Resumo de setembro: dados internos tentam nadar contra tsunami inflacionário do exterior

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A economia do Brasil começou o mês com chave de ouro. Surpreendendo o mercado, o PIB do país cresceu 1,2% no segundo trimestre de 2022, comparado ao trimestre anterior, na série com ajuste sazonal. É o quarto resultado positivo consecutivo, chegando a 2,6% no acumulado dos últimos quatro trimestres. No ano passado, o consenso entre especialistas era que o crescimento de 2022 seria próximo de zero.

“Vários fatores neste ano têm contribuído para que tenhamos observado um desempenho bastante positivo da atividade econômica. Os próprios dados de emprego tem surpreendido de uma forma extraordinária, [e] mostram criação de emprego alta e desemprego em baixa, mas é importante a gente notar que este movimento não deve ser duradouro”, afirmou Thomaz Sarquis, economista chefe da Eleven Financial.

Entre as causas da boa performance, ele menciona a retomada da atividade econômica pós-pandemia, o auxílio emergencial e o corte nos impostos de combustíveis e energia elétrica.

Contudo, Thomaz explica que a partir do momento que as taxas de juros mais elevadas, tanto aqui quanto no exterior, fizerem efeito, é esperado um impacto negativo na atividade econômica. “Por isso que a gente tem uma perspectiva bem menor de crescimento do PIB para 2023 do que a gente tem agora para 2022”, complementa.

Apesar dos bons resultados econômicos no mês, o Ibovespa fecha setembro com alta marginal de 0,47%, reduzindo a valorização firme de 4,69% e 6,16% em julho e agosto respectivamente. O índice estava prestes a fechar o mês em queda firme, acima de 1%, mas voltou a ganhar tração dois dias antes das eleições. 

Contudo, a mudança no humor em relação aos meses anteriores é impactada por temores sobre a perspectiva de crescimento global, que continuam altos, após o Federal Reserve e uma série de outros BCs elevarem juros de forma agressiva na semana retrasada, em mais uma tentativa de conter a inflação persistente.

O payroll de agosto dos Estados Unidos, divulgado no segundo dia de setembro, chegou a gerar esperanças de uma postura menos hawkish do banco central americano, porém os indicadores ao longo do mês contrariaram a expectativa inicial.

“A gente viu uma penalização no índice neste mês de setembro apesar de dados favoráveis, internamente falando. […] Por exemplo, o CAGED […] foi um dado bem positivo, indicadores de atividade econômica como produção industrial ou serviços também vem mostrando um desempenho favorável, mas isso não é suficiente para nadar contra esse tsunami de taxas de juros e inflação vindo de fora”,  afirmou o economista da Eleven.

O mercado de trabalho formal brasileiro registrou um saldo positivo de 278.639 carteiras assinadas em agosto, de acordo com os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Em julho, foram abertas 221.345 vagas, número com ajuste.

Mas nem tudo fugiu do esperado. O Comitê de Política Monetária do Banco Central do Brasil (Copom) manteve a taxa Selic em 13,75% e foi recebido com bom humor. A manutenção já estava precificada e também era (e ainda é) reconhecida a possibilidade deste nível durar por um bom tempo. Apesar disso, o fato de o Banco Central ter interrompido uma série de 12 altas seguidas foi bem avaliado pelo mercado. 

Alguns pregões antes da divulgação, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, sinalizou que a decisão do Copom estava em aberto e que o colegiado iria avaliar “um possível ajuste final” da taxa, mas o discurso não foi suficiente para mudar a expectativa dos investidores.

Também contrariando o forward guidance do BC, agentes do mercado ouvidos pelo Broadcast acreditam que a autarquia encerrou o ciclo de aperto monetário e tentou “apagar” as apostas em corte de juros já no primeiro semestre de 2023.

Fonte: Agência Brasil

O ministro da Economia, Paulo Guedes, em dia de Super Quarta, também deu declarações que soaram um pouco distintas da sinalização que o Banco Central buscou dar antes da divulgação da Selic. Ele disse que o Brasil estará em 2023 “com freio de mão solto” representado pela política monetária. 

