Nenhum dos candidatos obteve a maioria de 50% necessária para evitar um segundo turno de votação
A Turquia realizará um segundo turno da eleição presidencial no final deste mês, disseram autoridades na segunda-feira (15), com o presidente Recep Tayyip Erdogan emergindo das pesquisas deste fim de semana com uma vantagem surpreendente sobre seu principal adversário em uma votação com amplas implicações geopolíticas e no cenário doméstico.
Erdogan ganhou 49,51% e seu oponente Kemal Kilicdaroglu teve 44,88% no primeiro turno da eleição no domingo (14), com todos os votos apurados, de acordo com o chefe do Conselho Eleitoral Supremo da Turquia.
Nenhum dos candidatos obteve a maioria de 50% necessária para uma vitória no primeiro turno, com ambos dizendo que estão preparados para aceitar um segundo turno de votação, que ocorreria em 28 de maio.
O resultado aumenta a ansiedade dentro da Turquia enquanto os dois campos se preparam para o que provavelmente serão mais duas semanas de campanha intensa para o primeiro segundo turno da história do país.
O resultado da eleição da Turquia pode ter efeitos cascata tanto no país quanto no exterior.
Erdogan alavancou habilmente a posição da Turquia na encruzilhada do Oriente e do Ocidente, inserindo o país em grandes rivalidades de poder e exercendo influência no Oriente Médio, na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e na Ucrânia.

Todavia, na Turquia, Erdogan enfrenta críticas por conta das políticas econômicas que deixaram muitos turcos mais pobres, bem como ressentimento com as medidas para aumentar seu controle do poder e corroer as instituições democráticas do país.
Os resultados de domingo também aumentam o risco de que a Turquia enfrente um acerto de contas financeiro nos próximos meses e anos, afirmaram investidores e analistas.
As ações e os preços dos títulos turcos caíram na segunda-feira após a votação inconclusiva que deu a liderança a Erdogan.
Investidores estrangeiros retiraram dinheiro da Turquia sob o governo de Erdogan, que pressionou o banco central do país a adotar uma política pouco ortodoxa de cortar as taxas de juros, apesar da alta da inflação.
Os desequilíbrios econômicos do país incluem um amplo déficit em conta corrente e uma moeda ainda supervalorizada.
O resultado da votação de domingo frustrou as esperanças dos oponentes do atual presidente, que estavam cheios de otimismo nos últimos dias de que poderiam derrubá-lo no primeiro turno da votação.
Kilicdaroglu, apoiado por uma aliança de seis partidos, esperava aproveitar uma onda de descontentamento público devido a uma crise de custo de vida e cansaço com o estilo de governo autocrático do Sr. Erdogan, para obter uma vitória histórica após duas décadas em que o atual presidente dominou a política turca e concentrou poder na presidência.

Erdogan ficou atrás de Kilicdaroglu em uma série de pesquisas nos dias anteriores à eleição.
A repentina retirada de um candidato de um terceiro partido também aumentou as chances de Kilicdaroglu vencer no primeiro turno, explicaram analistas políticos.
Os resultados das eleições de domingo mostram que a Turquia continua profundamente dividida, com o atual presidente amado por milhões como um defensor dos conservadores do país e insultado por outros como um líder que corroeu as instituições democráticas do país e prendeu seus oponentes.
“O que vemos novamente é que a sociedade turca está dividida em duas metades”, disse Murat Somer, professor de ciência política e relações internacionais na Universidade Koc de Istambul.
“Essa política polarizadora é realmente muito poderosa quando se torna um estado de política, um estado de equilíbrio.”
Em um discurso na manhã de ontem, Erdogan reivindicou a maioria para sua aliança governista no Parlamento, desferindo outro golpe significativo contra a oposição que provavelmente moldará a percepção de que o presidente tem uma vantagem rumo ao segundo turno.
O Partido da Justiça e Desenvolvimento de Erdogan, conhecido como AKP, continuou sendo o maior partido do Parlamento, conquistando pelo menos 266 assentos.
Juntamente com seus parceiros de coalizão – incluindo o direitista Partido do Movimento Nacionalista, que reivindicou 50 assentos – o bloco governista manterá o controle da Câmara, de acordo com resultados divulgados pela agência de notícias estatal Anadolu.
“Estamos bem à frente”, declarou o presidente a uma multidão de apoiadores em Ancara na manhã desta segunda-feira.

