Poderia ter sido o Brasil contra a Argentina disputando a semifinal da Copa do Mundo nesta terça-feira (13). O sonho do Hexa ficou para 2026, portanto restou aos traders do mercado brasileiro resignarem-se e voltarem às operações em bolsa.
Isso porque até mesmo o Ibovespa fez jus à fama do país do futebol. Na estreia da Seleção Brasileira em campo no Mundial de 2022, em 24 de novembro – quando a canarinho cravou placar de 2 a 0 contra a Sérvia –, o benchmark da bolsa brasileira registrou queda superior a R$ 575 milhões no volume de negociação de uma hora para outra.
Literalmente. Às 15h, o volume de negociação do índice era superior a R$ 1 bilhão, cifra que despencou para R$ 67 milhões na hora da partida, às 16h. O volume financeiro é determinante para a liquidez dos ativos negociados – isto é, o potencial de convertibilidade em dinheiro.
“Liquidez é tudo”, exclamou Raphael Figueredo, o Rafi, sócio analista da Eleven Financial. “Se você tiver opção de não operar em dias de pouca liquidez, melhor”, recomenda, especialmente em operações de day trade, “uma vez que falhas na tendência costumam acontecer mais vezes neste período”.
Para Rafi, a liquidez é um dos fatores mais importantes para ser considerado na recomendação de um ativo, “não apenas pela garantia de uma boa e rápida execução de ordem, mas no entendimento de que o preço descontará tudo mais rapidamente tendo na tela seu valor mais justo”.
A falta de liquidez resulta em aumento de volatilidade dos ativos, “pelo menos na teoria”, complementa Erik Pajunk, assessor de renda variável da BRA BS/. “A pior situação é quando o cliente opera um ativo sem saber que não é um ativo líquido”, relatou.
Os chamados “micos” da bolsa são considerados os ativos mais desprovidos de liquidez disponíveis em bolsa.
Mesmo sem futebol, o mercado costumeiramente perde ânimo perto do fim do ano. “Pegando dados do Ibovespa desde 2011 até 2021, o volume médio de negociação de dezembro é consideravelmente menor” – em dezembro, foi menor que em novembro e janeiro em oito dos onze anos analisados.
Apesar da tradição de perda de volume na época do Natal, a contribuição da Copa do Mundo para a perda de volume na bolsa foi fora da curva. “Principalmente nos jogos do Brasil”, comenta Filipe Borges, analista técnico da Benndorf Research, “o mercado perdeu muita volatilidade, mas muita volatilidade mesmo, não gerando oportunidades”.
A casa de análise recomendou aos traders pararem de operar uma hora antes dos jogos quando o Brasil ainda estava na disputa. “O mercado estava muito fraco, oferecendo diversos sinais falsos”, levando muitos ao prejuízo.
Entretanto, a recomendação não é a mesma para as festas de fim de ano, durante as quais Filipe observou movimentos consideráveis do mercado nos últimos anos, apesar da perda de liquidez. “Acredito que quem for operar, não no dia 23, mas em alguns dias entre a semana do Natal e do Ano Novo, pode aproveitar boas oportunidades na bolsa”, pondera.
A perspectiva não reduz a necessidade de cautela. Filipe recomenda aos traders operarem com “mão reduzida”, ou seja, negociando volumes baixos, uma forma de reduzir o risco “para que, caso o mercado fique apresentando falsos sinais, não perca dinheiro”.
De acordo com Raphael Figueredo, o risco de operar ativos sem liquidez, além da execução da ordem, é “não encontrar contraparte suficiente para cobrir sua operação, além de não vislumbrar aderente ao que julgamos ser o valor justo”.
Na visão de Borges, o volume financeiro do Ibovespa deve voltar ao normal na primeira semana de 2023. “O mercado não para”, principalmente ante as notícias relativas à inflação nos EUA e no Brasil, além do noticiário político nacional, o qual deve traduzir-se em forte volatilidade nos próximos meses, segundo o analista.
Erik Pajunk, no entanto, frisa que a preocupação com liquidez varia de acordo com o investimento desejado. “Se investe a longo prazo, não faz muito sentido se preocupar com isso”, afirma, ressaltando também a importância do fator para operadores de curto prazo.