O mercado abriu a semana extravasando tensão a respeito do conflito entre Israel e Hamas. Como acontece ante qualquer instabilidade no Oriente Médio, o petróleo foi o ativo mais diretamente afetado – obviamente não tanto quanto as vidas humanas presentes na região dos confrontos.
O petróleo Brent fechou em alta superior a 4% nesta segunda-feira (09), cotado a US$ 88,15 o barril.
Já nas bolsas de valores, o cenário atenuou até o fim do pregão – tanto aqui quanto nos EUA. De abertura em viés negativo, o Ibovespa transitou para valorização de 0,86% no fechamento. Semelhantemente, o Nasdaq subiu 0,39% e o S&P 500, 0,63%.
O acalmar dos ânimos é razoável, pelo menos até o momento. Segundo o diretor de investimentos da Nomos, Beto Saadia, a volatilidade no mercado petroleiro ainda está longe de inflar o maior inimigo dos principais bancos centrais do Ocidente: inflação.
Tanto Israel quanto a região onde fica o grupo terrorista Hamas não têm protagonismo na produção mundial de petróleo, apesar de terem envolvimento. Entretanto, caso o conflito escale, “pode acabar levando a reboque outros países”, como Irã – aliado de longa data do Hamas.
Junto ao Iraque, Arábia Saudita, Kuwait e Catar, o Irã é membro da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e, portanto, um dos países “delicados nesse jogo geopolítico do petróleo”. Não apenas por serem produtores do óleo, completa Beto, mas também pela influência no Estreito de Ormuz, de onde saem vários tipos de commodities.
A guerra e o dragão
O presidente da Petrobras [PETR3; PETR4], Jean Paul Prates, concordou em discurso hoje que o diesel seria o principal afetado em um reajuste de preços caso haja aumento dos preços de derivados de petróleo decorrente do cenário internacional.
A princípio, Prates tampouco esboça preocupação efetiva com a volatilidade gerada pelo conflito Israel-Hamas. Ele projeta “variações muito especulativas”, mas projeta que a situação “vai mostrar como é útil e como está dando certo a política de preços atual, pelo menos da Petrobras”, declarou em evento nesta segunda-feira.
A cotação do petróleo impacta primeiro os custos de transportes, mas não de modo a influir no chamado núcleo da inflação – métrica que descarta a variação da energia e alimentos e é a mais olhada pelo Banco Central.
A depender da intensidade das altas de preço do barril, esse núcleo de inflação – leia-se o preço dos transportes –, acaba afetando o preço dos demais bens e serviços da economia, pois praticamente todos têm o transporte dentro da sua cadeia de custos, explica Beto Saadia.
“A partir do momento que esse preço começa a impactar outros bens e serviços da economia, aí sim você já começa a ter um problema.”
Em suma, um impacto econômico real seria via aumento de preços do petróleo, de modo a dificultar ainda mais o controle de inflação buscado em todo o Ocidente, seja nos Estados Unidos, cujo aperto monetário ainda está em curso, quanto no Brasil.
Mesmo já com processo de corte de juros em curso, um impacto da guerra na inflação global reduziria a velocidade do afrouxamento monetário, completa o especialista da Nomos.
A ver os próximos capítulos
Após o fechamento das bolsas em Wall Street e no Brasil, saiu a notícia de que os EUA começaram a entregar munições e equipamento militar a Israel.
O Pentágono observa os inventários para ver o que mais pode ser enviado rapidamente para reforçar o país aliado na guerra de três dias com o Hamas, disse um alto funcionário do Departamento de Defesa à Associated Press nesta segunda-feira.
O funcionário, que falou com os repórteres sob condição de anonimato para discussão de temas sensíveis, também alertou que os EUA estão observando de perto o Hezbollah e outros grupos apoiados pelo Irã. O oficial observou que a decisão de transferir navios americanos para a região foi para dissuadir qualquer um deles de ingressar no conflito contra Israel.
“A intenção é avançar no apoio a Israel”, disse hoje a secretária do Exército, Christine Wormuth. “Mas, em particular com as munições e a capacidade de apoiar Israel e a Ucrânia simultaneamente, é necessário financiamento adicional para aumentar a nossa capacidade de expandir a produção e depois também pagar pelas próprias munições.”
De acordo com Christine, o Congresso americano deve aprovar mais financiamento rapidamente para que os EUA possam fornecer a Israel e à Ucrânia as armas e munições de que ambos necessitam.
No lado oriental, membros seniores do Hamas e Hezbollah – outro grupo extremista islâmico – disseram que oficiais de segurança iranianos ajudaram a planejar o ataque surpresa do Hamas a Israel no sábado e deram luz verde para o assalto numa reunião em Beirute na segunda-feira passada (02).
Conforme relatado pelo The Wall Street Journal, as fontes comentaram que oficiais do Corpo de Guardas Revolucionários Islâmicos do Irã trabalharam com o Hamas desde agosto para conceber as incursões aéreas, terrestres e marítimas – a violação mais significativa das fronteiras de Israel desde a Guerra do Yom Kippur de 1973.
Funcionários dos EUA dizem que não viram evidências do envolvimento de Teerã. Em uma entrevista à CNN americana que foi ao ar no domingo (08), o Secretário de Estado, Antony Blinken, disse: “Ainda não vimos evidências de que o Irã tenha dirigido ou esteja por trás deste ataque em particular, mas certamente há uma longa relação”.
Questionado sobre as reuniões, Mahmoud Mirdawi, um oficial sênior do Hamas, disse que o grupo planejou os ataques por conta própria. “Esta é uma decisão palestina e do Hamas”, disse ele.