A temporada de balanços teve início na semana passada, com o resultado das Indústrias Romi [ROMI3] na terça-feira (18) e de Usiminas [USIM5] na quinta-feira (20).
Nesta semana, a temporada começou a ganhar tração com o resultado do Santander [SANB11], divulgado nesta terça-feira (25).
O analista da Nomos Investimentos, Max Bohm, recomenda não esperar números surpreendentemente altos no 1T23. O período não será “um trimestre de destaque para as empresas brasileiras”.
Visão geral
Durante o quarto trimestre de 2022, houve uma crescente preocupação sobre uma possível recessão econômica em decorrência do aumento das taxas de juros pelos bancos centrais globais.
Apesar disso, as expectativas de que a inflação esteja chegando ao seu ápice e de que uma redução no ritmo de elevação das taxas de juros esteja próxima trouxeram benefícios para os mercados.
Fatores macroeconômicos terão grande impacto nos resultados do primeiro trimestre deste ano. De acordo com Max, o aspecto de maior peso será o juro.
“Acho que os juros altos ainda vão acabar batendo, principalmente, nas empresas mais alavancadas, que têm uma relação dívida líquida/Ebitda alta. Isso vai continuar impactando as despesas financeiras que estão mais altas e, consequentemente, o lucro líquido”, explicou o analista.
Outro fator de influência nos balanços é a inflação, a qual veio mais controlada em março. “Inflação mais controlada tende a ter um reflexo positivo para quem tem custos muito atrelados à inflação”, analisou.
Já para as empresas que possuem uma receita ajustada à inflação, como as de tecnologia ou de utilities, podem ter um crescimento menor com a baixa da pressão inflacionária, explica Max.
O último agente citado foi o dólar, que protagonizou grandes quedas neste trimestre, chegando até a um patamar abaixo dos R$ 5,00.
“Isso pode beneficiar aquelas empresas que têm algum tipo de custo dolarizado e prejudicar empresas exportadoras, que eu acho que não devem ter um primeiro trimestre positivo, como empresas de papel e celulose ou empresas de mineração”, apontou o analista.
Entre os setores que devem ter resultados positivos, Max lista o setor farmacêutico, petrolíferas e bancos – principalmente Itaú [ITUB3; ITUB4] e Banco do Brasil [BBAS3], assim como a varejista Mercado Livre [MELI34].
Na projeção de resultados negativos, o analista elenca os setores siderurgia, mineração, educação, agronegócio, e varejo como um todo.
Quanto à influência da política, Max assinala que, diretamente, a troca de governo não deve impactar nos resultados das empresas.
O que a mudança no governo federal pode fazer é afetar as principais variáveis que pesarão nos balanços: inflação, dólar e juros.
“É claro que a mudança de governo acaba afetando essas variáveis indiretamente, mas o novo governo Lula não tende a afetar diretamente, pelo menos os resultados do primeiro trimestre”, disse Max, acrescentando que o efeito de Brasília pode ser maior caso haja mais taxação ou fim de benefícios fiscais que ainda não estão em prática.
Petróleo
O principal destaque do setor deve ser a Prio [PRIO3], segundo o analista fundamentalista da Benndorf Research, Júlio Borba.
A empresa “teve grandes vendas realizadas nesse 1º trimestre, e deve continuar apresentando queda no lifting cost com a revitalização dos poços”, declarou o analista.
Em relação aos fatores político-econômicos exteriores que podem afetar os balanços do setor, o corte de mais de 1 milhão de barris por dia (bpd) pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados (Opep+) deve ser o principal.
“[O corte] já vem afetando no preço do petróleo e deve auxiliar a manter o mesmo em patamar elevado pelos próximos trimestres, mesmo que a demanda global arrefeça um pouco. Isso irá ajudar na melhora de receitas e margens das petroleiras”, esclareceu.
