Existe um estigma de que bancos se beneficiam de juros altos, pois esse cenário já foi realidade nas décadas de 80, 90 e início dos anos 2000, quando a receita de tesouraria dos bancos surfou na onda da Selic alta. Entretanto, essa já não é uma realidade de hoje.
Durante uma das sabatinas do Roberto Campos Neto, um senador comentou que o Banco Central do Brasil tem o viés de manter os juros altos para beneficiar bancos e que o próprio Campos Neto, tendo trabalhado em uma instituição bancária, sabia disso, comentou Beto Saadia, diretor de investimentos da Nomos.
Saadia acrescentou que, naquele momento, o diretor do BC exibiu um dos gráficos mais famosos que demonstram que não é “bem assim”, apesar de já ter acontecido antes.
“É daí que surgiu esse senso comum, porque ele já foi verdade”, disse.
De acordo com o analista Luís Novaes, essa ideia considera que as instituições financeiras bancárias podem rentabilizar os depósitos em uma taxa maior, porém explicou que isso depende de outras variáveis também.
O analista pontuou que uma política monetária restritiva pode ter impactos negativos sobre a disponibilidade de renda da população, afetando os níveis de depósitos bancários, e na capacidade de pagamento de dívidas, deteriorando a qualidade do crédito.
“Portanto, em cenário de juros elevados, ainda mais esse movimento de alta acontecendo em um curto espaço de tempo, os bancos podem mais ser prejudicados pelo ambiente do que favorecidos”, afirmou.
Novaes complementou ainda que as instituições bancárias mais prejudicadas pelos juros elevados, ou pela elevação num curto espaço de tempo, são as que possuem maior exposição às rendas baixas da população e/ou micro e pequenos empresários, “considerando que há pouco espaço no orçamento para arcar com essa maior pressão financeira”.
Ele exemplificou que dentre os grandes bancos brasileiros, essa dinâmica se mostrou visível com o Bradesco [BBDC4], que viu seus resultados se tornarem significativamente piores em razão dos juros elevados, e o Itaú [ITUB4], que foi capaz de manter uma alta rentabilidade apesar do ambiente, “sendo esse um acontecimento de destaque nesse ciclo de alta dos juros”.
Por outro lado, juros altos beneficiam rendimentos em tudo que envolvem renda fixa, como os títulos bancários CDBs, LCIs, LCAs, mas também os corporativos como as debêntures, CRIs e CRAs, segundo Beto Saadia.
Entretanto, o diretor frisou que isso se trata apenas da rentabilidade desses investimentos, visto que juros altos aumentam o risco de todas essas classes de emissores, pois “os títulos acabam alavancados”.
No fim, ele ressaltou que os bancos se beneficiam muito mais de juros baixos e o próximo ciclo de cortes beneficia todo o setor, além de também empresas ligadas ao crédito dos consumidores e de empresas.
“Os ciclos de crédito acabam beneficiando um grande segmento da indústria, que está ligada ao crédito, varejo, empresas de veículos, que são muito suscetíveis aos ciclos de crédito. Até a parte imobiliária também acaba melhorando”, concluiu.