A empolgação é fora de série nas Olimpíadas de “planilhas” competitivas
Em um hotel com vista para a famosa Strip, numa noite de sábado, Andrew “O Aniquilador” Ngai correu pela passarela de uma arena com as mãos para o alto e subiu ao palco para os fãs que gritavam. Seu bicampeonato mundial estava em jogo.
O australiano não sabia, mas, em poucos minutos, a vitória seria aparentemente arrancada dele, tudo por causa de uma falha no computador. A situação é bem normal, considerando que Ngai estava jogando para ser o melhor no Excel competitivo, uma coisa que existe de verdade.

Para muitos, o Excel é algo a ser evitado após o expediente. Mas o onipresente software de planilhas eletrônicas para escritório gerou fileiras de geeks de dados que veem o Excel como um esporte. E aqui estavam eles na maior mesa de todas: o Campeonato Mundial do Microsoft Excel, realizado na HyperX Arena Las Vegas, no Luxor Hotel & Casino, em dezembro passado.
Os contadores de feijão do mundo finalmente receberam o respeito que mereciam, com uma multidão de nerds típicos do mundo financeiro deixando de lado as distrações mundanas de Las Vegas, como um show do U2, um jogo da NBA e o rodeio, para assistir aos atletas do Excel sentados diante dos computadores no palco e fazendo planilhas como se não houvesse amanhã.
“A paixão, a energia e o entusiasmo que vocês trazem para a planilha. Vocês são lendas”, disse Johnnie Thomas, da Microsoft, no início do confronto. “Espero que seus motores de cálculo estejam a todo vapor e que seus dedos sejam ágeis.”
A equipe que conduziu o evento mesclou com maestria o brilho e o deslumbramento, apresentando um locutor no palco que falava no estilo luta livre, Stephen Rose — um consultor e ex-funcionário da Microsoft — e comentários engraçados de Jon Acampora e Oz du Soleil, ambos treinadores de Excel.

Em um determinado momento, Rose apresentou com tanto entusiasmo o concorrente Diarmuid Early, um Ph.D. em ciência da computação conhecido como o LeBron James do Excel, que teve de fazer uma pausa para se recompor. “Preciso de um pouco de água depois do LeBron”, disse ele.
Outro participante, Brandon “B-Money” Moyer, correu pela passarela batendo em si mesmo como se fosse um cavalo de corrida premiado.
Parte do apelo do Excel é sua onipresença obscura e tendência a aparecer em lugares inesperados, como em um vídeo para o rapper Nelly. Até mesmo Sam Bankman-Fried, o desonrado incentivador do bitcoin, o utilizou. Alguns diretores financeiros querem que ele seja banido. Muitos dos participantes do campeonato mundial brincaram dizendo que o Excel está secretamente bloqueando o sistema financeiro mundial.
Para os fãs de planilhas eletrônicas, a extravagância do Excel em Las Vegas também incluiu cursos de treinamento empolgantes, como “Faça com que seus dados se espalhem com fórmulas dinâmicas de matriz” e outro que se aprofundou em “Tabelas dinâmicas!”
Mas as emoções foram fora de série no torneio principal, onde os rivais disputaram o campeonato de Excel em três sessões de 30 minutos que incluíram tanto drama quanto números hexadecimais. Assistindo o momento se desenrolar em uma tela gigante, o público ao vivo gritava de incentivo e surpresa e se maravilhava com os ricos tipos de dados, tabelas, funções monstruosas e o temido erro #ref que aparecia diante deles.
O atual campeão Ngai “O Aniquilador”, um avaliador de riscos, enfrentou 15 adversários no evento ao vivo, que também foi transmitido online. No entanto, a controvérsia surgiu minutos após o início da partida semifinal de Ngai.
Para aumentar a pressão, as regras do campeonato determinavam que a pessoa com a pontuação mais baixa aos 7,5 minutos de uma semifinal seria eliminada e, quando o relógio ultrapassou essa marca crucial, o campeão se viu em uma posição incomum: em último lugar no placar. Com os gemidos da plateia, Ngai foi eliminado do show, e até ele parecia perplexo. Para confundir ainda mais as coisas, depois que ele foi removido, sua pontuação no quadro saltou de 75 para 515 e depois voltou para 75.
Posteriormente, os organizadores culparam uma falha no computador pela pontuação errônea e, após uma reunião dramática, permitiram que Ngai, o Aniquilador, voltasse a participar. Eles se recusaram a culpar o Clippy, um assistente virtual animado do Microsoft Office, agora descartado, insultado por muitos usuários, mas ainda assim amado pelo público em Las Vegas.
Na grande final, havia seis problemas de matemática, relacionados à construção de naves espaciais e à mineração de asteroides, e cinco problemas bônus. Os participantes com a pontuação mais baixa saíam da competição a cada cinco minutos, até que restaram apenas três no final.
Os conjuntos de problemas do Excel normalmente não têm o dinamismo do boxe e do basquete.
Para os não iniciados, o evento foi um pouco como ver as pessoas suarem enquanto faziam o vestibular. A tela do palco principal parecia um emaranhado de teclas e números, e alguns problemas eram tão sofisticados que até mesmo os participantes ficaram perplexos.
“Não tenho a menor ideia do que era esse problema”, disse Brandon Moyer, que foi eliminado cinco minutos após o início da rodada final de sábado.
Embora o Excel competitivo tenha sido uma característica dos concursos de modelagem financeira online por cerca de uma década, ele só recentemente surgiu como um esporte eletrônico autônomo.
Em 2021, o consultor financeiro da Letônia Andrew Grigolyunovich, com uma visão de levar gráficos matemáticos para as massas, começou a transmitir competições de Excel na internet . Seu esporte acabou entrando no espaço de esportes estranhos da ESPN chamado The Ocho, ao lado de leiloeiros competitivos e uma disputa de corte de madeira.
Até mesmo a reviravolta na imagem pública de Clippy ficou evidente no sábado. O fã do Excel Jordan Goldmeier, um escritor que mora em Portugal, trouxe um cartaz caseiro do Clippy para torcer por seu participante favorito, o irlandês Diarmuid Early, o consultor financeiro de 1,80 m que os fãs compararam a LeBron.
Nos últimos segundos da partida, Ngai não só conseguiu passar pelas rodadas eliminatórias, como sua estratégia de acumular pontos de bônus lhe deu uma vantagem de 196 pontos sobre seu concorrente mais próximo. Então, faltando 36 segundos, Ngai retirou os fones de ouvido e sentou-se na cadeira. “Isso é ousado”, gritou o comentarista Oz du Soleil, “Cruzando os braços! O cara está se amostrando!”
Ninguém colocou mais pontos no placar. O campeão manteve sua posição e ganhou um prêmio de US$ 3.000 e um troféu. E ele pode usar o cinturão de campeão do Excel.