Kinea entende que futuro fiscal do Brasil pode não ser tão bom e explica situação econômica na China e nos EUA

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“Senhor, conceda-me castidade e continência, mas não ainda”, afirma o filósofo Agostinho de Hipona em uma de suas mais célebres frases, relembrando suas orações quando jovem em seu livro “Confissões”.  

O autor foi um dos principais nomes da filosofia da Idade Média. 

Mais de 1.600 anos depois, a influência de Agostinho permanece, instigando inclusive reflexões sobre economia, como demonstra a carta mensal da Kinea Investimentos.

“O que Agostinho de Hipona e a situação fiscal brasileira têm em comum? O novo arcabouço fiscal proposto pelo governo parece sofrer das mesmas angústias que o jovem Agostinho: buscamos controlar nossos gastos, ‘mas não ainda’.” 

Fiscal no Brasil

A gestora pondera que o governo federal terá um aumento significativo nos gastos em 2023, com aval da PEC da Transição. Para além disso, a proposta do arcabouço fiscal pode liberar novo aumento em 2024.

“Acreditamos que o governo deve buscar os 2,5% acima da inflação passada”, afirmou a Kinea na carta. 

Já na segunda metade do terceiro mandato de Lula, a casa afirma que os gastos federais terão que diminuir, afinal, serão limitados a 70% da receita.

Sem esses recursos, a asset afirma que a despesa cresceria em média 1,8% acima da inflação no biênio 2025-2026, em contraste com a média de 6,5% de crescimento real apresentada nos governos petistas.

A trajetória proposta pelo arcabouço fiscal, no entanto, parece estar desconectada do ciclo político brasileiro, de acordo com a empresa. 

“Governos aceleram gastos rumo a uma reeleição”, afirmou a gestão da Kinea. 

Além disso, os juros do país continuam sendo um dos mais altos do mundo, o que pode complicar ainda mais a trajetória fiscal, disse a companhia.

A Kinea também sinaliza que outra consequência do aumento de gastos é o crescimento econômico que tem se mostrado resiliente às altas taxas de juros. A empresa espera que o crescimento do PIB para 2023 seja de 1,4%.

Esta visão otimista para a atividade, segundo a companhia, seria apoiada pela força do setor agrícola e o impulso fiscal que, em conjunto com a queda da inflação ao consumidor, vem gerando forte crescimento de renda real. 

“Durante o início desse ano, mantivemos uma visão mais construtiva com relação ao processo do arcabouço fiscal brasileiro e da inflação. Entretanto, reduzimos nossas posições aplicadas em juros e inflação neste último mês”, esclareceram os gestores da casa.

“Após mais de 350 bps (3,5 p.p.) de cortes sendo precificados na curva de juros e uma redução de 100 bps (1,0 p.p.) na precificação da inflação implícita, a relação risco-retorno não nos parece mais tão atrativa.”

Recessão nos EUA

Desta vez, a empresa faz analogia à peça de teatro “À Espera de Godot”, do irlandês Samuel Beckett. 

O título do espetáculo – um pouco auto explicativo – virou sinônimo de algo que muito se espera, mas que nunca chega. 

A Kinea afirmou que o mesmo pode ser dito sobre a recessão dos EUA. 

A companhia de investimentos explica que a economia americana está “gradualmente sentindo os efeitos da política monetária” e não experienciando um baque mais forte causado por crises financeiras ou pela recente pandemia. 

Neste processo, setores como a manufatura, isto é, mais cíclicos, dão sinais de desaceleração. Já o forte crescimento da renda real e o mercado de trabalho mais resiliente mantêm o consumo aquecido.

Todavia, a empresa alerta que, para o Federal Reserve (Fed), estas características mais positivas da economia, combinadas com um setor imobiliário resistente, mesmo com diversas subidas de juros, devem obrigar o banco a elevar mais o nível dos juros, “até que a recessão se torne presente”.

“Continuamos a acreditar que os cortes na curva americana para os próximos trimestres estão excessivos e mantemos posições tomadas em juros nos Estados Unidos”, afirmou a empresa.

“Seguimos cautelosos na bolsa por valuations elevadas, um baixo prêmio de risco e o fato que nossa pesquisa sugere um período de maior dificuldade para crescimento de lucros.”

Reabertura na China

Desde a reabertura do país asiático após o fim da política “Covid-zero”, a mobilidade aumentou de forma significativa e empresas ligadas a bens de luxo e cassinos vêm apresentando boas performances, de acordo com a carta da Kinea. 

Por outro lado, a asset afirma que o setor de mais impulso na economia chinesa, o mercado de construção residencial, responsável por quase 25%  do PIB da China, não vem apresentando bons sinais de recuperação. 

Com esta decepcionante performance na reabertura por parte dos setores mais tradicionais e associados à recuperação da economia chinesa, a Kinea sinaliza que vem acontecendo uma reversão no preço dos ativos locais. 

A demanda por minério segue abaixo da média e o mercado acionário do país devolveu parte significativa dos ganhos da segunda metade de 2022, explicou a empresa.

Essa reabertura mais fraca pode afetar outras importantes regiões como a Europa, a qual geralmente se beneficia de uma maior força na economia asiática.

“Em um cenário em que a economia norte-americana apresenta um mercado de trabalho superaquecido e a Eurásia decepciona no crescimento, imaginamos que o diferencial de juros oferecido pelo dólar deva voltar a se mostrar atraente”, disse a empresa.

“E mantemos posições compradas na moeda norte-americana, principalmente contra geografias que devam sofrer mais com os atuais patamares de juros da economia global”, concluiu.

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