DISCLAIMER: o texto a seguir trata apenas da opinião do autor e não necessariamente reflete a opinião institucional da BRA BS/ Investimentos ou do TradeNews.
Os eventos do último domingo (08) em Brasília entraram para a história de um país tido como pacífico e pacifista. Antes de mais nada, qualquer ato de depredação e quebra da ordem constitucional deve ser prontamente condenado e rechaçado. Posto isso, a radicalização no combate ao que se viu no dia 8 só pode insuflar mais os dois lados e nos levar, como país, a consequências impensadas, indesejadas e nefastas.
As eleições passadas, em outubro de 2022, foram marcadas, mais do que qualquer coisa, pela repulsa da maioria da população pelos dois principais postulantes: (i) Lula e (ii) Bolsonaro. Dada a dinâmica que se desenvolveu, ninguém conseguiu levantar a bandeira da terceira via e servir de real alternativa aos dois. Assim, muitos dos que votaram em Lula simplesmente não queriam mais Bolsonaro e muitos dos que votaram em Bolsonaro falavam não a Lula e o petismo. Simples assim. Quem não enxergar essa realidade não conseguirá um ter um diagnóstico preciso da situação.
E os motivos para esses brasileiros são simples de se identificar.
Do lado dos que votaram em Bolsonaro, existe a natural e esperada repulsa por Lula, que foi condenado por 3 instâncias da justiça por roubos e desmandos ao longo dos 14 anos de PT no governo. Lula e o PT nunca se responsabilizaram pelas suas ações que nos levaram à crise econômica de 2015-16, a pior crise financeira em termos de perda de PIB da qual se tem registro. No impeachment, havia mais de 14 milhões de desempregados pelos dados oficiais do IBGE. E, com a atuação do STF, o Lula foi ressuscitado politicamente. Não surpreende a aversão de metade da população a ter um presidente que já foi presidiário.
Do lado dos que votaram em Lula, tais brasileiros veem em Bolsonaro um presidente que teve uma gestão ruim no combate à pandemia, politizando assuntos técnicos como tomar ou não a vacina. Além disso, Bolsonaro inegavelmente se desgastou perante a população: (i) primeiro por sua postura de nenhuma deferência ao cargo de Presidente da República, com discursos semanais nos quais frequentemente “falava demais” segundo ele próprio, e, (ii) segundo, pela propaganda negativa e constante feita pelos maiores grupos de mídia do país. Durante 4 anos, diariamente mostravam de forma parcial apenas o lado negativo de seu governo. Não surpreende também a aversão a seu governo ser tão grande.
Contudo, há um ponto ainda mais sensível que não foi devidamente endereçado para o apaziguamento de nossa população: a atuação do Judiciário no processo eleitoral. Bolsonaro, ao longo de seu mandato, fez acusações à lisura do processo eleitoral. Até aí, poder-se-ia descontar tais afirmações como discurso político, narrativa eleitoral. Mas alguns pontos dessas acusações nunca foram endereçados e tratados com a importância que tem.
Pelo contrário, o simples ato de questionar a lisura do processo passou a ser condenado pelo TSE, que deveria zelar por sua lisura. Em um país dito democrático, o sistema eleitoral não pode ser uma “caixa preta”. Pedidos de abertura do código fonte, bem como a possibilidade de realização de auditorias foram prontamente negados.
Para quem não leu, o relatório das FFAA em relação à suposta auditoria que fizeram foi cristalino ao afirmar que as FFAA não puderam fazer a auditoria da maneira correta. Mas a guerra de narrativas inverossímeis foi tão longe que atingiu até o próprio juiz do pleito, que afirmou “Relatório das Forças Armadas confirma segurança das urnas eletrônicas,” e o Ministério da Defesa precisou reafirmar no dia seguinte que seu relatório “não excluiu a possibilidade de fraude ou inconsistência nas urnas eletrônicas”. Quantos brasileiros leram as 65 páginas daquele relatório?
Aquele era o momento para uma ampla coalisão de brasileiros (de todas as frentes – bolsonaristas, petistas, e desejosos de uma terceira via) para pedirem por uma auditoria, abertura e transparência do sistema eleitoral. Esse tipo de movimento deveria interessar a todos, mesmo aos beneficiados no pleito de 2022. Pensar diferente é não entender o risco que um sistema não confiável apresenta, afinal como diz o ditado “pau que bate em Chico, bate também em Francisco”.
Houve até nesse mesmo período, um argentino que fez sua própria auditoria e declarou que os resultados baseados nos dados do TSE tinham um comportamento suspeito, que deveria ser seriamente investigado.
Havendo (ou não) fraude, não se poderia ignorar tamanha suspeição sobre o coração de nossa democracia, nem admitir comportamentos parciais do Judiciário. Quantas pessoas pedindo justamente por uma explicação das autoridades tiveram suas redes sociais canceladas pelo TSE e sua “caça as fakenews”? ‘Mataram o mensageiro‘ em vez de endereçarem os problemas. Não à toa, o ex-ministro do STF Marco Aurélio culpou ao próprio STF pelas manifestações violentas do domingo. Cabe lembrar que dentre os 3 poderes, o STF foi o mais vandalizado de todos.
Agora, o que temos? Um país rachado no qual 50,9% escolheram um lado e 49,1% o outro, ou seja, menos de 1% de diferença entre ambos os grupos (se considerarmos que um voto que mude de lado contabiliza em dobro na diferença).
Pedir o rigor da lei aos baderneiros que quebraram Brasília não será o suficiente para resolver nossa situação. Estes têm sim que enfrentar a justiça e pagar por seus erros. Novamente, é inadmissível depredações públicas como manifestação democrática. Mas apenas tal atitude não irá resolver o problema principal e apaziguar nossa população. Seguem sugestões do que poderá melhorar nossa situação:
- Precisamos esclarecer as dúvidas que ainda pairam sobre nosso sistema eleitoral – sem isso não há possibilidade de apaziguamento social;
- O Judiciário precisará rever comportamentos parciais e, por vezes, contrários ao próprio texto constitucional – preferível que seja por atuação dos próprios ministros, mas se necessário, por intervenção do Senado Federal;
- Nós, o povo, precisamos também, mais do que nunca, ouvir os outros lados do espectro político e tentar chegar a um meio comum, a pontos de convergência, que venham criar novamente unidade como nação, desfazendo o ambiente de radicalização que nos Esse é um trabalho de TODOS, sem exceção.
Ignorar as realidades colocadas acima não ajudará em nada e certamente, mais dia, menos dia, fará os problemas ressurgirem. Enfrentá-las com sobriedade poderá sepultar desconfianças de parte a parte, e só assim poderemos virar a página e voltar a ser um só Brasil.