“A chance é alta”, afirma sem titubear o head de análise fundamentalista da Benndorf Research, Niels Tahara. “A possibilidade não apenas é relevante, como é o mais provável”, concorda Vitor Amor, analista fundamentalista da Levante Corp. Ambos acreditam que, muito provavelmente, Americanas [AMER3] dará um calote nos bancos, aos quais deve cerca de R$ 40 bilhões.
No caso de renegociação de dívidas, as consequências tendem a ser, em termos absolutos, maiores para os maiores credores da empresa, explica Amor. Os bancos mais expostos são Bradesco [BBDC4] e Santander [SANB11]. Contudo, os “bancões” devem sentir pouco impacto, dado o tamanho da carteira de crédito.
Enquanto isso, bancos pequenos e médios vão experienciar outra realidade. Neste caso, o impacto do calote deve ser grande, “em especial para o Safra, que pode ter que chamar capital para se manter dentro dos níveis mínimos de capital regulatório (índice de Basileia)”, diz o especialista da Levante. Outro que deve sentir o peso das “inconsistências contábeis” de Americanas é o BTG Pactual [BPAC11], de acordo com Niels Tahara, devido à grande exposição em termos de percentual de patrimônio.
E as ações dos bancos?
“A gente não trabalha com nenhum cenário de rebaixamento exclusivamente por conta da exposição às Lojas Americanas”, ponderou o diretor de instituições financeiras da Fitch Ratings, Raphael Nascimento, durante webinar organizado na manhã de ontem (24). Na avaliação de Nascimento, o balanço das empresas mostra espaço para o provisionamento do rombo, o que não deve levar a um rebaixamento do rating do setor.
Contudo, caso os bancos comecem a provisionar capital para perdas no balanço, é provável que o lucro líquido seja afetado, tendo um impacto nas ações no curto prazo, de acordo com Tahara.
Neste momento, a recomendação da Benndorf é de compra para Banco do Brasil [BBAS3], Itaú Unibanco [ITUB4] e BTG Pactual, e neutra para Bradesco e Santander. Mas o analista alerta que a decisão não está relacionada exclusivamente ao caso Americanas e sim a uma análise de longo prazo, não se limitando a um panorama momentâneo.
Para Vitor Amor, “o risco de montar uma posição nestes bancos visando se aproveitar da situação [atual] é que não se sabe como se dará a renegociação das dívidas e quanto dessa perda já está provisionada nos balanços, assim como no preço das ações”. Segundo ele, isso seria uma “aposta contra o mercado”.
Neste momento, o foco deve estar em como os bancos vão absorver o efeito do rombo, afirmou o diretor da Fitch. Ele notou que o caso pode pressionar os resultados do setor em algum trimestre, mas não deve criar um efeito negativo de longo prazo.
“O que a gente vai precisar olhar é que parte desse colchão vai ser usado para absorver a Americanas ou se os bancos vão constituir uma provisão nova, e em que velocidade. Se isso vai ser ‘despesado’ já no quarto trimestre ou se vão preferir diferir isso ao longo de 2023”, comentou.