A economia do país está quebrada e não possui fundos suficientes para trocar o peso quase sem valor pelo dólar
O autodenominado anarcocapitalista que venceu as eleições presidenciais da Argentina no domingo (19) planeja abandonar o peso do país e adotar o dólar americano como moeda nacional.
A principal proposta de campanha do presidente eleito Javier Milei tinha como objetivo erradicar a inflação desenfreada que há décadas assola a terceira maior economia da América Latina, removendo a moeda nacional desvalorizada de circulação e retirando o poder do banco central de imprimir dinheiro.
A impressão descontrolada de dinheiro para cobrir os gastos públicos, segundo os economistas, tem alimentado uma inflação de 143%, uma das mais altas do mundo.
“Fechar o banco central é uma obrigação moral”, disse Milei no domingo à noite. No entanto, obter apoio do congresso argentino e implementar seu plano de dolarização pode ser repleto de desafios. Outros países que adotaram o dólar como moeda são muito menores, como El Salvador.
Com a Argentina quebrada, economistas afirmam que o país não possui os fundos necessários para realizar uma proposta tão ambiciosa quanto a dolarização. Nos últimos anos, o país perdeu acesso aos mercados globais de dívida.
“Para começar, você precisa ter acesso aos mercados de capital para converter toda a base monetária em dólares, e você não possui esse acesso”, disse Alejandro Werner, um economista que atuou como chefe do departamento do Hemisfério Ocidental do Fundo Monetário Internacional.
Após sua vitória, Milei prometeu reformar o governo inchado da Argentina, reduzir os gastos, abrir a economia do país para os mercados globais e vender empresas estatais como a empresa de petróleo YPF.
Ele foi aplaudido por uma multidão extasiada de apoiadores que entoavam: “Eles devem ir embora!”, em referência ao movimento populista peronista que governou a Argentina na maior parte das últimas duas décadas.
Alguns ativos argentinos tiveram alta em Nova York. As ações da YPF subiram 36% em antecipação aos ambiciosos planos de privatização de Milei. O Grupo Financiero Galicia SA teve alta de 20%.
Javier Milei, um economista libertário de 53 anos e outsider político que se comprometeu durante sua campanha a arrasar com o establishment político que ele chamou de corrupto, diz que a moeda de seu país “não vale nem excremento”.
Ele disse aos seus compatriotas argentinos que é loucura poupar em pesos. “Nunca em pesos”, disse ele durante a campanha.”Essa porcaria nem é útil como fertilizante”.
Um grande obstáculo para os planos de Milei de substituir o peso é um congresso dividido no qual nenhuma facção política detém a maioria das cadeiras. O movimento peronista de esquerda que governará a Argentina até a posse de Milei em 10 de dezembro, bem como a coalizão centro-direita Juntos por el Cambio, fundada pelo ex-presidente Mauricio Macri, detêm menos da metade dos assentos no senado e na câmara baixa.
Em seu discurso de vitória, Milei agradeceu à coalizão centro-direita por ajudar a garantir sua vitória, mas não mencionou a dolarização. Ainda não está claro como os independentes e moderados, que compõem os assentos restantes do legislativo, responderão à agenda de Milei.
Os tribunais são outro desafio. Em setembro, o magistrado da Suprema Corte Horacio Rosatti disse ao jornal espanhol El País que substituir o peso por uma moeda estrangeira seria inconstitucional e violaria a soberania nacional.
Em um relatório, economistas do Goldman Sachs disseram: “Como tudo na economia, não há almoço grátis, e adotar, preservar e se beneficiar da dolarização pode ser desafiador”.
Se a Argentina adotar o dólar, ela se juntará a um punhado de outras nações menores da região que usam o dólar americano, incluindo Equador, El Salvador e Panamá.
A dolarização proporcionou a esses países estabilidade econômica ao controlar a inflação e reduzir as taxas de juros, ao mesmo tempo em que tornava impossível para os governos imprimir dinheiro para cobrir lacunas orçamentárias.
Mas a dolarização no Equador e em El Salvador não gerou automaticamente uma correção nas finanças públicas, dizem os economistas.
O Panamá, que adotou o dólar em 1904, pouco depois de alcançar a independência, tem classificações de dívida com grau de investimento, mas o altamente endividado El Salvador não tem. Nem o Equador, que entrou em default em sua dívida em 2020.
“A dolarização não é uma bala de prata”, disse Augusto de la Torre, que atuou como governador do banco central do Equador na década de 1990 antes que o país adotasse o dólar.
(Com The Wall Street Journal; Título original: Argentina’s New President Wants to Adopt the U.S. Dollar as the National Currency)