Como ficam as siderúrgicas brasileiras no desce e sobe do minério de ferro

siderurgicas brasileiras

Este ano tem sido marcado por uma montanha-russa no desempenho do minério de ferro, que chegou a bater US$ 80 por tonelada em fevereiro devido a restrições na produção de aço e aversão ao risco no mercado global, e ao fraco setor imobiliário chinês, que sofre o impacto da liquidação da Evergrande, outrora a maior incorporadora do país.

Além do setor imobiliário chinês, outro fator que pesa na demanda da commodity é que os estoques repostos no final do ano passado seguem elevados desde então, mantendo a demanda baixa entre as siderúrgicas, de acordo com o analista da Benndorf Research Marco Ferrini. 

Ele afirma ainda que há uma incerteza crescente sobre a recuperação da demanda de matérias-primas na indústria siderúrgica do país no curto, médio e longo prazo, pois o governo chinês apresentou metas econômicas bastante moderadas para o ano, frustrando as expectativas de maior apoio ao consumo de aço.

Além disso, prossegue o analista, a queda de natalidade na China tem uma relação recíproca com o setor imobiliário, visto que um dado impacta o outro, gerando duas consequências, segundo Ferrini.

Na primeira, a política de filho único da China, que durou até 2015, gerou inflação no segmento porque, historicamente, houve preferência para o nascimento de meninos e o aborto de meninas, criando um desequilíbrio de gênero na população. 

“Com a competitividade dos homens no mercado de casamentos, ser proprietário de um imóvel começou a ser um grande diferencial para conseguir uma parceira, elevando a demanda e os preços”, explicou.

Já na segunda, devido à escalada dos preços de imóveis nos principais centros urbanos e regiões mais nobres, com acesso às melhores escolas e universidades, começou uma deterioração das condições econômicas da população, que passou a dizer que não poderia mais arcar com o custo de ter filhos, resultando em queda na taxa de natalidade.

[Foto: EFE/EPA/Alex Pavloski]
Em março, o minério de ferro iniciou uma recuperação gradual, impulsionada por medidas de estímulo do governo chinês, que em fevereiro também fez um apelo aos bancos por apoio ao setor imobiliário. Porém, até o momento, os estímulos governamentais de Pequim geraram um impacto limitado sobre o setor, ressaltou o analista da Highpar Maykon Douglas.

Ele argumenta que o arsenal de medidas econômicas é restrito e depende do planejador central. Ademais, os governos locais continuam em escassez financeira, e é difícil esperar uma política monetária agressiva até que os principais BCs comecem a afrouxar os juros. 

“Quedas mais intensas dos juros chineses no curto prazo pressionariam ainda mais o yuan e as margens de juros dos bancos locais, que estão extremamente baixas”, ponderou.

O cenário para o consumo ainda é desafiador, aponta o analista. O desemprego das pessoas mais jovens estava nas máximas históricas no ano passado – quando o dado deixou de ser publicado. E, por ser bastante imobilizada, a própria riqueza das famílias chinesas se deteriorou por conta da crise imobiliária. 

“Portanto, o balanço financeiro das famílias não é tão robusto como vemos no Brasil ou nos EUA. Sem a recuperação desse balanço, o mercado imobiliário será pouco elástico aos estímulos”, declarou.

E o Brasil com isso?

De acordo com Marco Ferrini, em meio ao crescimento mais fraco da economia e com o setor imobiliário em crise, as siderúrgicas chinesas estão exportando mais aço, consequentemente prejudicando as companhias brasileiras. 

Isso porque o governo da China subsidia o aço produzido no país, já que o Estado controla a maior parte das siderúrgicas, ao mesmo tempo que a taxa de importação sobre produtos de aço no Brasil é mais baixa que em seus pares, o que facilita a entrada do produto. 

Por aqui, o desce e sobe do minério de ferro acaba impactando a Vale [VALE3] de maneira mais forte, já que 80% da receita da companhia vem da commodity, ainda que nos preços atuais Vale esteja “barata e gerando muito caixa”, pontuou o analista da Levante João Abdouni. 

O analista afirma que Usiminas [USIM5] e CSN [CSNA3] também têm ganhos importantes advindos do minério, ainda que o produto seja secundário nas receitas. Na verdade, ele prosseguiu, CSNA3 se beneficiou dos preços elevados da commodity, subindo 30% nos últimos doze meses. 

“Usiminas também tem performado bem ao longo desse mesmo tempo”, acrescentou. 

Já a Gerdau [GOAU4;GGBR4] não tem receitas ligadas ao minério, a commodity afetando apenas o custo das operações. Nesse cenário, e com o excesso do aço chinês, os papéis da companhia tem performado no campo negativo.

Sendo assim, para os próximos doze meses, Abdouni observa uma perspectiva mais favorável para as mineradoras que para as siderúrgicas. 

“Com o preço do minério de ferro continuando a ser negociado entre US$ 100 e US$ 110 por tonelada, Vale mantém uma forte geração de caixa e um valuation atrativo”, pontuou.

Para o cenário global, Marco Ferrini conclui que a projeção para o minério de ferro em 2024 não é animadora, visto que a China não possui planos para implementar grandes pacotes fiscais e pretende reestruturar as dívidas crescentes dos governos locais.

“Além disso, os estoques da commodity continuam elevados e a demanda baixa”, ponderou.

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