Venezuela intensifica ameaça de anexar parte de um vizinho rico em petróleo

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Caracas diz que plebiscito dá aprovação pública para tomar grande parte do vizinho rico em petróleo

A Venezuela está intensificando suas reivindicações sobre uma parte da Guiana, seu vizinho rico em petróleo, que recentemente se tornou uma das fronteiras energéticas mais promissoras do mundo. 

A crescente disputa entre o regime autoritário da Venezuela e a pequena Guiana envolve uma área chamada Essequibo e ocorre enquanto um consórcio liderado pela Exxon Mobil faz uma série de descobertas de petróleo offshore e a Guiana busca mais exploração de hidrocarbonetos em áreas que a Venezuela reivindica como suas.

No domingo (03), o ditador venezuelano Nicolás Maduro realizou um plebiscito sobre a Guiana, no qual ele afirmou ter aprovação pública para anexar grande parte do país. Os guianenses negam que qualquer parte de seu país pertença à Venezuela e afirmam que a reivindicação de seu vizinho tem sido um constante impedimento para sua economia e tem dificultado o investimento estrangeiro.

“Não vamos sucumbir ao bullying da Venezuela”, disse o vice-presidente da Guiana, Bharrat Jagdeo, em uma coletiva de imprensa recente. “Não somos um país agressivo, mas defenderemos nosso país por todos os meios necessários.”

Jagdeo afirmou que a Guiana, que não possui marinha, está trabalhando para aumentar sua cooperação de defesa com vários aliados, incluindo os Estados Unidos, devido às ameaças de Maduro. Ele disse que duas delegações do Departamento de Defesa dos EUA devem visitar Georgetown, capital da Guiana, nos próximos dias.

[Fonte: Carl Churchill/The Wall Street Journal]
Essequibo, uma região pouco povoada e em grande parte coberta por selva, que compreende dois terços da Guiana, é marcada pela mineração informal de ouro e diamantes, bem como por operações de exploração madeireira. A Venezuela reivindica essa região há mais de um século, e Maduro afirmou que seu país agora retomará as terras roubadas da Venezuela pelas potências coloniais.

“Demos um novo passo em direção a uma nova fase da história”, disse Maduro em discurso do lado de fora do palácio presidencial de Miraflores, na capital da Venezuela, Caracas, enquanto ele e seus assessores comemoravam a vitória no plebiscito, mas não explicaram como planejavam retomar as terras. “Quanto eles nos subestimaram. Quanto eles me subestimaram.”

Sadio Garavini, ex-embaixador venezuelano na Guiana, disse que o plebiscito foi em grande parte um momento de distração para Maduro, enquanto ele tenta reunir apoio antes das eleições presidenciais que deve realizar no próximo ano, como parte de um acordo provisório recentemente alcançado entre seu governo e a administração Biden. 

Em outubro, os EUA aliviaram as sanções econômicas em troca de reformas democráticas, que Caracas ainda não implementou.

“Em grande parte, é uma manobra política interna para desviar a atenção pública do enorme desastre social que estamos vivendo”, disse Garavini, referindo-se à crise econômica da Venezuela durante os 10 anos de governo de Maduro. Seu mandato tem sido marcado pelo êxodo de quase oito milhões de pessoas, ou cerca de um quarto da população.

O presidente venezuelano Nicolás Maduro cumprimentou apoiadores em Caracas após o referendo de domingo sobre a Guiana. [Foto: Pedro Rances Mattey/Agence France-Presse/Getty Images]
Recuperar Essequibo é uma das poucas questões em que o regime venezuelano e sua oposição concordam. No entanto, os postos de votação estavam em grande parte vazios em todo o país no domingo, com críticos chamando o momento de uma tentativa desesperada do líder em estimular o fervor nacionalista.

As autoridades eleitorais venezuelanas afirmaram que cerca de 10,4 milhões de eleitores participaram, pouco menos da metade dos eleitores elegíveis. Políticos da oposição, pesquisadores de opinião e analistas eleitorais questionam a veracidade dos resultados. O governo tem sido acusado de fraude generalizada em eleições passadas.

A disputa levantou preocupações desde o Brasil até os Estados Unidos e as Nações Unidas. A Guiana entrou com uma ação na Corte Internacional de Justiça da ONU para reafirmar suas fronteiras e encerrar de vez as reivindicações da Venezuela, após recusar os esforços de Maduro para resolver a disputa por meio de negociações bilaterais. O caso provavelmente se arrastará por anos.

