Especial BVRJ: a derrocada da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro

Facahda da BVRJ. [Fonte: CBRE]

O ano de 1989 é um que os brasileiros gostariam de esquecer. Depois de uma sucessão de planos econômicos frustrados – Cruzado I e II, Bresser e Verão – o Brasil chegava à expressiva marca de quase 2.000% de inflação.

Nem no futebol – esporte que levou o país ao mundo – a vitória dava as caras. Faziam quase 20 anos que uma taça da Copa do Mundo não vinha para terras brasileiras e, para completar, a rival Argentina tinha levado a melhor no último campeonato.

No entanto, na famosa “década perdida”, um homem vivia como rei. Naji Nahas, libanês criado no Egito e radicado no Brasil, chegou ao país em 1969 com dinheiro no bolso e pronto para colocar seu nome na história do mercado financeiro brasileiro. E conseguiu.

Já nos anos 1970 ele se tornou o maior acionista pessoa física da Petrobras [PETR3;PETR4], detendo 7% das ações da empresa. 

Naji Nahas em entrevista ao GloboNews, em 2019, ano que marcou 30 anos do caso Nahas. [Fonte: GloboNews/X]
“Ele tinha uma capacidade muito além da dos demais operadores que atuavam na praça”, afirmou o professor e economista, Carlos Cova. De acordo com o especialista, Nahas já tinha experiência em águas internacionais, além de saber operar no mercado de opções. 

O megaempresário migrou da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) em 1987 e, segundo reportagem do jornal O Globo, o volume de negócios de Nahas fez a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro (BVRJ) superar a Bovespa. O veículo também credita ao investidor o fato de que uma só operação de compra e venda de mais de 10 milhões de ações preferenciais de Nahas na Petrobras correspondeu a 60% do volume negociado na bolsa carioca. 

Apesar de grande parte dos veículos atribuir ao empresário a derrocada da BVRJ, Cova acredita que uma série de fatores permitiram o escândalo que viria a acontecer em junho de 1989. 

O truque de Nahas

Carlos explica que o mercado de opções costuma ser muito mais volátil e subir muito mais em relação às ações e Nahas sabia explorar isso. O megaempresário ficava comprado em opções – em sua maioria, da Petrobras – e também fazia a mesma operação com as ações da empresa, em grandes volumes. Esses papéis eram utilizados como garantia na retirada de empréstimos junto a bancos. 

Estes empréstimos – tomados em grandes quantidades, aliás –, eram usados para quitar as compras de mais ativos (opções e ações), os quais, por sua vez, eram utilizados como garantia na tomada de outros empréstimos para a compra de mais ativos, indica Cova. E assim, uma bola de neve foi se formando. 

Vale lembrar que as operações realizadas por Nahas tinham prazo de cinco dias para o pagamento, enquanto a tomada crédito funcionava em D+0 – sistema que possibilitava o pagamento dos papéis e disponibilizava as ações imediatamente ao investidor. 

É claro que uma pessoa física era limitada a um número de operações que poderia realizar em um dia, o que não combinava com o estilo agressivo de compra que o investidor tinha. “[Por isso] ele operava por intermédio de interpostas pessoas, o que a gente poderia chamar hoje de ‘laranjas’”, destacou Carlos. 

Apesar do grande arranjo conduzido por Nahas, Cova frisa que a própria BVRJ já operava num alto nível de alavancagem, por conta das corretoras. Segundo ele, essas empresas compravam as ações de outras, as quais também adquiriam de outras corretoras por meio de cheques e assim por diante. “No final, ia terminar num banco que tinha que pagar, que tinha que compensar o cheque.”

Até que, um dia, o cheque voltou. E era o de Nahas. 

Sexta-feira, 9 de junho de 1989

O dia havia começado normal no prédio espelhado da Praça XV de Novembro no centro do Rio de Janeiro. Corretores se apressavam para realizar as operações de seus clientes, investidores demandavam por mais ações e o mar de roupas sociais imperava. 

Era cerca de meio-dia quando o cheque do magnata Naji Nahas, no valor de 39 milhões de cruzados novos, encontrou lugar na BVRJ. De acordo com o livro “O último pregão” do economista Carlos A. H. Brum, Nahas pediu ajuda ao Planibanc, um dos principais bancos a financiá-lo na época.

Entretanto, o presidente da instituição à época, Luiz Carlos Plaster, negou auxílio, alegando posteriormente à Comissão de Fiscalização e Controle da Câmara dos Deputados que as pressões exercidas por Eduardo da Rocha Azevedo, presidente da Bovespa, que o levaram à decisão. 

Capa da Revista Veja em 21 de junho de 1989, falando sobre o caso Nahas. [Fonte: Revista Veja]
Por outro lado, Plaster disse ao delegado da Polícia Federal em São Paulo, Jayme Petra Filho, que o pedido de Rocha Azevedo não havia sido direcionado somente à Nahas. Pedro Conde, então presidente do Banco de Crédito Nacional, também negou socorro ao empresário. 

“A corretora que recebeu o cheque [sem fundos de Nahas] tinha que pagar várias outras corretoras com o dinheiro [do cheque]. E o cheque voltou. Ela não pagou as corretoras e essas corretoras não pagaram seus clientes, o que deu uma reação em cadeia”, indicou Carlos. 

Isso fez com que os pregões fossem suspensos na BVRJ e na Bovespa durante a segunda-feira, dia 12 de junho, sendo retomados na terça-feira, mas com todos os ativos limitados a oscilações de 10%, tanto para cima, quanto para baixo, explicou Brum em seu livro. 

O depois

“A partir da crise do Nahas, a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro começou a viver um período de esvaziamento”, frisou Cova. Em seu livro, Brum recorda que nos primeiros meses após a crise o volume diário de negociações na BVRJ passou de 1 bilhão para 250 milhões de cruzados novos. Além disso, o quadro de funcionários da bolsa carioca caiu de 874 para 560 pessoas. 

Carlos indicou que a debandada não se deu somente pelo caso. A modernização trazida pela Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F) fez com que o polo financeiro paulista passasse a ser mais interessante para o investidor médio brasileiro. O fato de que o Rio de Janeiro vivia uma decadência econômica também não ajudou, sinalizou Cova. 

Outra consequência do caso Nahas foi a reformulação da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Brum lista algumas delas em seu livro, como o aumento das penalidades a crimes contra o mercado de capitais, estabelecendo multas no valor de duas vezes o lucro obtido pelo infrator, e a ampliação do conceito de insider – o qual antes era restrito ao indivíduo que tinha informações relevantes de empresas e não de mercado. 

“No início dos anos 2000, então, a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro fechou”, afirmou Carlos.

Após mais de um século, em 28 de abril de 2000, a BVRJ testemunhava seu último pregão. A Bovespa já havia firmado acordo para englobar a Bolsa do Rio e, dentro das condições do negócio, o encerramento já era previsto. 

Brum indica que no seu último dia, a BVRJ realizou somente 40 negócios, pequenos comparados aos 32.933 na Bovespa. 

“Eu posso dizer, com bastante segurança, que a recuperação econômica do Rio de Janeiro passa pela reintrodução de uma bolsa no Rio de Janeiro”, afirmou Carlos. Por enquanto, os desejos do professor e economista ficam apenas no campo da imaginação.

O professor e economista Carlos Cova. [Fonte: Reprodução/LinkedIn]
E o prédio espelhado na praça XV de Novembro no Centro do Rio de Janeiro segue apenas um fantasma do que um dia já foi. 

Confira a primeira e segunda partes do Especial BVRJ

Sair da versão mobile