A principal demanda do eleitor brasileiro mudou consideravelmente de 2018 para 2022. É a visão do time de análise política da XP Investimentos, conforme explicado pelo analista Paulo Gama na primeira rodada do “Café com Política”, evento exclusivo realizado pela BRA BS/ na sexta-feira (30).
Jennie Li, estrategista de ações da XP, e Felipe Perigolo, analista sênior da corretora e criador do modelo Bunker, também participaram do encontro, cujo tópico central foi a gestão dos investimentos no cenário eleitoral.

Em 2018, “o que a população tinha era um cansaço com a classe política de maneira geral”, define Gama, como um reflexo das manifestações de 2013. A principal demanda do eleitorado, no entanto, foi do combate à corrupção para a economia de um pleito para o outro, dado o advento da pandemia.
“Pode ser salário, inflação, poder de compra, desemprego, mas a agenda toda que está na cabeça do eleitor é a agenda econômica”, sintetiza o analista, jornalista de formação e integrante da equipe de política da XP desde 2017. Com base nos estudos promovidos pela corretora, ele afirma que praticamente metade dos eleitores definem a economia como principal questão a ser resolvida em janeiro de 2023.
Gama pontua a urgência das pautas econômicas como pivô da falta de adesão do eleitorado aos candidatos da chamada “terceira via”. Ainda, analisa que o resultado das eleições deve ser mais estreito que o reportado pelas pesquisas de intenção de voto, e que o percentual de abstenções deve ficar aquém de 2018.
O embasamento para a tese ultrapassa o cenário atual e tem mais a ver com a literatura de ciência política. “Há um constrangimento muito grande em países em que o voto é obrigatório”, comenta. Apesar de o não voto receber penas brandas, o fato de ser chamado obrigatório “mostra que é muito relevante para as pessoas acharem que precisam se constranger a dizerem que não vão votar”.
Entre o voto válido e a abstenção, a crença em um impacto efetivo da própria escolha individual pode ser definitiva. Conforme ilustrado por Gama, quanto mais alguém acha que a própria decisão faz diferença na escolha do presidente da República e que o ocupante do Planalto influencia no destino do país, maior é a propensão a votar. “Em momentos de polarização, isso se acentua”, acrescenta.
Paulo Gama também destaca que há diferenças consideráveis na mentalidade do eleitor entre a mera hipótese do segundo turno e a realidade iminente deste – o que explicaria as diferenças entre as pesquisas e o resultado concreto das eleições. “Antes de o segundo turno existir, a pesquisa de segundo turno diz pouco sobre o resultado do segundo turno […] Ela diz mais sobre o momento do primeiro turno”.
A despeito das metodologias desenvolvidas para mensuração das intenções de voto e sentimento da população quanto aos governos vigentes, o analista da XP aponta que “no Brasil, até o passado é incerto, quanto mais o futuro, e o futuro para quem precisa tomar decisão [de investimentos]”. Em comprovação da máxima, Paulo Gama lembra que até mesmo a autoria do provérbio é cercada de incerteza.
O Brasil frente ao binômio “inflação x recessão”
Habituada ao mercado global desde sua experiência prévia no JP Morgan, Jennie Li também ressalta o incerto como elemento sempre presente nas projeções macroeconômicas. A guerra na Ucrânia, como exemplo mais recente, “não era cenário base para ninguém” nas estratégias para 2022 – para não citar a pandemia em 2020.
Em tal contexto, comenta a analista, é presunçoso apostar com muita certeza no sucesso de determinado país entre os pares internacionais. Jennie menciona que, enquanto o ano passado “foi bem ruim para o Brasil”, em paralelo ao avanço do S&P 500 a níveis recorde, este ano tem sido o inverso. “Ninguém nunca sabe qual vai ser a bola da vez”, exclama.
Nesse contexto, a Europa trabalhava com juros negativos até o ano passado e, após o início da guerra russo-ucraniana, o Banco Central Europeu (BCE) corre atrás para frear a inflação da Zona do Euro – cuja taxa anual atingiu recorde de 10% na última sexta. Por consequência, o mercado já tenta prever quando começa a recessão econômica do bloco.
Para os EUA, por outro lado, Jennie e o time de research da XP não enxergam recessão no curto prazo. De todo modo, a analista lembra que o Federal Reserve (Fed), banco central americano, mudou o discurso do ano passado para cá: em 2021, o presidente da instituição, Jerome Powell, dizia que o aumento da inflação no país era transitório. Hoje, o Fed já fez três aumentos seguidos de 0,75 ponto percentual dos juros.
Em meio a especulações sobre a magnitude do aperto monetário dos EUA, o atual cenário é do mercado mundial “meio esquizofrênico” a cada indicador macroeconômico da maior economia do mundo. Por isso, prossegue Jennie, “até para o Brasil tem sido ano de macro global”, em referência aos principais drivers da bolsa brasileira em 2022.
Entretanto, explica, foi justamente a relação com a política monetária que elevou o Brasil à posição de “TINA” – sigla para “there is no alternative”, ou “não há outra alternativa” – do mundo. Considerando a discrepância entre os panoramas brasileiro e externo, Jennie estabelece o critério de resiliência à inflação para a escolha de ativos nos quais investir.
A analista cita os papéis do Assaí (ASAI3) como boas escolhas para o momento, assim como o setor elétrico. De modo geral, ações de bancos e companhias ligadas a commodities são preferíveis, dada a capacidade operacional de repassar inflação. Jennie destaca que até petrolíferas se encaixam na categoria, apesar dos desafios no curto prazo.
A nível prático, o research da XP incluiu as ações da Eletrobras (ELET6) nas recém-lançadas carteiras “Top 10” de outubro e reduziu – sem anular – exposição em estatais como Petrobras (PETR3; PETR4), dado o cenário eleitoral incerto. A metodologia da equipe, que acompanha 150 empresas nacionais, aplica o acompanhamento macroeconômico à análise fundamentalista.
Algoritmos protetivos
Os algoritmos desenvolvidos pela XP corroboram com a escola fundamentalista quanto à preferência pelas ações do setor elétrico. “Têm sido um porto seguro”, definiu Felipe Perigolo na última rodada do evento.
Especialista em análise quantitativa, Felipe desenvolveu a metodologia da “Carteira Bunker”, cujo objetivo é agregar ações de histórico protetivo. “Não quero ativo que tem queda de 3%, 4% em um dia”, explica.
Dos indicadores automatizados para a seleção do portfólio, 90% são focados em risco, relata o analista e desenvolvedor. Não há interferência humana na escolha dos ativos. O rebalanceamento da carteira é mensal, pois “não dá para falar que o Brasil não é um país que tem cenário toda semana”. Ao não levar em conta oscilações pontuais da bolsa, a Bunker foca no rendimento a longo prazo.
A partir da experiência como analista em outros cenários eleitorais, Felipe menciona que “setembro não é um bom mês para carteiras protetivas”. Todavia, a metodologia desenvolvida por ele já antecipa cenários voláteis, por ter risco controlado.