Nos últimos meses, autoridades militares venezuelanas têm publicado vídeos nas redes sociais supostamente mostrando pessoal do exército patrulhando ao longo do Essequibo, enquanto ativistas pró-governo substituem as bandeiras guianenses por bandeiras venezuelanas. 

Enquanto isso, Maduro tem criticado publicamente seus rivais guienenses, acusando-os de se venderem ao imperialismo dos Estados Unidos e afirmando, sem evidências, que os EUA estão estabelecendo uma base militar nas terras em disputa.

A controvérsia na fronteira é resultado do território ter passado de um governante colonial para outro, dos espanhóis para os holandeses e depois para os britânicos, que assumiram o controle em 1831.

Um homem em Caracas votou no referendo de domingo sobre a região de Essequibo na Guiana. Foto: Pedro Rances Mattey/Agence France-Presse/Getty Images.

A Guiana Britânica absorveu grande parte do Essequibo através da expansão de assentamentos de mineração de ouro e desenhos enganosos de mapas, de acordo com Rafael Badell, professor da Academia de Ciências Políticas e Sociais em Caracas. Sob o domínio britânico, a Guiana viu sua área terrestre quase quintuplicar.

Badell disse que há poucas dúvidas de que a Venezuela foi enganada. Entretanto, tudo depende do governo Maduro aderir à corte da ONU e apresentar evidências. “É nossa última oportunidade e estamos esperando que eles façam isso.”

O nome Tuschen, da pequena vila às margens do rio Essequibo, na fronteira do território disputado, vem de uma frase colonial holandesa e significa, de forma contraditória, “entre amigos”.

Para os moradores, que vivem em casas modestas construídas ao redor de uma antiga usina de açúcar, a reivindicação de Caracas é particularmente irônica, pois a vila tem sido o ponto de entrada para dezenas de migrantes venezuelanos que fogem das dificuldades no país.

Em setembro, a polícia guienense prendeu cerca de 80 venezuelanos depois que eles desembarcaram em Tuschen em barcos carregados com galinhas e galos de briga. 

O Secretário de Relações Exteriores da Guiana, Robert Persaud, afirmou que pelo menos 25.000 pessoas da Venezuela migraram para a Guiana, um número significativo para um país com uma população de menos de 800.000 habitantes, onde a pobreza há muito tempo tem levado seus próprios cidadãos a deixarem o país.

O rio Essequibo flui pela passagem de Kurupukari, na Guiana. [Foto: Matias Delacroix/Associated Press]
Outros dizem que a disputa entre as fronteiras tem mantido a região pobre. “Não nos permitiram desenvolver”, disse Amanda Nedd, professora de Tuschen, que trabalha em torno do Essequibo há grande parte de sua vida. “A terra é nossa. Essa é a lição que nos ensinaram desde a escola primária”.

Na escola onde Nedd leciona, ela disse que há dois mapas pendurados na parede: um mostrando as fronteiras da Guiana antes de alcançar a independência da coroa britânica em 1966 e outro com as fronteiras atuais, que são aceitas pela maioria dos países ao redor do mundo.

As crianças na Venezuela, por outro lado, aprendem a desenhar mapas nacionais que incluem o que chamam de “Guiana Essequiba” destacada como “Zona em Reivindicação”.

A linha de pensamento de Maduro sobre a fronteira é uma ruptura com seu mentor e antecessor, o falecido presidente socialista Hugo Chávez, que havia varrido a controvérsia da fronteira para debaixo do tapete. 

Em 2005, o governo Chávez começou a trocar produtos refinados de petróleo por arroz guienense como parte de uma aliança política e econômica com mais de uma dúzia de países caribenhos chamada Petrocaribe.

A aliança foi dissolvida por Maduro à medida que a produção de petróleo na Venezuela colapsou.

Em um dia recente, o taxista guienense Waqar Famaroo lamentou a disputa, pois as exportações de arroz para a Venezuela resultaram em um impulso econômico para sua comunidade agrícola perto do porto fluvial de Charity, no norte do Essequibo.

“Se os venezuelanos vierem e invadirem, eles vão estar arruinando o próprio ganha pão”, disse Famaroo. “Espero que eles se lembrem disso”.

(Com The Wall Street Journal; Título original: Venezuela Ramps Up Threat to Annex Part of Guyana)

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