Como um gestor brasileiro ensinou o gringo operar inflação

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Nos anos 1980, quando a inflação brasileira ranqueava entre as mais altas do mundo, os cartunistas dos jornais ilustravam a alta dos preços como um dragão. A figura mitológica se popularizou e criou no inconsciente da população a percepção da inflação como vilã. O dragão ‘queima’ seu poder de compra e, assim, governantes correram atrás de soluções – algumas atrapalhadas – para estancar a aceleração de preços.

Os anos seguiram e o resto do mundo adotou a expressão “Inflation Dragon”, uma contribuição tupiniquim, nossa. Analistas gringos descreveram as características hibernatórias dos dragões (que incorporam traços dos répteis) para explicar que a inflação nunca morre, ela hiberna e o estado vigilante é crucial pra segurança da população.

E se, por aqui, nos primeiros sinais de inflação pós-Covid, promovemos a maior alta de juros desde o Plano Real, os EUA demoraram a acreditar que inflação sequer era ameaça. Os gestores brasileiros de multimercados – a maioria deles que já operava nos anos 90 entregaram a maior rentabilidade anual histórica dos seus fundos apostando daqui de longe que o Fed, banco central americano, com todo arcabouço técnico estava errado sobre sua própria economia.

Enquanto isso, nos Bancos Centrais, o planeta inteiro acompanhou o Fed falando de inflação como quem adestra um cachorro pela primeira vez. Mas por aqui, o presidente do Banco Central, Roberto Campos, aperta um botão, joga a taxa de 2% pra 13,25% e está todo mundo vivo – machucado, mas vivo. Ninguém pediu a cabeça do Roberto Campos. O Brasil, em pouco tempo, implementou o maior ciclo de juros da história do Plano Real.

[Fonte: BRA BS]
Mas todos gestores, lá e cá, são inteligentes e tomam decisão baseados em modelos sofisticados (nem sempre!). Que modelo o gestor brasileiro usou que o gringo não viu?

Resposta: o brasileiro modelou a inflação como um evento reflexivo que retroalimenta as expectativas: um choque de inflação gera choques adicionais.

O gestor gringo enxergou a inflação como um evento de reversão à média – pra cada choque, a inflação retornaria gradualmente pra sua média de longo prazo.

O modelo de inflação carrega na sua própria formula um fenômeno comportamental que é a expectativa de inflação. A própria expectativa de inflação gera inflação – uma profecia autorrealizável. Difícil modelar o trauma psicológico que cada cidadão carrega do seu passado inflacionário.

Em pouco tempo, analistas do JP Morgan e do Goldman Sachs então desembarcaram em Guarulhos pra aprender com os principais gestores brasileiros. Gestores que ainda mantêm seus fundos abertos graças a uma enxurrada de resgates ocorridos no início do ano.

“Traders brasileiros conhecem inflação”, em grifo amarelo. [Fonte: Bloomberg]
O economista brasileiro sabe quanto de juros é necessário pra devolver a inflação pra meta, sabe qual tom de discurso do presidente do Banco Central pra ancorar expectativas, sabe sobre o impacto da moeda na inflação, sabe quais setores são prejudicados, sabe como bancos navegam nesse cenário e quais seus impactos sociais.

E assim, com um dos países que mais arrochou a economia, chegamos a um (provável) fim de ciclo de taxa de juros em quase 14% ao ano, depreciando praticamente todos ativos cíclicos do nosso mercado como bolsa, fundos imobiliários, indexados à inflação e prefixados.

As carteiras de investimentos que mais oscilaram neste ano são as mais preparadas para um novo ciclo de queda ou até estabilidade dos juros, assim como aconteceu nos últimos 5 ciclos de altas de juros que tivemos desde a virada do século. Atravessar os ruídos da mídia e das redes sociais com conteúdo publicados muitas vezes por pessoas que não investiam nesses últimos 5 ciclos de altas de taxa Selic só vai contribuir pra sua percepção equivocada de que o ciclo atual que vivemos é permanente.

Desejo ao aos amigos e investidores boas festas, um ano novo próspero e com saúde.

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