Enquanto Kuroda entrega rédeas do BoJ, expectativas de que sucessor possa consertar a economia são limitadas

Governador do Banco do Japão, Haruhiko Kuroda. [Fonte: Koichiro Tezuka/Bloomberg News]

É provável que o próximo presidente do Banco do Japão (BoJ) encontre um desafio semelhante ao que enfrentou o diretor Haruhiko Kuroda, que está deixando o cargo, quando chegou há uma década: inflação teimosamente baixa e uma economia lenta para acompanhá-la.

A diferença é que Kazuo Ueda, que deve ser nomeado na terça-feira (21) para suceder Kuroda, assumirá com menos confiança de que o banco central do Japão possa resolver esses problemas, que datam da década de 1990.

A troca da guarda marca o fim das grandes expectativas para o banco central como um fazedor de milagres econômicos. Ueda, 71 anos, viu isso acontecer há quase 25 anos.

Em um artigo de opinião do Wall Street Journal de 2000, escrito quando ele estava no conselho de políticas do BoJ e o Japão estava em seus primeiros dias lidando com a queda dos preços, Ueda abordou as maneiras pelas quais um presidente do banco central poderia tentar sacudir a economia – e achou que todos estavam em falta.

Definir uma meta de inflação de 2% não era uma má ideia, escreveu Ueda, mas “exigiria outras razões além da política monetária para a economia se recuperar”. A compra de títulos do governo de longo prazo “pode não ser estimulante”, continuou. Tentar abalar a psicologia do consumidor com declarações ousadas sobre a chegada da inflação levantou temores de que o “compromisso não fosse visto como confiável”.

Era como se Ueda tivesse uma bola de cristal. Quando Kuroda assumiu o cargo, em 2013, ele tentou todos esses passos. Agora, nos últimos meses antes de seu mandato terminar em abril, ele admite que não cumpriu sua promessa de gerar inflação sustentável de 2%, uma meta estabelecida por muitos bancos centrais –  em parte porque permite mais espaço em uma recessão para estimular uma recuperação por meio de taxas de juros mais baixas.

Kuroda em 2020 com seu esperado sucessor, Kazuo Ueda [Fonte: KyodoNews/Zuma Press]
Durante as crises econômicas, os banqueiros centrais podem, às vezes, dar a volta por cima. Pense na linha “o que for preciso” do chefe do Banco Central Europeu, Mario Draghi, em 2012, uma promessa de apoiar títulos de economias instáveis que resgataram a Zona do Euro.

Mas, como Ueda escreveu por décadas, os problemas do Japão são crônicos, não agudos. Mesmo com taxas de juros em zero, o que normalmente estimularia uma corrida de consumidores e empresas para tomar empréstimos e gastar, a demanda no Japão é inadequada, uma situação que os economistas chamam de “armadilha de liquidez”. Um banco central não pode empurrar as taxas muito abaixo de zero, embora Kuroda tenha tentado isso também. Ele chegou a -0,1%.

Com a demanda geralmente caindo, é difícil obter uma inflação estável e modesta – o tipo bom procurado por muitos bancos centrais que pode estimular um ciclo virtuoso de aumentos salariais e investimentos corporativos. Em vez disso, o que o Japão obteve no ano passado foi uma inflação ruim de “pressão de custos” impulsionada por fatores externos, como os altos preços do petróleo.

Agora, a inflação japonesa está em cerca de 4%. Mas o BoJ prevê que a taxa básica de inflação cairá para 1,6% no ano que começa em abril. A maioria dos economistas privados oferece previsões semelhantes, como fez Ueda em um artigo que publicou em julho de 2022. 

Para sair da armadilha da liquidez, Kuroda fez de Tóquio um centro global de experimentação, observado por formuladores de políticas em países como os Estados Unidos. Sua principal tática era comprar títulos do governo mantidos por bancos comerciais. Neste ano, o Banco do Japão possuía o equivalente a mais de US$ 4 trilhões, pouco mais da metade da quantidade de títulos em circulação.

Banco Central do Japão [Fonte: Reprodução]
A experiência sugere, no entanto, que, na ausência de algum outro fator impulsionando a demanda, essas grandes compras não geram nem a prosperidade robusta que Kuroda desejava nem o colapso hiperinflacionário que os pessimistas previam. As operações do BoJ significam simplesmente que os bancos comerciais vendem um título do governo e obtêm outro tipo de ativo do governo, um depósito no banco central.

“O que exatamente você esperava que acontecesse? É apenas trocar um ativo pelo outro”, disse Stefan Angrick, economista da Moody’s Analytics, que tem sede em Tóquio.

Os escritos de Ueda nos últimos anos muitas vezes terminam com uma nota pessimista sobre o que um banqueiro central pode fazer. Ele disse na sexta-feira (10) que manteria as taxas de juros baixas, sugerindo continuidade com as políticas de Kuroda.

Os analistas esperam que ele modifique ou elimine o teto de Kuroda sobre o rendimento dos títulos do governo de 10 anos, atualmente fixado em 0,5%, o que colocou o banco na mira dos especuladores e interrompeu o mercado de títulos. Angrick afirmou que isso poderia ser feito mantendo as taxas gerais baixas.

Alguns observadores dizem que o impacto de Kuroda não deve ser subestimado e que o Japão ainda pode atingir uma inflação estável de 2% à medida que o país suspende todas as restrições do Covid-19 e recupera o turismo.

Takako Masai, que atuou como membro do conselho do BoJ sob o comando de Kuroda, disse que suas políticas tiveram um efeito positivo, principalmente ao derrubar o iene. Kuroda “manteve o carvão pronto” para uma inflação saudável quando as condições melhorarem, disse Masai.

O campo reflacionista que apoiou o ainda presidente do BoJ diz que mais deve ser feito para acender o fogo. Ele quer que o governo injete dinheiro diretamente para bens e serviços, incluindo mais gastos militares.

“Apesar da dívida muito alta, o Japão não enfrenta um problema de sustentabilidade da dívida”, escreveu Olivier Blanchard, ex-diretor de pesquisa do Fundo Monetário Internacional, em seu último livro, “Fiscal Policy Under Low Interest Rates”. Blanchard aponta que investimentos públicos mais pesados em áreas como tecnologia verde fazem sentido.

Por outro lado, o primeiro-ministro Fumio Kishida diz que a dívida do Japão é um fardo para as gerações futuras e pede impostos mais altos.

Etsuro Honda, ex-funcionário do Ministério das Finanças que assessorou o falecido primeiro-ministro Shinzo Abe, chamou os aumentos de impostos de “uma política de estupidez incomparável”.

Honda afirmou que a economia do Japão ainda está essencialmente na armadilha da liquidez que Ueda diagnosticou há duas décadas. “É absolutamente necessário ter um estímulo de política fiscal”, disse Honda. “Se você fizer isso agora, será extraordinariamente eficaz em levar ao crescimento econômico.”

Tais comentários apontam para um debate vigoroso este ano sobre como resgatar a economia japonesa. Só não conte com o Ueda para aparecer como salvador da pátria.

 

 

(The Wall Street Journal)

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