Já no cenário interno, o mercado monitora as recentes turbulências envolvendo a política de Preços de Paridade de Importação (PPI) da Petrobras [PETR3;PETR4].
No início deste mês, o ministro Alexandre Silveira havia anunciado o fim da política, mas foi desmentido pela empresa. O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, afirmou que seu governo irá alterar a PPI, mas “com muito critério”.
O presidente da Petrobras, Jean Paul Prates, também criticou a política. “As críticas em si não impactam o balanço, mas a estratégia de precificação sim”, explicou Júlio.
“Por enquanto não foi efetivada nenhuma mudança na estratégia de precificação dos combustíveis, no entanto, estamos vendo atrasos nos repasses visando manter os combustíveis em preços mais baixos e isso, com certeza, irá afetar os resultados da empresa”, completou.
Além disso, o analista explica que, caso seja efetuada alguma mudança na empresa, autorizando a venda de combustíveis a preços mais baixos, a movimentação pode afetar permanentemente os próximos resultados da empresa.
Varejo
Max assinala que será interessante observar os resultados do setor para ver quem irá ganhar market share, isto é, qual das empresas irá performar bem com a queda da Americanas no 4T22.
“No primeiro trimestre que a gente vai ver a demanda, como os concorrentes das Americanas absorveram a demanda [da empresa]”, disse o analista.
Para ele, o argentino Mercado Livre deve ser o grande vencedor nesta disputa.
“Magazine Luiza e Via Varejo [ficam] um pouco para trás, mas eu acho que algum sinal de melhora de demanda vai ter, por por causa de Americanas”, analisou Max.
Bancos
No setor financeiro, os destaques positivos devem ser Itaú e Banco do Brasil, segundo o analista da Levante, Eduardo Siqueira.
“Banco do Brasil talvez seja o nosso top pick hoje, a gente vê uma ação bem descontada. O banco está com uma performance operacional muito melhor do que nos últimos anos”, explicou Eduardo.
“Ele está surfando um bom momento do crédito agro; saúde de carteira controlada; despesas avançando em ritmo lento”, prosseguiu.
Já o Itaú, de acordo com o analista, é um banco bem transparente com o mercado, sempre aberto a discussões e com um guidance bem positivo para 2023.
“O banco tem conseguido controlar a saúde da carteira, tem conseguido executar. Vemos potencial de crescimento ali nas linhas de receita de serviço e seguro e principalmente a parte de seguro, que é uma coisa que está crescendo bastante”, analisou.
Para Eduardo, as recentes turbulências no setor bancário não devem afetar tanto os balanços bancários brasileiros. Além disso, ele reitera que a Levante vê estes tremores no setor como risco controlado e não de fato uma crise.
Frigoríficos
O segmento estampou os noticiários com o caso de “mal da vaca louca” no Brasil, o qual interrompeu momentaneamente as exportações para a China – maior compradora de carne bovina do país.
O economista da Levante Rodrigo Romero destaca que o caso deve sim afetar os balanços corporativos das empresas neste 1T23.
“Estimamos mais uma retração nos preços da carne em 10% no comparativo anual. Isso deve manter a volatilidade alta no setor no curto prazo”, esclareceu.
No entanto, Rodrigo reitera que continua otimista em relação ao setor no médio e longo prazo, em especial, com Minerva [BEEF3], apesar do curto prazo desafiador.
“Do lado positivo, o ciclo favorável para indústria na América do Sul, com o aumento do abate de fêmeas desde 2022 e consequentemente melhor oferta de animais desde então, deve fazer com que os preços da arroba do boi se equilibrem em patamares mais baixos ao longo do ano”, afirmou o economista.
Isso deve favorecer a margem do segmento, principalmente para Minerva, que é grande exportadora para Ásia.
“No curto prazo, ainda enxergamos os desafios relacionados aos spreads. Desde o 4T22 temos visto preços e volumes menores do que o que estimávamos inicialmente, que perduraram neste inicio de ano”, completou.