“No ano que vem, teremos dois componentes positivos de crescimento: investimento e reaceleração cíclica, mesmo com freio de mão puxado, que é a política monetária deste ano”, afirmou ele em convenção da Associação Brasileira de Supermercados (Abras) em São Paulo. 

Além disso, o Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna (IGP-DI) caiu 0,55% em agosto, acima dos -0,53% esperado pelo Projeções Broadcast. No mês anterior, a taxa havia sido de -0,38%. Quanto ao IPCA-15, o índice também recuou, em 0,37%, em setembro, marcando o segundo mês seguido de deflação do indicador. Com o IPCA não foi diferente: queda de 0,36%, o menor índice para um mês de agosto desde 1998. A taxa acumulada está em 8,73% em 12 meses.

“Os motivos são bastante evidentes”, afirma Thomaz sobre o resultado do IPCA, “primeiro, as medidas tributárias que foram tomadas sobre combustíveis, energia elétrica e comunicação. Essa redução de impostos trouxe uma queda bem expressiva nos preços. E, segundo, o reajuste negativo de preços realizado pela Petrobras sobre a gasolina, que ocorreu tanto no meio de agosto quanto no começo de setembro. Isso trouxe o IPCA de uma forma bastante atípica para terreno negativo”

Outro fator positivo para a economia neste mês foi o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), que subiu 1,17% em julho na comparação com junho. Os números vieram acima das estimativas, que preocupavam o mercado nos pregões anteriores à publicação do Banco Central. 

Após tantos indicadores, os mercados se concentraram em buscar pistas referentes à visão do Copom sobre o início do ciclo de cortes da Selic. O alvo foi a Ata do comitê, que além de indicar “quando”, poderia trazer uma reafirmação do tom hawkish adotado pela instituição.

Isso ocorreu porque, embora as projeções dos profissionais do mercado indiquem uma política monetária restritiva por um período longo, a curva de juros ainda precifica cortes da Selic no início de 2023.

A Ata trouxe alguns elementos vistos como dovish por parte dos analistas consultados pela Bloomberg, o que reforçou a visão de que o aperto estaria próximo de seus últimos suspiros e ajudou na extensão do movimento de retirada de prêmio da curva, que já embute cerca de 3 p.p. de corte da Selic para 2023.

Já o economista-chefe da XP Investimentos, Caio Megale, afirmou que a ata foi bastante hawkish, em linha com o comunicado do BC. Contudo, ele acredita que será possível cortar a taxa básica de juros em junho de 2023, com a desinflação global. A XP projeta Selic a 10% no fim de 2023.

Quanto ao cenário 2022-23, o Itaú BBA afirmou que é um momento positivo para a soja e o milho, o que provavelmente beneficiará as empresas do setor, e os preços do petróleo ainda elevados, margens sólidas e oportunidades de crescimento devem beneficiar as empresas de petróleo e gás. A conclusão ocorreu após a 14ª Conferência de Commodities da América Latina. 

Em relatório, o banco diz que as incertezas permanecerão na China, mas, para os preços, o pior parece já ter passado. Após correções no segundo semestre, as companhias de siderurgia e mineração acreditam que os preços de minério de ferro, alumínio e aço devem permanecer estáveis no curto prazo. 

É perceptível que a exposição ao cenário externo ainda permanece forte. De acordo com o economista-chefe do Banco Master, Paulo Gala, apesar da bolsa brasileira ainda ser um dos destaques do ano em relação ao resto do mundo, o clima no exterior continua temeroso a uma recessão, com uma série de notícias problemáticas gerando sentimento de aversão ao risco nos mercados. Além disso, Rodrigo Simões, professor da FAC-SP, ainda destacou que o cenário doméstico também interfere nessa instabilidade, por conta da proximidade do primeiro turno das eleições.

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