Para quem não sabe aonde vai, qualquer caminho serve.
A frase de Lewis Carroll, eternizada na voz do Gato Risonho, de Alice no País das Maravilhas, ganhou um acréscimo na conversa entre Marina Trader, Vata Dojo e Rodrigo Cohen no evento Top Traders, realizado pela Nomos Investimentos na última terça-feira (06).
Saber onde quer chegar não basta. No trading, o sucesso é apenas consequência de quem conhece o próprio caminho.
Marina usa exclusivamente gráficos de tempo, prefere operações longas e tem um operacional fundamentado nas ondas de Elliot. Vata parte da macroeconomia antes de olhar gráficos. Cohen é adepto dos setups de Oliver Velez.
Apesar das diferenças, os três foram unânimes na firmeza com a qual explicaram as próprias rotinas de trading, encorajando os iniciantes nesse universo a encontrarem um operacional igualmente consistente.

Trader precisa escolher uma linha de interesse
Profissões tradicionais possuem um trajeto a seguir, enquanto o trading é uma jornada pessoal e um tanto solitária, defendeu Marina.
Na medicina, exemplifica, o caminho é a faculdade, seguido pela residência ou pós-graduação — e não é necessário entender de Medicina para saber que todo profissional deverá seguir tais passos.
Caminhos formais, entretanto, não estão disponíveis ao aspirante a trader. “Essa é a grande questão do mercado do mercado hoje em dia”, pontuou Marina.
Existem de fato operacionais muito bons, então não é questão de certo ou errado.
Os múltiplos caminhos para quem deseja a carreira de trader resultam na necessidade de operar sozinho em um primeiro momento e fazer uma linha de raciocínio de cada operacional para definir como proceder.
Frisando que “estudo tem que ter linha de interesse”, Marina reforça que caminho do fracasso é misturar operacionais diferentes. Estratégias diferentes chegam no mesmo ponto; misturas fracassam.
Ela mesma passou o primeiro ano como trader, em 2014, operando apenas ações da Petrobras [PETR4]. Hoje, opera somente futuros de índice, em um operacional fundamentado nas ondas de Elliott.
Marina usa gráficos de 5 a 15 minutos no day trade, mas prefere operações longas, de 800 pontos para cima. Tais operações liberam a trader das oscilações intradiárias.
O modelo operacional combina bem com a personalidade dela, que diz gostar de criar a própria rotina, fugindo de briga e estresse. Tal encaixe deveria ser o objetivo de todo aspirante a operador de bolsa.
Um bom operacional, comenta, é aquele que deixa o trader menos ansioso e combina mais com a personalidade e proporciona qualidade de vida. “No final das contas, o trade é muito sobre isso.”
Aos iniciantes, Marina aconselha a enxugar o máximo possível os indicadores utilizados e se concentrar em um único ativo ou derivativo – e jamais pegar emprestado algo do operacional de outro trader.
Inseridos no contexto: traders e macroeconomia
Nelson Vata – mais conhecido como Vata Dojo – parou de contar há quanto tempo está no mercado quando a marca ultrapassou os dez anos. No entanto, lembra bem do que aprendeu em treinamento no JP Morgan.
Pioneiro em mentoria de trading no Brasil, ele parte do pressuposto de que os preços estão constantemente tentando mensurar algo subjetivo: valor.
Assim, Vata não compra a máxima sobre o gráfico “descontar tudo”. É necessário entender a mentalidade dos big players antes de olhar o preço de qualquer ativo.
Entender como e porque tudo funciona prepara os traders para qualquer oscilação possível – e inexplicável para quem não acompanha a macroeconomia. Quem descarta a leitura das notícias, prosseguiu, provavelmente fica surpreso com um mercado em queda após um payroll positivo.
Vata conheceu o JP Morgan através de um amigo de infância que trabalhava na área de estratégia do banco americano. O aprendizado influenciou toda a metodologia do trader.
Assim, ele vê com estranhamento a tendência atual dos traders brasileiros de quererem saber simplesmente qual ativo operar e a que preço.
“Eu tenho que estar inserido no contexto” e só depois disso, ler gráficos. “Você tem que ser bom entendedor de História”, aconselha.
“Tem que olhar índice do produtor, índice do consumidor, tudo isso vocês tem que olhar para estar acompanhando a historinha.”
Distribuição e acumulação
O operacional de Rodrigo Cohen integra o conceito de acumulação e distribuição. “Quando o mercado cai não é porque big player está vendendo; quando o mercado cai, o big player já vendeu lá em cima.”
Operador de mercado desde 2000, Cohen define como “normal” seu percurso no day trade. “Como a maioria das pessoas, tripliquei meu patrimônio, depois perdi tudo e fiquei devendo”, ironizou.
Felizmente, o loss não durou muito. Engenheiro pós-graduado, ele migrou definitivamente para o mercado financeiro em 2009.
“O que mudou meu operacional foi usar replay.” O trader comentou que costuma refazer exatamente o que faria na conta real para entender o que fez.
Ele atualmente opera índice e dólar, com gráfico de 2 e 5 minutos — o gráfico diário e de 30 minutos também são úteis, mas para olhar contextos.
Adepto dos setups de Oliver Velez, Cohen acrescenta que utiliza médias móveis, prefere entradas de candles maiores e usa VWAP em suas análises.