Os cortes na produção de petróleo da Arábia Saudita refletem o custo de remodelar a economia do país

O príncipe herdeiro Mohammed bin Salman disse a seus associados no final do ano passado que não estava mais interessado em agradar os Estados Unidos.
FOTO: LEON NEAL/POOL GETTY IMAGES/ASSOCIATED PRESS

Riade precisa manter os preços altos o suficiente para financiar mega projetos grandiosos

Um corte na produção de petróleo anunciado pela Arábia Saudita e seus aliados demonstrou como o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman está disposto a deixar de lado as preocupações dos Estados Unidos para buscar uma política de energia nacionalist,  destinada a financiar uma reforma cara em seu reino.

A medida tomada neste fim de semana foi surpreendente, depois que o ministro de energia saudita, príncipe Abdulaziz bin Salman, disse a analistas do setor privado em fevereiro que o reino toleraria que os preços do petróleo caíssem para cerca de US$ 65 ou US$ 70 por barril, segundo analistas e autoridades sauditas familiarizadas com o assunto. 

O petróleo Brent – referência internacional –  estava em tendência de queda desde o final do ano passado devido aos temores de recessão global, chegando a US$ 70 por barril no mês passado. 

Nesta segunda-feira (03), os preços do petróleo estavam a caminho de registrar seu maior aumento em quase um ano, subindo 5,9% para US$ 84,59 por barril.

Esta é a segunda vez em menos de seis meses que os sauditas ignoraram as preocupações dos EUA – apesar das ramificações potenciais significativas na relação bilateral – de que os preços elevados do petróleo ajudariam a alimentar a máquina de guerra da Rússia.

Os cortes na produção de petróleo feitos no domingo (02) são o sinal mais claro até agora de que os sauditas farão o que for necessário para manter os preços do petróleo em níveis que lhes beneficiem. 

O príncipe Mohammed está implementando o que os analistas chamam de política econômica “Saudi First”, destinada a dar prioridade aos interesses nacionais em um momento de crescente incerteza sobre o compromisso dos EUA em defender seus aliados do Oriente Médio em meio a uma competição de grandes potências na região.

O príncipe Mohammed disse a seus associados no final do ano passado que não estava mais interessado em agradar aos EUA, dizendo que quer algo em troca por qualquer coisa que dê a Washington, segundo pessoas familiarizadas com a conversa.

O corte na produção afetará um mercado de petróleo que era amplamente visto como equilibrado entre oferta e demanda.
FOTO: AMR NABIL/ASSOCIATED PRESS

 

Autoridades e outras pessoas familiarizadas com a política de petróleo saudita afirmam que a ação de Riad não foi uma surpresa, uma vez que o príncipe precisa defender preços mais altos para financiar projetos de desenvolvimento massivos em seu país, alguns dos quais são tão grandes que os sauditas os chamam de mega projetos. 

Isso inclui um resort no Mar Vermelho do tamanho da Bélgica, com hotéis estilo Maldivas pairando sobre a água e uma cidade futurista de alta tecnologia no deserto que é 33 vezes maior do que a cidade de Nova York e custará US$ 500 bilhões.

Farouk Soussa, economista do Oriente Médio e Norte da África do Goldman Sachs, disse que a Arábia Saudita está menos inclinada a subordinar seus próprios interesses econômicos para apoiar os interesses dos Estados Unidos do que tem sido historicamente.

“Os sauditas têm que se proteger contra cenários negativos” de recessão global e as implicações para a demanda por energia, o que poderia levar os preços do petróleo abaixo de uma média anual de US$ 80 o barril e criar um déficit orçamentário, disse ele.

O príncipe Mohammed – governante de fato da Arábia Saudita – está no meio de um ambicioso plano para usar a montanha de receitas de petróleo do país para transformar sua economia, reformular sua paisagem física e mudar sua cultura conservadora. 

À medida que os preços atingiam US$ 100 o barril no ano passado após a invasão russa da Ucrânia, o reino acelerou esses esforços, que são financiados em grande parte pelo fundo soberano de US$ 650 bilhões presidido pelo príncipe Mohammed.

Nos últimos meses, os assessores econômicos sauditas alertaram em particular os policy makers sêniores do reino de que o país precisa de preços elevados do petróleo nos próximos cinco anos para continuar gastando bilhões de dólares em projetos que até agora atraíram investimentos insignificantes do exterior.

Antes dos cortes de produção anteriores, anunciados em outubro, autoridades sauditas disseram acreditar que os dados econômicos indicavam que o orçamento do governo exigia que o preço do barril de petróleo Brent estivesse entre US$ 90 a US$ 100, acima da faixa de US$ 75 a US$ 80 que o reino estava visando. 

Com cerca de US$ 450 bilhões em reservas cambiais e as segundas maiores reservas provadas de petróleo do mundo, a Arábia Saudita não deve ficar sem dinheiro em breve. 

No entanto, o príncipe Mohammed ficou alarmado com uma análise econômica de seu ministro da Energia, o príncipe Abdulaziz, alertando que o petróleo poderia cair abaixo de US$ 50 o barril, o que colocaria em risco seus enormes planos de gastos, disseram as autoridades.

O príncipe Abdulaziz disse publicamente que o governo saudita tem um foco único em entregar a agenda do príncipe herdeiro, conhecida coletivamente como “Visão 2030”, incluindo os projetos grandiosos de construção projetados para gerar indústrias como turismo e entretenimento que não existiam antes na conservadora Arábia Saudita.

“Eu continuo ouvindo ‘Você está conosco ou contra nós?’”, disse o príncipe Abdulaziz em uma conferência financeira em Riade, em outubro. “Existe algum espaço para ‘Estamos com a Arábia Saudita e com o povo da Arábia Saudita?’”

A decisão de domingo reduzirá mais de um milhão de barris de produção por dia a partir do próximo mês das cotas de produção na Arábia Saudita, Rússia, Iraque, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Argélia, Omã e Cazaquistão.

A medida tem importantes ramificações políticas e pode aumentar as já significativas tensões de Riade com Washington. 

A Arábia Saudita, antes um parceiro confiável de segurança dos EUA, tem definido a política energética em conflito com Washington há mais de um ano, enquanto o Ocidente confronta a Rússia pela invasão da Ucrânia. 

Os Estados Unidos têm buscado reduzir a receita da Rússia – um dos maiores produtores de petróleo e gás do mundo – por meio de sanções e um teto de preços, mas os movimentos da Opep – liderada pela Arábia Saudita – e outro grupo de produtores liderados pela Rússia ajudaram a sustentar os preços do petróleo na maior parte de 2022.

Os cortes de produção anunciados em outubro – alguns meses após a visita do presidente Biden à Arábia Saudita para melhorar as relações e pouco antes das eleições congressionais – aumentaram as tensões com a Casa Branca, que acabou desistindo das ameaças de retaliação contra Riade.

Bjarne Schieldrop, analista-chefe de commodities do banco de commodities nórdico SEB, disse que os novos cortes poderiam acrescentar alguns obstáculos à economia global e apertar o mercado de petróleo, ajudando a Rússia a garantir preços melhores para seu petróleo.

O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse que os cortes foram destinados a manter “os preços do petróleo bruto e dos produtos petrolíferos em um determinado nível”, de acordo com a agência de notícias russa Interfax.

(The Wall Street Journal)

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