Inabalável com os resultados iniciais, a oposição prometeu continuar lutando.
“Eu estou aqui, bem aqui, e você está aqui. Vou lutar até o fim”, disse Kilicdaroglu, batendo com o punho no coração e batendo com a mão na mesa em um vídeo que tuitou ontem.
O segundo turno colocará Kilicdaroglu, um longo defensor da democracia turca e do estado de direito, contra Erdogan, o consumado sobrevivente político do país que no passado desafiou adversários e superou uma tentativa de golpe militar em 2016.
Reunindo dezenas de milhões de eleitores a seu lado, o presidente atual provou o poder duradouro de seu tipo de política com seus apelos à solidariedade muçulmana e ao orgulho nacional.
Durante a campanha eleitoral, Erdogan também atacou seus oponentes, chamando a oposição de “pró-LGBT” e acusando-os de se aliar a “terroristas”.
“Acho que os problemas econômicos vão e vêm. O que realmente importa para mim é a unidade e a estabilidade do Estado”, afirmou Gonul Tasbasi, 38 anos, mãe de dois filhos, que votou em Kasimpasa, o bairro operário de Istambul onde Erdogan cresceu.
Os resultados divulgados pela agência de notícias estatal da Turquia mostraram que Erdogan está na frente em geral em distritos mais rurais e conservadores, embora também tenha obtido milhões de votos nas principais cidades e liderado a província de Bursa, lar da quarta maior cidade da Turquia de mesmo nome, e em Gaziantep, outra grande cidade e um importante centro industrial perto da fronteira com a Síria.

Kilicdaroglu liderou nas maiores cidades do país, incluindo Istambul, Ancara e Izmir, e reivindicou grandes maiorias nas províncias de maioria curda do sudeste da Turquia, de acordo com a agência de notícias estatal.
O partido pró-curdo do país apoiou o candidato da oposição, em uma decisão que os líderes esperavam que rendesse milhões de votos e uma possível margem decisiva.
O candidato de um terceiro partido, o político de extrema direita Sinan Ogan, obteve 5,17% no primeiro turno, segundo a agência de notícias estatal, o que significa que seu bloco de votos pode desempenhar um papel importante na decisão do segundo turno.
Ogan pediu uma aceleração da repressão aos refugiados em meio ao aumento do sentimento anti-imigrante na Turquia.
Embora a coalizão governista mantivesse sua maioria no Parlamento, o partido AKP de Erdogan caiu em sua parcela de votos de 42,56% na última eleição em 2018 para 35,49% nos resultados iniciais relatados pela agência de notícias estatal, refletindo as preocupações do público sobre a economia da Turquia, que está sob forte pressão devido ao colapso da moeda e à alta inflação.
A lira turca perdeu mais da metade de seu valor nos últimos dois anos, apesar das repetidas intervenções do banco central que esgotaram as reservas estrangeiras da Turquia.
De acordo com uma avaliação do governo, a Turquia também precisa de mais de US$ 100 bilhões para se reconstruir, depois que terremotos em fevereiro devastaram uma parte do país e mataram 56.000 pessoas na Turquia e na Síria.
“A Turquia sempre teve vulnerabilidades, mas nos últimos três anos o país tem estado cada vez mais com o tempo contado”, disse Richard Briggs, gerente sênior de fundos da Candriam.
O papel descomunal de Erdogan nos assuntos globais significa que a eleição tem importantes riscos para o futuro da Turquia, do Oriente Médio e da invasão da Ucrânia pela Rússia.
Embora a Turquia seja um membro importante da OTAN, Erdogan se aproximou da Rússia e cultivou um relacionamento pessoal com o presidente russo, Vladimir Putin, laços que causaram atrito com os EUA e seus aliados europeus.
Na guerra da Ucrânia, Erdogan procurou jogar em todos os lados, vendendo armas para Kiev enquanto também expandia o comércio com Moscou.
Os EUA expressaram preocupação de que a Turquia esteja ajudando a Rússia a escapar das sanções ocidentais.
Durante a campanha eleitoral, Erdogan argumentou que a Turquia se tornou um jogador mais poderoso no cenário mundial sob sua liderança.
Kilicdaroglu prometeu reequilibrar as alianças da Turquia, melhorando os laços com o Ocidente, ressuscitando o pedido do país para ingressar na União Européia e fortalecendo o papel da Turquia na OTAN.
Ele também declaoru que quer manter uma amizade com a Rússia e evitar conflitos com o Kremlin.

(Título original: Turkish Election Goes to Runoff After Erdogan Takes Lead in First Round – The Wall Street Journal)