasileiros e gerar um efeito positivo na economia interna”, disse Marco. 

Inflação e Selic

Apesar do desempenho melhor que as expectativas, um cenário em que a inflação fique dentro da meta de 3,25% estipulada pelo Banco Central para 2023 é “bastante improvável”, segundo Marco. Projeções do próprio BC apontam que a chance de descumprimento da meta é de 83%

De acordo com o analista de macroeconomia, “diante dos benefícios esperados pela retomada chinesa, da oferta reduzida de petróleo pela Opep+, da probabilidade de cortes de juros e da improbabilidade de estímulos fiscais”, o cumprimento fica mais distante. 

Outra conjuntura que é difícil de ocorrer é um corte na Selic em maio. 

“Há um processo de desancoragem das expectativas de inflação em andamento de acordo com o Boletim Focus, retratando o risco fiscal significante no país e um grau considerável de desconfiança”, explicou o analista. 

Ainda assim, projeta a Benndorf Research, a resposta do Banco Central não deve tardar. “Ao mesmo tempo […] esperamos cortes de juros por parte do BC e a pressão sobre a oferta de petróleo ficará mais evidente, estimulando a atividade econômica”, completou Marco. 

Gasolina ainda é problema

A gasolina foi a maior “dor de cabeça” para o IPCA de março e, segundo Marco, provavelmente continuará sendo pelos próximos meses, “a menos que o governo decida alterar a política de preços da Petrobras”. 

“A alta da gasolina será explicada pela valorização do barril do petróleo ao longo de 2023, influenciada pela redução da oferta de petróleo no mercado mundial, expectativa de importações recordes da China e demanda sólida da Índia”, acrescenta. 

Outros setores

Além do setor de transportes – do qual a gasolina faz parte -, outros sete setores apresentaram alta nos preços, mesmo com a desaceleração do IPCA. O único que recuou foi o de Artigos de residência.

No entanto, Marco explica que isso é normal, e em grande parte destes setores houve desaceleração de fevereiro para março. 

“Em relação a fevereiro, as variações foram menos expressivas em alguns itens, como a Educação, que registrou uma forte perda de ritmo ao passar de 6,28% em fevereiro, quando havia sido afetada pelos reajustes de mensalidades, para 0,1% em março”, exemplificou. 

“No mais, a inflação é um processo natural e saudável da economia, se controlado, então é esperado que os preços subam ao longo do tempo.”

Quem pode ganhar com isso?

“O cenário de inflação mais baixa beneficia setores sensíveis às taxas de juros e preços, como o imobiliário, de bens duráveis e de consumo cíclico”, esclareceu Marco.

O analista explica que isso acontece por conta da restrição dos preços e diminuição das taxas de juros, os quais estimulam a procura por crédito, o consumo e reduzem a deterioração do poder de compra dos cidadãos, o que eleva a renda disponível.

Além destes, o setor petrolífero também deverá se beneficiar, devido à redução da oferta de petróleo e o aumento recorrente da demanda na China e na Índia. 

 

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