Sem sinal de corte da Selic à vista, a pergunta que fica é: quando vai acabar a sangria nas ações da B3? E é impossível não citar companhias de varejo quando se fala nos ativos mais pressionados por inflação e juros.
Além do panorama macroeconômico, as varejistas aparentemente se encontram em uma situação peculiar, com o estouro do caso Americanas [AMER3] em janeiro e da Marisa [AMAR3] no mês seguinte.
Todavia, o cenário para investimentos no varejo é nebuloso, mas não impossível, segundo a analista de varejo da Eleven Financial, Victoria Minatto.
Em entrevista exclusiva para o TradeNews, ela destacou ações resilientes no setor e os detalhes do atual contexto.
TradeNews: O anúncio do rombo da Americanas foi quase uma “caixa de Pandora corporativa”. Depois desse acontecimento, houve o estouro de casos como o da Marisa, e até de empresas de outros setores. Você vê algum tipo de conexão entre essas crises em empresas brasileiras acontecendo ao mesmo tempo?
Victoria Minatto: A resposta é meio que unânime, né? É um reflexo de uma taxa de juros mais alta, que é uma consequência dessa política monetária mais restritiva para conter a inflação.
É muito comum no varejo as empresas se alavancarem para crescer (na verdade isso é normal em vários segmentos, é normal uma empresa contrair dívida para crescer).
Então o que acontece é que, em 2019 até 2020, quando a taxa de juros ainda estava mais baixa, em patamares perto entre 2% e 3%, muitas empresas se alavancaram.
Ninguém esperava que a taxa de juros fosse a 13% tão rápido. Eu falo com as companhias, e ninguém colocava isso no planejamento.
Elas foram pegando dinheiro para expandir, aproveitar o momento de pandemia, em que os competidores mais fracos estavam mal.
Aí eu falo de todos os segmentos: todo varejista pequeno estava quebrando na pandemia ou tendo muita dificuldade, enquanto as empresas da bolsa estavam pegando dinheiro justamente para capturar esse market share.
O que acontece é que, se a sua venda não retoma no ritmo que você esperava, você tem essa desalavancagem operacional por si só. Se as vendas não acompanham o seu investimento, você já tem aí algumas dificuldades operacionais, você tem uma margem menor…
Mas quando se adiciona uma despesa financeira muito maior do que esperava e uma venda também abaixo do estimado, esse gap fica maior ainda e a companhia fica com dificuldades muito maiores.
Esse é o caso de Marisa, é muito diferente do que aconteceu com a Americanas. Americanas também sofreu bastante com o a taxa de juros mais alta, uma despesa financeira mais alta, mas aí é uma fraude, é um erro de contabilidade, é uma coisa que vem de décadas.
Não tem nada a ver o que aconteceu com Marisa, que é literalmente uma empresa bastante alavancada, que não vende. Então, você tem ali as despesas da operação crescendo, mas uma venda que não cresce.

TN: Pode-se dizer, na verdade, que as margens apertadas são a principal dificuldade de uma varejista?
VM: Em um cenário de taxa de juros alta, o que a gente tem que prestar mais atenção no balanço de uma varejista é a geração de caixa, que é cíclica para o varejo. Tem trimestres que são consumo de caixa e tem trimestres que são geração de caixa.
Também é importante não olhar isoladamente. Olhar a geração de caixa e alavancagem. Por quê? Porque varejo é meio que revender as coisas, não se cria nada.
Apesar de fabricar a roupa, a empresa já comprou de alguém. Não é como se estivéssemos falando de uma Irani [RANI3], de uma Gerdau [GGBR4], que tem uma margem maior.
Você já trabalha com uma margem apertada no varejo. Então quando se tem uma margem que já é naturalmente apertada, quando se tem um business que depende muito do que está acontecendo no ambiente externo – tudo bem que todos os setores funcionam assim, mas o varejo não é essencial, quando a gente tira alimentos e farmácia da conta – fica bem mais difícil.
As companhias têm uma dívida muito grande e que tem uma relação de dívida líquida acima de duas vezes – entre uma e duas é ok, não acho muito preocupante, mas quem tem acima de duas vezes eu já não gosto muito, porque você tem uma despesa financeira que onera um lucro que já não é tão grande.
Vou pegar um exemplo. Petz [PETZ3] é uma empresa que, até o trimestre passado, tinha um caixa líquido, ou seja, ela tinha mais caixa do que dívida. Isso é uma coisa boa, apesar de não ser a maior a maior fã de Petz no preço que está.
