RAIZ4: Após um ano, o que aconteceu com o maior IPO da América Latina de 2021?

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A Raízen (RAIZ4) estreou na B3 em 8 de agosto de 2021, com valor de mercado de R$ 76 bilhões e ações cotadas a R$ 7,40, no piso da faixa sugerida – mais de 45% acima do fechamento desta segunda-feira (08), a R$ 5,01. Fundos internacionais especializados em energia responderam por 60% da demanda pelos ativos, atraídos pelo viés ESG da empresa.

A oferta pública movimentou R$ 6,9 bilhões, a maior estreia da América Latina no ano e “o maior volume captado na bolsa até então”, ressalta Felipe Ruppenthal, da Eleven Financial. Investidores pessoa física também tiveram participação relevante: da demanda de R$ 30 bilhões pelas ações, R$ 14 bilhões vieram do varejo.

“A narrativa [para o IPO] era muito clara: a Raízen é a quarta maior empresa em faturamento do país, tem atuação diversificada e seu mercado estava em alta, além da pegada ESG da companhia”, explica Júlio Borba, da Benndorf Research. Criada em 2011, como uma joint venture entre Cosan e Shell, a companhia é uma das maiores produtoras de cana de açúcar e etanol do mundo.

O apelo ESG também compunha um dos apelos para a estreia na bolsa. A Raízen buscava recursos para sua estratégia de investimentos focados em energia renovável, comentou o analista da Eleven. O projeto visava expandir a produção de etanol de segunda geração (E2G), produto com baixa emissão de poluentes, com tecnologia de propriedade da Raízen “capaz de produzir 50% da capacidade atual de etanol sem expansão da área de plantio ou de capacidade de moagem, utilizando como matéria-prima o rejeito da produção atual”.

O etanol de segunda geração emite menos CO2 que o de primeira geração, sendo vendido com prêmio superior a 70%. A Raizen já conta com carteira de pedidos superior à capacidade atual de produção.

O que mudou do IPO para cá?

Na máxima histórica de fechamento, RAIZ4 já atingiu R$ 7,34, em março deste ano. Ainda assim, ao olhar o desempenho da ação desde sua estreia, “enxergamos com clareza que ainda temos apenas topos e fundos descendentes, ou seja, ainda está em tendência de baixa no longo prazo”, explica Filipe Borges, da Benndorf. De acordo com o analista gráfico, “é indicado aguardar o rompimento de 5,40 para novas compras”.

Desempenho de RAIZ4 no gráfico semanal desde o IPO até 8 de agosto de 2022. [Fonte: Filipe Borges]
Como a Raízen, de estrutura tão bem avaliada pelo mercado, traçou desempenho descendente na bolsa de valores? De acordo com Felipe Ruppenthal, “os objetivos da companhia não mudaram, mas aconteceu uma mudança na percepção de riscos nos mercados e preços de commodities em geral”, em meio aos temores de desaceleração econômica no mundo, “que fizeram com que a maioria dos ativos de risco e, principalmente, ligados a commodities tivessem desvalorização”. A desvalorização do preço do açúcar somou-se aos fatores de impacto negativo para RAIZ4, acrescentou o analista.

Para Júlio Borba, no entanto, os juros são o principal motor da queda dos papéis. “Os juros futuros do momento do IPO até agora subiram mais de 35%, enquanto a Selic saiu de 5,25% para 13,75% atualmente”. Além disso, explica, medidas de alteração nas alíquotas de impostos do Brasil reduziram os impactos positivos que a valorização do petróleo Brent potencialmente teria sobre o caixa da Raízen. O analista da Benndorf ressalta não ver mudança drástica nos fundamentos da sucroalcooleira, maior distribuidora de etanol do Brasil.

Radar de recomendações de RAIZ4 em 8 de agosto de 2022. [Fonte; Bloomberg]
Os maiores bancos do mundo sustentam visão positiva sobre a companhia. Analistas do JP Morgan, Credit Suisse e Morgan Stanley, além de casas de análise brasileiras – como a própria Eleven – mantém recomendação de “compra” e equivalentes para RAIZ4.

No início de agosto, a B3 anunciou a inclusão da Raízen na primeira prévia da carteira do Ibovespa, a vigorar entre setembro e dezembro deste ano.

A chave da mudança

Se os juros prejudicam a performance de RAIZ4 na bolsa brasileira, “uma queda nos juros futuros, conforme a ocorrida nas últimas semanas, deve ajudar, dado que, junto a essa queda os papéis já subiram mais de 25% do fundo”, comenta Júlio. O “fundo” mencionado diz respeito a um padrão característico da análise gráfica.

Nesse aspecto, o ativo se encontra em tendência de alta, “com confirmação de fluxo comprador no curto prazo”, aponta o grafista Filipe Borges. “A ação tem resistência em R$ 5,40 e, acima deste valor, abre espaço para altas até o objetivo, em R$ 6,30”. A cotação que marca o suporte do papel no gráfico atualmente é de R$ 4,35, conclui.

Desempenho de RAIZ4 no gráfico diário até 8 de agosto de 2022.

Sob outro prisma, o analista da Eleven descreve uma alta no preço do açúcar como um dos principais catalisadores de uma eventual valorização da companhia, assim como “uma menor incerteza sobre a política de preços de combustíveis da Petrobras e uma aceleração nos investimentos relacionados ao E2G e energia renovável”. Anúncios de parcerias ou compra de empresas do setor também teriam potencial impacto positivo.

Felipe ressalta que o principal desafio do setor de energia – no que tange a petróleo e gás, combustíveis – no Brasil é a dominância da Petrobras. “Como detentora de cerca de 80% de participação de mercado no fornecimento de combustíveis no Brasil, ela gera uma série de ineficiência e incertezas no setor”. Os recentes desinvestimentos da estatal em refinarias e campos de petróleo, de acordo com o analista, têm permitido o surgimento e fortalecimento de novas empresas do mercado energético. A nova Lei do Gás, sancionada em abril do ano passado, “permite uma maior competição nesse mercado”, finaliza.

Ao tratar das empresas de energia, Júlio Borba salienta o diferencial da Raízen. “Não é uma empresa de energia comum, como definimos a maioria das empresas do setor de energia elétrica (geração, transmissão e distribuição) da bolsa”, uma vez que a empresa produz biocombustíveis. Além de atuar na produção de etanol e açúcar, a empresa também comercializa seus produtos através da segunda maior rede de distribuição da América do Sul, com atuação em serviços junto à rede de postos Shell.

“Dessa forma, ela vende um outro tipo de ‘energia’, em que os principais riscos estão atrelados à interferência do governo, seja em alíquotas tributárias, incentivos para o setor, mudanças de políticas de preço, entre outros”, acrescenta Júlio.

Em concordância, Felipe, da Eleven, destaca que o mercado de combustíveis dos EUA “é muito maior que o brasileiro, com maior competição entre empresas e sem um grande player estatal (como a Petrobras) que gere uma série de desequilíbrios no mercado”. A maior economia do mundo detém “capacidade de refino muito superior, empresas mais integradas e com diferente matriz energética”, enfatiza.

Em contrapartida, não há nenhuma empresa comparável à Raízen nos EUA, afirma Júlio. O caso mais aproximado é o da Neste, na Finlândia, “que também vende biocombustíveis e oferece serviços similares, assim como atua na produção de produtos derivados do petróleo”.

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