Proposta de “fusão de iguais” de Eneva deixa mercado confuso e ansioso para resposta de Vibra
Para boa parte do mercado, a proposta da Eneva [ENEV3] à Vibra [VBBR3] sobre uma fusão entre ambas parece um pouco ousada, à primeira vista. Isto porque a oferta não-vinculante seria para fusão de iguais (“merge of equals”) – ou seja, ambas empresas teriam, teoricamente, o mesmo valor de mercado caso o acordo fosse adiante.
É neste tópico que mora a confusão dos investidores: no último fechamento antes da proposta ser enviada, na sexta-feira (24), a Eneva valia R$ 20,7 bilhões, enquanto a Vibra era avaliada em R$ 25,9 bilhões. Qual seria a vantagem para a companhia em fechar um acordo de fusão de iguais com uma empresa de valor de mercado 25% menor que o dela?
“A Eneva também tem um endividamento mais elevado do que a Vibra, o que reduziria o pagamento de proventos da distribuidora de combustíveis”, afirmou João Abdouni, analista da Levante.
“Neste sentido seria necessário existir um prêmio para que a Vibra topasse o negócio algo como 60% a 40% na razão de troca para Vibra.”
Leonardo Piovesan, CNPI e analista fundamentalista da Quantzed, enxerga pontos positivos para a Vibra dentro da proposta. De acordo com ele, a fusão com a Eneva levaria à empresa a possibilidade de expandir seu portfólio de energia e diversificar sua receita.
“O resultado da Vibra depende muito da variação de preços de combustível e tem até a Petrobras no meio também. Então, [a fusão] traria uma maior previsibilidade do resultado, uma diversificação maior ou seja ia diminuir esse risco de concentração de resultado.”
O especialista também ressalta que a companhia teria acesso a oportunidades de investimentos com taxas de retorno mais altas, além de poder acessar o gás da Eneva a fim de comercializar tanto para clientes pessoa física quanto jurídica.
Qual a possibilidade do negócio realmente acontecer?
O que o mercado quer saber agora é se a fusão de fato irá ser aceita pela Vibra. A companhia afirmou, por meio de fato relevante publicado ontem, que está analisando detalhadamente o conteúdo da proposta, “considerando sobretudo o interesse de seus acionistas e que suas operações seguirão seu curso normal durante o período de análise”.
Segundo Abdouni, as chances do negócio ir adiante é de 50% – o que seria interessante para Eneva, que está com uma alavancagem maior. “No entanto, os termos de troca do acordo inicial não são vantajosos para o acionista de Vibra, precisamos observar quais serão as considerações do conselho da distribuidora de combustíveis”, contrapôs.
Para Luis Novaes, analista da Terra Investimento, a fusão faz sentido, mas é difícil mensurar se os acionistas da Vibra estariam inclinados a aceitar a proposta atual, já que seria mais desvantajosa à companhia.
Os aspectos legais da junção das duas empresas não seriam problema, indica Piovesan. O analista indica que o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) provavelmente não impediria a fusão, uma vez que os negócios têm baixa correlação.
“A questão seria o preço das ações.”
Segundo a proposta, o conjunto de acionistas de ambas empresas representaria 50% da base acionária da companhia combinada. A preocupação que pode surgir é relacionada ao possível valuation atribuído a cada empresa.
O que isso significa para VBBR3 e ENEV3?
Ambas as companhias tiveram performances ruins no pregão de hoje. Enquanto os ativos de Vibra caíram 2,43%, Eneva perdeu 2,52%.
Novaes explica que, caso o acordo seja concretizado, o desequilíbrio entre o valor de mercado das duas empresas causaria uma diluição aos acionistas da Vibra, o que se refletiria no preço do papel em bolsa.
No curto prazo, o analista Filipe Borges explica que VBBR3 segue em tendência de alta no gráfico semanal, aproximando-se da resistência nos R$ 23,30 e, por isso, ele não enxerga boa gestão de risco em novas entradas no papel.
Caso o ativo siga em alta e rompa a resistência nos R$ 23,30, o próximo alvo seria nos R$ 28,00, disse o analista.
Já ENEV3 fez um candle com uma volatilidade um pouco maior do que o papel costuma apresentar e com um volume negociado bem forte, disse Borges. Além disso, o papel se encontra na resistência do gráfico semanal.
“Se nós tirarmos um pouco o zoom do gráfico, percebe-se que o artigo está oscilando entre R$ 10,30 até R$ 13,50 desde novembro de 2022.”