Pega Track and Field [TFCO3]. É uma empresa que não tem dívida. É uma empresa que gera caixa, é uma empresa que não tem despesa financeira.
Entre eu pensar em investir em uma C&A [CEAB3], que está ridiculamente barata – Renner [LREN3] está barata, mas C&A é surreal, estão precificando como se a empresa fosse quebrar amanhã – quando eu tenho uma taxa de juros que me rende, vou arredondar, 14% ao ano, por que eu vou correr um risco de investir em C&A, por mais barata que esteja, e de repente ela começar a encolher?
Por que eu vou fazer isso, se eu posso investir numa Track and Field, que não tem dívida, gera caixa, não cresce tanto, mas cresce seus 10%, 15% ao ano e tem um público alvo que é mais resiliente?
Investir no varejo é dentro dos próprios ciclos econômicos. Tem ciclos de aperto monetário e de um afrouxo. Então investir no varejo é um ciclo, tem hora que é pra comprar e tem hora que é pra vender, não tem muito o que fazer. É um trade.
TN: Você diria que o novo cenário político muda algo direta ou indiretamente na perspectiva paro varejo?
VM: Muda. É muito binário o que vai acontecer, isso é a parte mais difícil. Se me perguntar o que eu espero do varejo para 2023, a resposta é literalmente “eu não sei”, porque é tão binário.
Não é como foi em 2021, 2022, quando se tinha o feeling de uma questão mais macro, porque já havia um governo ali e meio que se sabia como ele ia lidar com as coisas.
Agora não. Tem-se um cenário externo que já se está monitorando há muito tempo, mas não se sabe como o Lula vai lidar com gasto público.
E o fiscal é muito importante na inflação. E, se a inflação volta a acelerar, há um cenário muito ruim para o varejo por mais um ano.
Vai ter sempre dois pesos, uma medida, porque, de um lado, provavelmente terá liberação de estímulos, então vai ter estímulo de consumo, mas por outro lado você vai ter inflação.
Com o Lula mais controlado em termos de gasto fiscal et cetera, eu vejo o varejo retomando aos poucos com mais consistência, porque vai haver o arrefecimento da inflação de maneira mais consistente.
TN: Você falou que o investimento no varejo é algo cíclico. Agora, falando das empresas em si, podemos olhar Mesbla, Ricardo Eletro, até mesmo Americanas, já foram líderes de seus respectivos mercados que quebraram depois. Pode-se dizer que, de modo geral, empresa de varejo tem data de validade?
VM: Acho que é fácil de entender quando a gente compara com outros setores. Temos um setor que está muito pior que o varejo, que é o de companhias aéreas.
Empresas extremamente alavancadas, sofrendo. Aí é pedir RJ, rolar dívida, mas nada acontece. Por quê? Porque você tem três empresas – a Latam, a Azul e a Gol –, e você tem um serviço que é meio que essencial para a população.
Então tem muito subsídio, então tem ajuda do governo, então não vai quebrar, porque é de interesse do governo manter – a gente precisa viajar, não tem outra opção, e, se uma quebra, a outra não consegue tão facilmente absorver toda a operação, como Magalu e e e Via conseguem receber as compras de uma geladeira.
Mesma coisa com utilities, que é um um setor de de consumo básico, essencial. A gente precisa de energia, a gente precisa de saneamento.
Quando a gente olha o que importa e o que não importa – vamos excluir os mais de 40 mil empregos da conta, obviamente – que diferença faz para o Brasil uma Americanas a menos e uma Americanas a mais? Não é um setor essencial para o funcionamento do país.
Há milhares, milhões de empresas de varejo espalhadas pelo Brasil. É e-commerce para tudo que é lado, loja para tudo que é lado. Não só as varejistas, falando de empresas específicas, não são essenciais, mas existe uma competição muito forte.
Antes era uma competição entre uma loja pequena e essas grandes magazines. Agora você compete com uma loja do interior do Pará que tem um e-commerce bonito e consegue fazer um Google Ads ou um um patrocinado no Instagram bonito.
São todos esses fatores juntos, adicionado logística. É preciso uma logística muito forte, acertar a coleção, porque senão se tem um estoque obsoleto – e isso é literalmente queima de caixa.
