Investir no mercado americano é quase uma regra para quem procura diversificar sua carteira por meio de oportunidades no exterior. Em 2022, o Brasil foi o nono na lista de maiores investidores internacionais nos Estados Unidos, de acordo com dados da WIT Exchange. Uma pesquisa do portal Business Insider afirma ainda que brasileiros inseriram mais de US$ 54 bilhões na terra do Tio Sam.
Com o crescimento constante de corretoras americanas disponíveis para todos os perfis de investidores, está quase consolidada a ideia que o “pé no estrangeiro” é o futuro, de acordo com Bruna Allemann, head de mercado internacional da Nomos.
“Estamos a um passo de virar comum o investidor já ter acesso a uma conta internacional quando abrir conta em um banco brasileiro”, afirmou.
Ainda que os Estados Unidos estejam incertos sobre o início do ciclo de cortes dos juros, Allemann explica que dolarizar continua valendo a pena, pois a crise pontual não tira do país o título de maior economia do mundo.
Na verdade, segundo Beto Saadia, diretor de investimentos da Nomos, é justamente neste momento que se torna possível encontrar algumas barganhas antes que a taxa normalize. O que está sendo debatido, ele prossegue, é a magnitude e temporalidade do ciclo atual, visto que a queda já está precificada, apesar da falta de previsão concreta.
Além disso, o diretor ressalta que arremeter o dinheiro para uma corretora é vantajoso, pois o investidor usufrui dos benefícios das opções infinitas disponíveis, que “vão muito além da moeda forte”.
Saadia relembra ainda que, diferentemente da Bolsa brasileira, as bolsas americanas não são limitadas somente a empresas dos Estados Unidos, já que possuem ações de empresas do mundo todo. Além disso, o Brasil é uma parte “muito pequena” do PIB global, representando menos de 2%.
“Se restringir somente a investimentos brasileiros, na verdade, não é exatamente como funciona o nosso dia a dia. Você acorda, usa um iPhone, o seu chuveiro é importado, o seu carro é importado, tudo é importado. Porque os investimentos não podem ser diversificados globalmente também?”, questionou.
O analista da Buena Vista Capital Renato Nobile complementa que, ao ganhar e viver em reais, o investidor está 100% exposto ao risco do Brasil, que é um país complexo nos quesitos de estabilidade cambial. Por outro lado, ele continua, também não se deve deixar todo o seu dinheiro em nenhum país.
O analista afirmou que quanto será alocado depende do perfil de risco do cliente, já que o dólar oscila diariamente frente ao real, apesar de ser “uma moeda muito mais forte ao longo do tempo”.
“O investidor mais conservador pode alocar de 5% a 10% do patrimônio, enquanto o mais agressivo pode trabalhar na casa dos 20% e 30%”, sugeriu.
Para investidores de média ou baixa renda que buscam investir, os Exchange-Traded Funds (ETFs) são uma excelente opção. De acordo com Bruna Allemann, eles oferecem várias vantagens, como: diversificação, menor volatilidade, facilidade de investimento e compra fracionada.
Ela explicou que os ETFs permitem investir em uma ampla gama de ativos, como índices, setores, commodities ou estilos de investimento, o que ajuda a diversificar o portfólio e reduzir o risco.
“Além disso, uma característica particularmente útil para investidores com menos capital é a possibilidade de comprar frações de ETFs, o que permite um investimento inicial mais baixo”, adicionou.
Lucro x Hedge
A única diferença entre os dois tipos de dolarização está, como o nome sugere, na questão da estratégia. Segundo Nobile, enquanto o hedge protege o investidor das variações cambiais de seu país, a dolarização para lucro foca em ter ativos expostos ao dólar, como ações da Apple [AAPL34] e Microsoft [MSFT34], que resultam em renda fixa.
Para Beto Saadia, a vantagem do hedge é resguardar o investidor de ser afetado por eventuais catástrofes no governo e a hiperinflação no Brasil, “coisas que a gente já viu acontecer em outros países, como a Argentina e a Venezuela”.
“Para esses casos, ter uma parcela em dólar é ter, na verdade, uma parte dos seus investimentos em uma moeda forte, o que, de alguma forma, protege” disse.
Bruna Allemann complementa que a preocupação com a dolarização deve existir apenas no momento do câmbio. “Não se converte em reais o investimento em dólar. O brasileiro precisa aprender isso”, frisou.
Projeções para o dólar
Renato Nobile não gosta de ter um target específico para o dólar, pois as projeções dependem de um grande número de variáveis macroeconômicas para definir se a tendência é valorização ou desvalorização. Dito isso, o analista afirma que a tendência do dólar frente ao real é que o câmbio brasileiro se valorize até o final do ano.
Ainda assim, ele diz que “se não houver nenhum problema local muito maior, seja político ou econômico, eu diria que o dólar na casa de R$ 4,60 é extremamente viável”.
Beto Saadia disse que essa expectativa de valorização do real acontece devido ao fluxo estrangeiro relevante que tem entrado no país, que veem o Brasil – e a América Latina – como um hub.
“Um fluxo grande de recursos também vem da própria balança comercial, que está muito forte, gerando receita, o que também impacta na valorização do real e desvalorização do dólar”, explicou.
Por fim, em vez de tentar prever a direção exata do dólar, Allemann aconselha os brasileiros a utilizarem uma estratégia focada no conceito de “dólar médio”, que envolve investir montantes regulares ao longo do tempo, independentemente das flutuações cambiais.
“Assim, o investidor acaba comprando mais dólares quando o preço está baixo e menos quando está alto, o que pode resultar em um custo médio de aquisição favorável a longo prazo”, concluiu.