Fábio Barbosa assumiu a direção da Natura &Co. [NTCO3] em junho de 2022, prometendo arrumar a casa, desburocratizar o negócio e trazer eficiência para uma estrutura inchada. O enxugamento da empresa alcançou um novo patamar na última terça-feira (04), quando a Natura anunciou a venda da Aesop à L’Óreal.
O negócio não foi exatamente novidade. O conselho de administração da Natura autorizou em outubro do ano passado o início de um estudo comparativo entre uma oferta pública inicial (IPO) e uma cisão – ou spin-off – da Aesop.
Citi e BTG Pactual logo se pronunciaram, reiterando recomendação de compra para NTCO3 sob afirmação de que um desinvestimento na marca de luxo australiana geraria valor para a Natura.
Em reação à notícia, NTCO3 chegou a disparar mais de 14% na sessão de 18 de outubro.
Tal otimismo não durou muito quando o negócio chegou às vias de fato.
Wall Street até se animou: as American Depositary Receipts (ADRs) da Natura saltaram quase 15% no after hours de segunda-feira (03), logo após a notícia da venda para a L’Óreal por US$ 2,5 bilhões.
O mercado brasileiro, entretanto, cortou a euforia bem cedo. No primeiro pregão após o anúncio da venda, NTCO3 fechou em queda de 3,4%, depois de oscilar com cerca de 17% de alta na primeira parte da sessão.
Investidores sustentaram a visão negativa no resto da semana, e os papéis se encaminharam para o feriado de Páscoa com um desempenho semanal negativo em 18%.
O negócio cheirou mal?
A recepção negativa do mercado interno à venda da Aesop não necessariamente deve-se a uma oposição ao negócio com a L’Óreal.
Cinco dias antes do fato relevante informando a venda da Aesop, em 29 de março, o Bradesco BBI afirmou que um spin-off da marca já estava precificado na cotação de NTCO3.
“Nossa pesquisa indica que uma venda total da Aesop já está incorporada às expectativas dos investidores, e um negócio abaixo do valuation estimado por nós e inferior a 100% [da participação] poderia refletir negativamente no preço da ação.”
O banco mostrou em relatório o resultado de uma pesquisa com 32 clientes – 88% deles investidores brasileiros – sobre as estratégias da Natura.
Para 66% dos entrevistados, a companhia deveria vender 100% da Aesop, “para reduzir a alavancagem da companhia e focar em seu core business na América Latina, com as marcas Natura e Avon”, disseram os analistas do BBI.
O Bradesco BBI reiterou recomendação de compra para NTCO3 e revisou o preço-alvo de R$ 15 para R$ 16.
Após o anúncio da transação, também o JP Morgan reiterou “compra” para Natura &Co., elevando o preço-alvo de US$ 8 para US$ 9. Para o analista Joseph Giordano, a venda da Aesop é um “movimento transformacional” para a multinacional brasileira.
A operação, prossegue, deve trazer liquidez ao caixa da companhia, resultando também em uma redução da dívida que pode fazer a Natura potencialmente tornar-se uma sólida pagadora de dividendos.

A XP Investimentos é outro player com bons olhos para o desinvestimento na Aesop.
“Acreditamos que os investidores agora se concentrarão na estratégia de longo prazo da NTCO, com a integração da Avon e da Natura assumindo o centro das atenções”, disseram analistas do time de research da corretora em relatório.
Assim como as duas casas mencionadas acima, a XP manteve recomendação de compra para NTCO3, embora afirme esperar continuidade de perspectiva fraca para os resultados de curto prazo da companhia.
“Estamos otimistas em relação à integração da Avon e da Natura, enquanto vemos um valuation assimétrico para a NTCO.” No entanto, os analistas acrescentam que “uma possível venda da The Body Shop poderia ser trazida à discussão”.
A questão da Body Shop também é crucial para o Bradesco BBI. No mesmo relatório do fim de março, o research do banco assentiu que a estratégia com relação à marca “precisa ser repensada”.
“No futuro, acreditamos que um dos principais catalisadores para uma reavaliação das ações da NTCO3 será uma sólida recuperação das margens da The Body Shop (TBS) ou uma mudança estratégica semelhante em sua participação na marca de consumo global.”
A Natura &Co. ainda não indicou nenhum passo na direção de se desfazer da TBS. Metade dos clientes consultados pelo BBI acredita que a Natura deveria vender 100% da marca em 2023, enquanto a segunda opção foi “buscar alternativas estratégicas no curto prazo”.
Contexto
Fundada em Melbourne, na Austrália, a Aesop foi adquirida pela Natura aos poucos, a partir de 2012.
Conforme explicado pela Levante Corp. em relatório, a marca de luxo vinha apresentando crescimento médio de receita de 20% ao ano, com a maior margem bruta dentre as marcas do grupo, de aproximadamente 90%.
“Entretanto, após as novas aquisições que a Natura &Co realizou nos anos seguintes, como a The Body Shop e a Avon, houve uma maior dificuldade em integrar as adquiridas à operação.”
Assim, “a venda da Aesop começou a ser vista como principal caminho para destravar valor das ações da Natura”, completaram as analistas Nelly Colnaghi e Carol Sanchez.
A L’Óreal vai pagar os US$ 2,5 bilhões da transação no fechamento do negócio, que ainda precisa passar por aprovações regulatórias e está previsto para ocorrer no terceiro trimestre deste ano. “Com a aquisição, a L´Oréal pretende explorar o grande potencial de crescimento da Aesop, principalmente na China, mercado que a Natura vinha testando até então”, acrescentaram as analistas da Levante.
A Natura &Co. é a quarta maior empresa de beleza do mundo em termos de receita, com operações espalhadas globalmente. O modelo da companhia consiste agrega venda direta – através das consultoras –, lojas físicas e e-commerce.