“Jênio” ou gênio do Mal?

Brasília (DF) 25/04/2023  Presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, durante audiência pública na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. (CAE)  Foto Lula Marques/ Agência Brasil.

DISCLAIMER: o texto a seguir trata apenas da opinião do autor e não necessariamente reflete a opinião institucional da Nomos Investimentos ou do TradeNews.

Essa semana perguntei à Isabela Jordão, jornalista do TradeNews, se eu estava escrevendo muito sobre assuntos econômicos envoltos em política. Ela respondeu-me que, de fato, o foco do mercado financeiro no momento se encontra no novo governo e em suas novas políticas econômicas. Achei boa a resposta e descansei. Planejei escrever outros textos sem nenhum conteúdo político, mas infelizmente nosso governo não dá trégua.

Vocês viram a última que aconteceu no CAE (Comissão de Assuntos Econômicos) no Senado Federal, quando Roberto Campos Neto (RCN) apresentou sua visão ao Senado?

Nesse vídeo, o senador Cid Gomes (PDT-CE), começando em 2:15:40, começou a apresentar sua solução para RCN. Pegou até uma lousa de giz para demonstrar suas habilidades didáticas ao presidente do BC. Segue abaixo o trecho destacado. Realmente, vale assistir e ver até onde o brilhantismo desse nobre senador chega.

No título, chamo-o de “jênio” com “J” em alusão ao bicho, jumento. Mas, pensando bem, não quero mal-falar os asininos. Fato é que a sugestão dele é tão inovadora que só pode ser considerada “jenial”.

Pergunto-me por que ninguém nunca sugeriu isso? Já que temos uma economia em pé de igualdade a da americana, por que não baixar nossos juros e praticar o que os Estados Unidos praticam?

Só de fazer isso, segundo os cálculos do ilustre parlamentar, teríamos R$ 510 bilhões de poupança dos juros não gastos. Com certeza, esse montante de 3x o que o governo procura aumentar em arrecadação para implementar sua agenda, seria prontamente provido. Jenial, não?

Aproveitando a sugestão, porque não jogamos logo os juros para zero, como o mesmo Estados Unidos praticaram por longos anos na história recente? A economia seria ainda maior.

Ironias à parte, teve um país que fez exatamente o que Cid Gomes sugere. E os resultados foram tão fabulosos que vale citar tal experiência internacional.

O país é a Turquia e o jênio turco é Erdogan, seu presidente. De acordo com a matéria da Reuters abaixo, Erdogan, com sua canetada, a partir do final de 2021, abaixou os juros de 19% para 8,5% e mergulhou o país numa crise gigantesca que comeu via inflação a economia turca. O país terminou 2022 com 64,3% de inflação.

Tradução: “Erdogan diz que taxas de juros vão cair enquanto ele estiver no poder”. [Fonte: Reuters]
Caso da “canetada” de Erdogan nos juros turcos e seus efeitos deletérios. [Fonte: CNN Brasil]
Inflação histórica da Turquia. [Fonte: WorldData]
Taxa de juros básicos da Turquia. [Fonte: Trading Economics]
Ah, Rodrigo, mas a Turquia não é o Brasil. Isso não prova nada. Bom, se esse argumento é válido, também digo que o Brasil não é os Estados Unidos (comparação do Senador Cid). Mas vamos, por hipótese e amor ao debate, supor que o Brasil pode ser comparado aos EUA mas não a Turquia.

Então, peguemos nossa própria história. Dilma, entre agosto de 2011 e novembro de 2012, e seu BC, liderado por Alexandre Tombini, abaixaram os juros de 12,5% para 7,25% (chamei esse período de 1 no gráfico abaixo). Na época o BC não era legalmente independente.

Não dá para afirmar que foi uma canetada de Dilma (seria implicar que Tombini fazia o que Dilma mandava, não há provas concretas disso), mas o fato é que abaixaram os juros.

Detalhe importante: veja onde estava a inflação na época (destacado dentro do quadrado vermelho de cantos arredondados) – o IPCA flutuava entre o centro e a banda superior da meta de inflação, tendo no começo de seu mandato já rompido brevemente o teto. Ou seja, a inflação tinha tendencia de alta e decidiram ignorar solenemente essa tendencia.

Como todo economista sabe, os juros, após alteração deles pela autoridade econômica, levam entre 6 a 12 meses para se propagarem e fazerem sentir na economia real. No momento 2, vemos o IPCA começar a desgarrar de sua faixa alvo (função da queda de juros anterior) e literalmente explodir, chegando a 2 dígitos em novembro de 2015.

E, com essa alta de juros, o BC da época não teve alternativa a não ser voltar a subir a Selic dos 7,25% para 14,25% (entre março de 2013 e julho de 2015). Tentaram até uma breve pausa entre maio e setembro de 2014, só para continuar a subir os juros na sequência até um patamar acima do que se encontrava antes da baixa da Selic artificialmente disparada com o momento 1.

Os juros, como todas as outras variáveis econômicas, são dados pela soma da sociedade conhecida como mercado financeiro. Não são controlados pelo governo. E canetadas artificiais afetam os mais pobres com mais inflação. No limite, destroem países, como o caso atual da Turquia e a crise causada por Dilma em 2015-16 demonstraram.

Finalizo esse texto perguntando: Cid (e os demais do governo que têm feito coro para baixar a inflação na canetada) deve(m) ser considerado(s) “jênio(s)” ou gênio(s) do mal? É ignorância ou vontade de governar um povo arrasado? Qual a sua leitura?

 

 

 

 

 

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