Petrobras [PETR3; PETR4]: de grande pagadora de dividendos para “pior empresa para investir no setor”

Edifício sede da Petrobras no Centro do Rio. [Fernando Frazão/Agência Brasil]

Encerrado o ciclo de 2022, a Petrobras [PETR3; PETR4] inicia uma nova gestão. A empresa apresentou outro conjunto de fortes números financeiros no balanço do quarto trimestre, com Ebitda ajustado de quase US$ 14 bilhões. Após a divulgação do último resultado referente ao ano passado, os olhares buscaram um novo foco: o futuro da estatal.

As expectativas para a companhia ainda são incertas, dado que a diretoria e o conselho estão em transição. De acordo com os analistas, não se pode ter convicção do que virá pela frente, mas há sinais disponíveis a serem considerados.

Existem quatro fatores principais que merecem atenção dos investidores neste momento, segundo Vitor Polli, analista da Levante Corp: a política de preços, o plano de desinvestimentos, a distribuição de dividendos e o plano de investimentos.

O primeiro apontamento do analista é em relação à política de preços da empresa. Atualmente, a Petrobras usa o Preço de Paridade de Importação (PPI) para definir o valor que cobrará dos distribuidores. A companhia considera o preço dos combustíveis praticado no mercado internacional, os custos logísticos de trazê-los ao Brasil e uma margem para remunerar os riscos da operação.

“Isso [o PPI] é muito criticado até pelo presidente Lula. O atual presidente da Petrobras também [critica]. Ainda não se sabe exatamente como vai ser, mas isso deve mudar”, afirma Polli.

Júlio Borba, analista da Benndorf Research, concorda que o novo governo provavelmente irá alterar a política de precificação dos combustíveis, o que, segundo ele, reduzirá as receitas da companhia. 

Borba ainda afirma que a estratégia de desinvestimentos com a venda de ativos também deve ser suspensa. A decisão, de acordo com o analista, reduzirá a geração de caixa e levará ao menor pagamento de dividendos extraordinários.

Vitor Polli diz que já era praticamente certo que os desinvestimentos parariam. “A gente ainda não acredita que o que já foi assinado, como por exemplo o Polo Potiguar com a 3R Petroleum, vai voltar atrás, porque já está assinado, já tem um contrato. [Desistir da operação] traria muita insegurança jurídica para o setor e até para o país, mas o que estava em venda e não foi assinado ainda deve parar”, comenta o analista.

Julio Borba, por sua vez, tem dúvidas sobre a conclusão efetiva do negócio. A venda do Polo Potiguar para a subsidiária da 3R Petroleum foi assinada em fevereiro de 2022, mas a transação ainda não foi aprovada pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). 

O ofício do Ministério de Minas e Energia (MME) enviado à Petrobras também corrobora para a visão da Levante, afirma Polli. O MME solicitou na última quarta-feira (01) a suspensão das alienações de ativos por 90 dias, em razão da reavaliação da Política Energética Nacional atualmente em curso e da instauração de nova composição do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE).

Com a gestão do novo presidente Jean Paul Prates, a distribuição de dividendos deve ser menor, aponta o analista da Levante. Polli afirma que a cotação de PETR3 e PETR4 deve “sofrer bastante” caso a expectativa se concretize, pois a grande distribuição de dividendos têm atraído muitos investidores.

O presidente da Petrobras, Jean Paul Prates durante primeira coletiva de imprensa, no Edifício Senado, no centro da capital fluminense. [Foto Tomaz Silva/Agência Brasil]
“[A gestão] ainda é do conselho antigo, mas eles já estão sugerindo reter uma parte [dos dividendos] para ficar em uma conta de reserva da empresa”, diz o analista. “Futuramente, a gente espera que essa política de dividendos atual seja alterada e a Petrobras só distribua 20% do lucro líquido, que é o mínimo exigido por lei”, acrescenta ele.

Quanto ao plano de investimentos, o Capex deve aumentar “substancialmente”, afirma Júlio Borba, principalmente na geração de energia limpa, como a eólica no Nordeste do país, e recompra ou construção de refinarias. A ação “não necessariamente trará um retorno garantido, aumentando as incertezas em relação à tese de investimentos”, conclui o especialista da Benndorf.

Os investimentos em refino devem “dar um salto” nos próximos anos, algo bastante falado pelo atual governo, de acordo com Vitor Polli. “A gente volta para alguns anos atrás quando a Petrobras investiu bilhões e bilhões de dólares em refinarias, que foram concluídas e não trouxeram retorno algum para empresa ou para sociedade. Isso é algo muito ruim também para o futuro da empresa.”

Reoneração de impostos

A companhia ainda sofre com a reoneração de impostos dos combustíveis, que aumentou o preço da gasolina e do etanol. “Eles [o Governo Federal] subiram menos se comparado a o que era antes de ter a redução dos impostos lá no ano passado para não gerar tanta inflação”, comenta Júlio Borba.

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, dá entrevista coletiva para detalhar as primeiras medidas econômicas do governo [Foto:
Segundo ele, há grandes chances de o governo interferir nos preços da estatal na tentativa de baixar a inflação. “Só temos que ver o quanto eles vão interferir na Petrobras, porque uma parte disso já está precificado”, diz.

“Agora qualquer aumento no dólar ou no petróleo, ela [a Petrobras] vai ficar com defasagem no preço comparado ao cenário internacional. A questão é se nesse cenário ela vai repassar esse preço ao mercado. A gente acredita que não, porque tem muita pressão política”, complementa Vitor Polli.

Recomendação

Considerando as incertezas e as expectativas de mudança na gestão de Prattes, Borba e Polli não enxergam a estatal como a melhor opção de investimento no setor. 

O analista da Levante explica que, caso a redução do valor de dividendos distribuídos ocorra de fato, “outras empresas sem todo esse risco político vão acabar distribuindo mais”.

Para a Levante, a Petrobras é “a pior empresa para investir no setor no Brasil”. A recomendação da casa de análise é de compra para PRIO [PRIO3] e 3R Petroleum [RRRP3], duas empresas que têm “perspectivas muito favoráveis tanto no micro como na tese de petróleo”. De acordo com o analista, o petróleo tem espaço para subir futuramente e ambas não possuem risco político.

A recomendação da Levante para PETR3 e PETR4 é neutra.

Edifício sede da Petrobras no Centro do Rio. [Fernando Frazão/Agência Brasil]
De acordo com a Benndorf, mesmo com a taxação para exportação de petróleo bruto se tornando permanente, a PRIO é uma das opções com melhor risco-retorno e com a melhor capacidade de surfar o petróleo em patamares mais altos pelos próximos anos.

“O anúncio de uma taxação de 9,2% prejudica as petroleiras da bolsa, notadamente as privadas e independentes, dado que boa parte da produção da Petrobras é direcionada ao mercado interno, a companhia não deve sofrer significativamente com o novo imposto”, afirma Victor Benndorf, analista chefe da Benndorf Research.

As ações preferenciais da empresa interromperam um novo canal de alta nos gráficos diários, segundo a Benndorf, sustentando uma recomendação técnica neutra não somente no curto, mas também no longo prazo. Para os comprados, a movimentação atual, perda de momentum, perda da linha de tendência de alta (LTA) demanda baixa exposição, entre 4% a 5%, com stop total na perda dos R$ 23,50. Para novas compras, a casa recomenda aguardar por um sólido rompimento das máximas recentes na região dos R$ 27,50.

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