O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central vai anunciar nesta quarta-feira (02) o que deve ser o primeiro corte de juros após os dois anos do ciclo de aperto iniciado em 2021. A magnitude do reajuste é o principal tópico de discussão do mercado, cujas apostas dividem-se entre 0,25 e 0,50 ponto percentual.
Apesar da predominância da tese dos 0,25 p.p., os números do IPCA-15 de julho poderiam pressionar o Banco Central a fazer um corte mais agressivo. Divulgado na semana passada, o indicador apontou deflação de 0,07% em julho, 0,11 ponto abaixo da taxa do mês anterior e melhor que a mediana das projeções.
“Esse novo dado coloca o RCN [Roberto Campos Neto] numa situação de ter que abrir um debate desconfortável para ele: a redução de 0,5 ponto já na próxima reunião”, declara Beto Saadia, diretor de investimentos da Nomos.
O atual colegiado do BC brasileiro sempre atuou com mais rigor que a expectativa de mercado, ao subir juros além da expectativa e mantê-los além da expectativa. Agora, prosseguiu Beto, a autarquia provavelmente deseja reduzir a Selic num ritmo menor que a projeção.
O mercado espera queda de 2,50 ponto percentual da taxa Selic até daqui a um ano, conforme apontava a curva de juros futuros no fechamento de segunda-feira (31). Estão previstas oito reuniões do Copom nesse período.
Tal horizonte dá espaço para o BC começar devagar o relaxamento monetário, com 0,25 p.p., e acelerar o corte de juros nas próximas reuniões, analisa Rodrigo Correa, estrategista de investimentos da Nomos.
Um argumento para o corte mais brando seria a defasagem dos preços da gasolina e do diesel, que operam abaixo da referência internacional. “Serve como armadilha para o próprio BC”, diz Beto. Um corte de juros mais forte seguido por um aumento subsequente no preço dos combustíveis, explica, pode deixar o trabalho do Banco Central mais ruidoso e provocar uma alta nos juros longos pelo mercado.
O que acontece após o corte de juros?
Apesar do efeito emblemático de um corte de juros hoje, investidores não deveriam esperar reações expressivas nas oscilações de quinta-feira (03), alertam os especialistas consultados pelo TradeNews.
A queda já está precificada nos ativos, portanto os preços não devem se mexer tanto caso o Copom aja em linha com as expectativas. Por outro lado, comenta Rodrigo Correa, tanto fundos imobiliários quanto as ações de setores mais voláteis devem subir se o BC optar por um corte mais agressivo – de 0,75 p.p., por exemplo.
Entre os efeitos práticos, a redução nos juros vai desaguar positivamente nos balanços de empresas, bancos e do próprio governo, através de custos menores de dívida. O benefício também vale para pessoas físicas com dívidas atreladas ao CDI.
“Isso tudo incentiva a economia real e pode fazer com que o BC brasileiro atinja o tão almejado soft landing, que é um recuo da inflação para os parâmetros da meta do BC, sem contudo haver impacto econômico profundo (PIB ainda positivo e desemprego em queda)”, aprofunda Rodrigo.