Remessa de grãos ucraniana sai pela primeira vez desde a invasão russa

Fonte STR - Shutterstock

A Ucrânia despachou, hoje (01), seu primeiro carregamento de grãos desde o início da invasão da Rússia, sob um acordo que objetiva aliviar a escassez global de alimentos.

O navio saiu do porto de Odessa carregando 26 mil toneladas de milho com destino a Trípoli, capital da Líbia, segundo autoridades ucranianas e o governo turco – que ajudou a intermediar o acordo. Espera-se que o graneleiro de Serra Leoa, o Razoni, chegue a Istambul amanhã (02) e continue seu curso após as inspeções.

A remessa é o primeiro teste para um acordo alcançado no mês passado para permitir que a Ucrânia, um dos maiores exportadores de grãos do mundo, comece a enviar cerca de 18 milhões de toneladas que a invasão da Rússia prendeu no país, desde fevereiro.

Embora o início dos embarques seja promissor para os agricultores ucranianos e para os principais compradores do mundo, com destaque para os países em desenvolvimento, o fluxo de milho, trigo e cevada ainda será menor do que antes da guerra. Levará meses para limpar o estoque de grãos, e as colheitas desta temporada devem ser esgotadas pela guerra. O Departamento de Agricultura dos EUA prevê que a Ucrânia exportará 30,6 milhões de toneladas métricas de grãos e sementes na temporada 2022-23, quase metade da quantidade da temporada anterior.

O Razoni foi escoltado para fora do porto na estratégica cidade de Odessa, no sul, por um navio do governo ucraniano. Equipes de inspeção, incluindo funcionários da Turquia, das Nações Unidas e da Rússia, devem verificar os navios envolvidos no acordo.

Outros navios devem partir nos próximos dias, com vários já carregados desde antes do início da invasão russa. O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky supervisionou, na sexta-feira (29), o primeiro carregamento de um navio com grãos desde fevereiro no porto de Chornomorsk, perto de Odessa.

A indústria agrícola da Ucrânia foi particularmente atingida pela invasão russa.
Fonte: Joseph Sywenkyj – The Wall Street Journal

O ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Dmytro Kuleba, chamou a retomada das exportações de grãos de “um dia de alívio para o mundo, especialmente para nossos amigos no Oriente Médio, Ásia e África”.

“A Ucrânia sempre foi um parceiro confiável e continuará sendo enquanto a Rússia respeitar sua parte do acordo”, escreveu ele no Twitter.

A retomada dos embarques oferece esperanças de renda cruciais para a Ucrânia, à medida que sua economia fraqueja sob o peso da guerra. A agricultura representava mais de 40% das exportações ucranianas antes do início do conflito no leste europeu e emprega 14% da população do país, de acordo com o Departamento de Agricultura dos EUA. A retomada pode oferecer uma oportunidade de salvação para os agricultores ucranianos em apuros, concedendo-lhes dinheiro para comprar as sementes, combustível e fertilizante de que precisam para semear suas próximas colheitas e garantir sua sobrevivência.

Os preços do trigo e do milho caíram 1,6% e 2,1%, respectivamente, hoje (01), com participantes do mercado antecipando maiores ofertas de grãos ucranianos.

Antes da guerra, a Rússia e a Ucrânia representavam juntas quase um terço de todas as exportações globais de trigo. A Ucrânia também foi um grande exportador de milho e cevada. A Turquia, juntamente com a ONU, ajudou a intermediar o acordo de 22 de julho após meses de negociações.

A partida do navio sinaliza que a Ucrânia, juntamente com a Turquia e a ONU, está determinada a implementar o acordo de grãos, apesar da ameaça representada pelos ataques da Rússia à infraestrutura agrícola ucraniana.

Autoridades ucranianas de alto escalão expressaram dúvidas sobre se a Rússia manterá sua parte no acordo. Mísseis russos atingiram o porto de Odessa em 23 de julho, poucas horas depois que autoridades de todas as quatro partes assinaram o acordo em Istambul. Autoridades russas disseram que o ataque teve como alvo a infraestrutura militar.

O Razoni partiu do porto de Odessa, na Ucrânia, carregando 26.000 toneladas de milho, segundo autoridades.
FOTO: Stringers – Reuters

O acordo pede que ambos os países inseridos na guerra não ataquem navios que transportam grãos e se abstenham de greves em três portos abrangidos pelo acordo. Funcionários de todas as quatro partes devem monitorar o acordo de um novo centro de controle em Istambul.

“Esperamos que este processo continue sem problemas e interrupções”, disse o ministro das Relações Exteriores da Turquia, Mevlut Cavusoglu, no Twitter. “Faremos o que for necessário para isso chegar ao fim. Esperamos que o acordo leve a um cessar-fogo e a uma paz duradoura”.

Autoridades das Nações Unidas disseram que um ou mais navios provavelmente deixariam a Ucrânia nos primeiros dias do acordo, em parte para demonstrar que trato pode funcionar. O acordo tem prazo de 120 dias e pode ser renovado.

Sob o acordo, os pilotos ucranianos devem guiar navios comerciais entre minas marítimas que a Ucrânia colocou perto de seus portos para se defender contra ataques russos. A Ucrânia estava relutante em remover quaisquer minas, dizendo que isso a exporia a novos ataques.

Antes da guerra, quase todo o trigo, milho e óleo de girassol da Ucrânia saíam pelos portos do Mar Negro. Grande parte desses suprimentos fluiu para nações em desenvolvimento na África e no Oriente Médio.

Os analistas não esperam que os primeiros embarques levem a uma queda repentina nos preços dos alimentos. Os preços globais do trigo já caíram significativamente nas últimas semanas em relação aos recordes que atingiram após a invasão da Rússia e agora estão próximos dos níveis anteriores à guerra. Mas, a cerca de US$ 8 o alqueire, o trigo continua mais que o dobro do preço de cinco anos atrás e quase tão caro quanto no final de 2010 e início de 2011, quando os altos preços dos alimentos ajudaram a desencadear as revoltas no Oriente Médio conhecidas como Primavera Árabe.

 

(Com Reuters)

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