O país que cresceu mais que os Estados Unidos durante a Covid-19 está perdendo força

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A queda da Irlanda é uma má notícia para a Zona do Euro, que se beneficiou por muito tempo de como o Tigre Celta estava subindo com taxas de crescimento no estilo da China

Nenhum outro país cresceu tão rapidamente quanto a Irlanda entre 2020 e 2022, exceto a Guiana, que viu um boom do petróleo. O país foi uma das poucas economias que se beneficiaram da pandemia da Covid-19. Esse dividendo incomum agora está se desfazendo, em uma nova pancada nas perspectivas de crescimento já enfraquecidas da Europa.

Casa de grandes empresas de tecnologia e farmacêuticas dos Estados Unidos que viram suas vendas aumentarem durante a pandemia, a pequena Irlanda registrou um crescimento anual médio de 10,5% entre 2020 e 2022, enquanto outras economias sofreram com os efeitos dos bloqueios.

Para a Irlanda, o surto induzido pela Covid coroou uma década em que a economia do país dobrou de tamanho, enquanto o resto da Zona do Euro cresceu 13%. Agora, esse boom acabou. 

No final do terceiro trimestre, a economia da Irlanda era 4,7% menor do que no ano anterior, a maior queda registrada por qualquer país europeu durante esse período. De acordo com o Economic and Social Research Institute, o principal think tank do país, a economia está a caminho de sua maior contração anual desde 2009.

Depois de ajudar os números de crescimento europeus a parecerem melhores na última década, agora a Irlanda os joga para baixo. De acordo com a agência de estatísticas da União Europeia, o continente contraiu 0,4% em termos anualizados nos três meses até setembro. Excluindo a Irlanda, o produto interno bruto da região ficou estável.

Pós-pandemia. A economia da Irlanda cresceu durante a pandemia da Covid-19, mas agora está se contraindo. Em rosa: Estados Unidos; em verde: Irlanda. [Fonte: Departamento do Comércio dos EUA/Eurostat/The Wall Street Journal].
A reversão na contribuição da Irlanda para o crescimento europeu foi brusca e repentina. 

No início do ano, a UE esperava que a economia da Irlanda crescesse 5,5% em 2023. Na quarta-feira (15), o continente disse que agora espera que a economia da Irlanda se contraia em 0,9%. 

Em parte como resultado disso, a UE agora projeta que a economia da Zona do Euro cresça 0,6% este ano, tendo anteriormente previsto uma expansão de 1,1%.

Ainda não está claro se a desaceleração marca uma pausa ou o fim da década de crescimento da Irlanda. No entanto, há sinais de que o período de globalização rápida que começou com a queda do comunismo no final dos anos 80, e que abriu o caminho para a prosperidade da Irlanda, acabou e que o mundo está se tornando mais fragmentado economicamente.

“O aprofundamento da fragmentação geoeconômica pode representar uma ameaça ao modelo econômico existente da Irlanda e ser disruptivo no curto prazo”, alertou o Fundo Monetário Internacional após revisão anual da economia do país.

A reorganização das cadeias de suprimentos que decolou na década de 1990 construiu laços mais estreitos entre economias distantes, como a Irlanda e a China. Inicialmente, esses laços deram à Irlanda exposição direta ao crescimento meteórico da China. Agora, eles são fonte de vulnerabilidade.

Um bom exemplo é a fábrica de leite infantil Wyeth Nutrition em Askeaton, no oeste da Irlanda, cujos 491 funcionários foram informados no mês passado de que a instalação provavelmente fechará no início de 2026. 

A planta, de propriedade da empresa suíça de alimentos Nestlé, produzia para o mercado chinês, onde a concorrência se intensificou à medida que Pequim busca impulsionar os fornecedores locais, enquanto o número de bebês diminui acentuadamente.

Neil McGowan, um funcionário do sindicato que representa os trabalhadores da planta de Askeaton, disse que a Nestlé havia “colocado todos os ovos de outro na cesta chinesa… Quando está indo bem, é fantástico. Quando não está indo bem, você fica exposto”.

O mercado chinês é mais importante para os exportadores irlandeses do que para qualquer outro país da UE, exceto a Alemanha. De acordo com a UE, 6,8% das vendas no exterior da Alemanha foram destinadas à China em 2022, enquanto a segunda maior economia do mundo representou 6,4% das exportações da Irlanda. 

As exportações para a China representaram 2,8% do produto interno bruto total da Alemanha naquele ano e 2,6% do produto interno bruto da Irlanda.

Os economistas irlandeses esperavam que as exportações do país esfriassem este ano após o forte crescimento registrado desde o início da pandemia. Em particular, eles esperavam que a demanda por empresas farmacêuticas enfraquecesse à medida que a economia mundial reabrisse e menos medicamentos fossem necessários para combater a pandemia.

Tudo isso aconteceu, assim como uma queda inesperada nas vendas de semicondutores, algo que os economistas irlandeses acham que pode refletir em uma proibição dos EUA sobre a venda desta tecnologia para a China.

“A cifra negativa do PIB deste ano está realmente relacionada a questões específicas das empresas”, disse Conor O’Toole, economista do Instituto de Pesquisa Econômica e Social.

Tendo ajudado os números de crescimento europeus a parecerem melhores na última década, agora a Irlanda está arrastando-os para baixo. [Foto: paul faith/Agence France-Presse/Getty Images].
Algumas empresas dos Estados Unidos que registram lucros na Irlanda não produzem ou vendem muito lá. Muitas farmacêuticas e empresas de equipamentos médicos contratam fábricas na China e em outros lugares para fabricar produtos para venda nos Estados Unidos e em outros países. 

O lucro, por sua vez, é registrado e taxado em um nível comparativamente baixo na Irlanda, onde essas companhias possuem suas patentes.

O valor dessas exportações atribuídas à Irlanda disparou durante a pandemia, passando de 16,8 bilhões de euros nos primeiros três meses de 2020, equivalente a cerca de US$ 18,2 bilhões, para 46,1 bilhões de euros no último trimestre do ano passado, antes de cair bruscamente nos primeiros seis meses deste ano.

Isso provavelmente foi impulsionado pelo arrefecimento da demanda após o aumento visto durante a pandemia. O banco central irlandês também se preocupa com os Estados Unidos adotando medidas mais protecionistas contra a China.

“Dado o volume de atividades realizadas na China, é possível que fraquezas futuras nas atividades de exportação offshore possam ser observadas nos dados para o restante de 2023 e 2024”, escreveu o BC em um relatório recente.

Por enquanto, as dificuldades enfrentadas pelas empresas de tecnologia e farmacêuticas dos Estados Unidos presentes na Irlanda tiveram um impacto limitado no restante da economia do país. 

O mercado de trabalho também está começando a enfraquecer, com a taxa de desemprego subindo para 4,8% em outubro, em comparação com a mínima recorde de 4,1% em maio. Ainda assim, o FMI afirma que a Irlanda está bem posicionada para se adaptar às mudanças na economia global, dadas suas “fortes bases e políticas sólidas”.

“Permanecemos positivos em relação às perspectivas econômicas da Irlanda, embora a visão esteja embaçada por consideráveis riscos externos”, afirmou o FMI.

(Com The Wall Street Journal; Título original: Covid’s Biggest Economic Winner Is Running Out of Steam)

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