O varejo é muito difícil de operar no Brasil, fora a questão tributária. Até por isso tanta empresa gringa desiste de abrir loja física aqui, porque você tem uma complexidade tributária muito grande, então os mesmos produtos têm tributações diferentes em estados diferentes.
As empresas vão ficando pelo caminho, porque realmente é muito difícil de operar. Mas não que o setor como um todo. Todas as empresas vão quebrar um dia? Eu acho que não, mas vejo como um setor que tende à consolidação justamente por isso, porque quem sabe operar vai continuar operando muito bem, e quem tem dificuldade, quem patina, vai quebrar.
Marisa, por exemplo, nunca consegue acertar uma coleção, Marisa não consegue deixar a loja bonita, Marisa não conseguiu fazer um digital decente. Não é porque o varejo é ruim, mas é porque a Marisa se tornou uma empresa que ficou pra trás.
TN: No martelar de casos polêmicos e crises do varejo, é fácil infundir a ideia de que o investimento no setor não compensa. O que tem de bom no varejo hoje? Poderia citar algumas empresas nas quais vale a pena investir no momento?
VM: Vale a pena investir no momento é meio complicado, porque as ações estão caindo. Mas eu discordo respeitosamente de algumas pessoas que falam “nunca investirei em varejo porque a margem é apertada, é muito cíclico, não tem diferenciação”.
Discordo, mas ao mesmo tempo entendo que investir em varejo não é o buy and hold tradicional. Não é como uma Energias do Brasil [ENBR3], uma Taesa [TAEE11], no sentido de segurar por 50 anos, receber dividendos, justamente porque você sabe que tem ciclos.
Para quem é holder, concordo que não faz sentido ter uma empresa de varejo.
Varejo não paga dividendo, não é uma empresa da qual você vai virar sócio, vai começar a receber uma renda extra.
Porque realmente é muito difícil ter dinheiro sobrando pra pagar esse dividendo, justamente porque são margens apertadas, então tem épocas de vacas gordas e vacas magras.
Mas, para quem já tem um um perfil mais dinâmico, do tipo que troca a carteira a cada seis meses, a cada um ano, a cada dois anos, aí eu acho que tem muitas oportunidades no varejo, porque o que realmente faz sentido e que, não só para o varejo, mas para vários outros segmentos, é realmente acompanhar ao longo dos trimestres, se mudou alguma coisa no fundamento.
Dentro do varejo eu acho que sempre vão existir oportunidades. Seja porque o mercado exagera na queda ou na subida.
Situação de Alpargatas [ALPA4], que era uma oportunidade excelente de short quando o papel subiu para caramba, assim como Petz. Petz é uma oportunidade de compra, agora o mercado já exagerou bastante.
Track and Field é uma boa opção, ela está em um mercado resiliente, dentro de um segmento que está crescendo, o de wellness, de exercício físico. Está performando muito bem desde o início da pandemia.
Fora isso, ela está com um conceito de loja completamente diferente, então ela está meio que revitalizando as lojas com conceito mais de café. Isso está aumentando muito o fluxo nas lojas e o ticket médio também. As vendas aumentaram nessas lojas que foram reformadas.
É uma companhia que cresce de um jeito asset light, porque é franquia, então não tem essa necessidade de contração de dívida, imobilização de capital, cresce muito pelo franqueado, não tem dívida, então é uma ótima empresa, muito mais provável de pagar bons dividendos do que qualquer outra.
É o stock picking. Tem Vivara [VIVA3], Arezzo [ARZZ3]… Eu não gosto tanto de Grupo Soma [SOMA3], mas também tem o Grupo Soma nessa conta de empresas que têm um diferencial. O importante é olhar pra isso.
Por exemplo, eu não gosto de Petz como investimento porque tem várias concorrentes. Tem coisa de Petz que vende na C&A, na Riachuelo, na Cobasi.
Qual é o diferencial da Petz? Que ela tem capital aberto. Todo mundo fala de Petz, mas as pessoas esquecem que na vida real a Petz não tem diferencial nenhum.
O diferencial das boas empresas no varejo, para quem quer investir, são empresas que têm diferencial na vida real, junto com o momento. Empresas com pouco endividamento ou caixa líquido e que tem um diferencial competitivo.
Qual é o diferencial competitivo de Magalu [MGLU3] e de Via [VIIA3]? Nenhum, não tem como competir com o Mercado Livre [MELI34], não tem como competir com ninguém.