Há espaço para duas Bolsas de Valores no Brasil?

Analistas gostam da ideia de quebrar o monopólio da B3, mas a ausência de liquidez no mercado nacional mina expectativas.

Analistas gostam da ideia de quebrar o monopólio da B3, mas ausência de liquidez no mercado nacional mina expectativas.  

As ações da B3 [B3SA3] fecharam em queda de 3,2% nesta sexta-feira (01), cotadas a R$ 12,42. A desvalorização reflete a informação de que terá início em 2025 a nova Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, estruturada pelo Mubadala Capital para concorrer com a então única praça do Brasil. 

A ideia de criar uma nova Bolsa no país não é novidade. O projeto do Mubadala, aliás, dá continuidade a uma empreitada iniciada há mais de dez anos pelo Américas Trading Group (ATG), comprada pelo fundo árabe no ano passado.

Desde os anos 2000 o Rio de Janeiro está desacostumado a ser palco de pregão. A ausência do mercado de capitais na Cidade Maravilhosa, todavia, jamais deveria ter caído na normalidade, de acordo com Carlos Cova. 

“Uma metrópole como o Rio de Janeiro não pode prescindir da força e da vitalidade que um centro financeiro proporciona para o fortalecimento de um processo de desenvolvimento econômico sustentável”, defende o professor e economista em seu livro “Pulsão do Mercado: uma história da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro”.

Capa do livro “Pulsão do Mercado: uma história da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro”, de Carlos Cova. [Foto: Carlos Cova]
Sediar pregões, todavia, não seria suficiente para sustentar a existência de uma nova Bolsa no Brasil. Não faria sentido restabelecer uma praça em solo carioca apenas como sede de negociação em plena era dos processamentos online, diz Cova.

Um projeto de Bolsa poderia funcionar também como entidade de fomento ao estudo e à prática do mercado de capitais para a população, assim como de apoio a empresas menores em busca de solidez. 

O professor vê amplo potencial para uma BVRJ repaginada enquanto agente social. Como exemplo, o livro cita a concessão de bolsas de estudo a jovens estudantes que desejem aprender os conteúdos necessários para atuar no mercado financeiro. 

Falta capilaridade

Max Bohm, estrategista de investimentos da Nomos, pessoalmente considera o mercado nacional pouco desenvolvido para duas bolsas de valores, e faz questão de ressaltar a diferença de porte entre Brasil e Estados Unidos nesse aspecto. 

Não à toa, pondera, que a antiga BVRJ não existe mais. “A gente não tem volume financeiro, de negócios, e pessoas mesmo, investidores, que comporte ter duas bolsas.” 

O especialista não vê o projeto com bons olhos. Ele expressa que gostaria de ver viabilidade de uma nova Bolsa no país, mas diante da realidade do mercado financeiro local, a visão é negativa. 

De fato, um mercado de capitais desaquecido como o atual não é o momento adequado para um projeto como o do Mubadala, concorda Victor Benndorf, analista e sócio da casa de research que leva seu nome. Todavia, ele dá o benefício da dúvida por conta da trajetória de queda nos juros. 

Victor projeta uma Selic terminal em torno de 9%, com uma consequente melhora do ambiente de mercado brasileiro. “Isso é imperativo para qualquer bolsa dar certo.”

Sede da antiga BVRJ, na Praça XV, Centro do Rio de Janeiro. A antiga Bolsa do Rio caiu em descrédito após o escândalo Nahas e fechou as portas de vez no início dos anos 2000. [Foto: O Globo]
Femisapien, pseudônimo da economista e sócia da Quantzed, também expressa preocupação com uma liquidez escassa, mas aponta potenciais vantagens na abertura de uma nova praça. 

Para a nova praça dar certo, diz ela, precisaria de novas empresas listadas, de preferência com perfil diferente das atualmente listadas na B3. Femisapien dá o exemplo das startups de tecnologia. 

“Acho que o Brasil tem boas startups”, opina, e a nova bolsa pode também listar BDR’s. “Um novo mercado daria mais oportunidades para se investir em ativos que não estão na B3, o que pode gerar mais interesse de investidores estrangeiros no Brasil.” 

Em contrapartida, prossegue a economista, uma Bolsa jovem poderia dar espaço para uma onda de IPO’s de empresas que não estejam suficientemente maduras, “como ocorreu há alguns anos”.

Copo meio cheio?

Outro aspecto potencialmente positivo para a Bolsa do Mubadala seria a quebra de monopólio. “Competidor é que faz você ficar afiado”, expressou Victor Benndorf. Apesar de não ser uma estatal, diz o analista, a B3 tem grandes ineficiências por conta da ausência de competição. 

Teoricamente, a concorrência impulsionaria a Bolsa de São Paulo a prestar melhor serviço e com o melhor preço, “além da supracitada oportunidade para startups, que são em sua maioria empresas de tecnologia, poderem listar ações no mercado”, complementa Femisapien. 

Em Nova York, as negociações de índices futuros acontecem 24 horas. [Foto: Reuters/Brendan McDermid]
O analista Rodrigo Cohen, co-fundador da Escola de Investimentos, acredita que o monopólio da B3 sempre atrapalhou o crescimento do mercado de capitais do Brasil. “Quando a gente tem monopólio, não existe competição, então quem está no poder manda, e o serviço, por melhor que seja, certamente cai, deixa a desejar.”

Para Cohen, o Brasil só teria a ganhar com uma nova Bolsa por aqui, desde que os serviços oferecidos sejam bons. Por “bom serviço”, ele dá o exemplo do funcionamento 24 horas, que atualmente a B3 não oferece, mas já é praticado fora do Brasil – Wall Street inclusa.

“Tudo bem que quando estiver de madrugada a nossa bolsa aqui, o nosso índice futuro, por exemplo, não vai estar andando, como outros países também não andam quando está de madrugada”, conjectura o especialista. 

Apesar das ressalvas, ele vê em uma nova praça a chance aumentar a liquidez do mercado nacional e fazer o mundo conhecer mais o Brasil, trazendo mais visibilidade inclusive para a B3. “Eu acho que é muito positivo”, conclui. 

A ver

O projeto do Mubadala está sendo desenvolvido para operar em todos os mercados, de ações a derivativos, passando por câmbio e outros produtos, disse Lauro Jardim, do jornal O Globo, que reportou com exclusividade o andamento da nova Bolsa. Foi contratada uma empresa para dar nome à praça.

Fica a dúvida se os planos vão sair do papel. “O mercado brasileiro, como outros de emergentes, é um lugar difícil de fazer negócio”, adverte Victor Benndorf. Quem faz negócio no Brasil, faz em qualquer lugar do mundo, completa, parafraseando a frase de um ex-CEO da Volkswagen. 

Espaço para crescer é o que não falta, dada a ausência de participação da população brasileira no mercado de capitais hoje se comparado à Europa ou Estados Unidos. “O mercado endereçável é enorme, não é uma indústria saturada.”

“Estamos falando de um plano de negócios ousado para essa nova Bolsa do Rio de Janeiro”, sintetiza Carlos Cova rumo ao final de seu livro. “Sonho? Delírio? Saudosismo? Só o futuro poderá responder essa pergunta.” O professor tem razão. 

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