De Mao Tsé-Tung à Covid-zero: como a China ganhou tanto espaço na economia mundial?

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Dezembro começou com os mercados globais atentos ao desenrolar dos protestos na China contra a política de Covid-zero adotada pelo governo local. Iniciados em 24 de novembro, os protestos são a mais recente adição à lista de acontecimentos com a China que balançaram o cenário geopolítico mundial em 2022 – junto com a atividade militar em torno de Taiwan e os mesmos lockdowns que culminaram nas manifestações.

Mas quando o mesmo país que enfrentava fome severa na primeira metade da década de 1960 se tornou uma das maiores potências mundiais? De acordo com o especialista em geopolítica Paulo Filho, a vertiginosa ascensão da economia chinesa começou a partir das reformas de Deng Xiaoping, em 1978.

“De forma impressionante, em quatro décadas o país deixou de ser uma das economias mais pobres do mundo para ascender ao atual posto de segunda colocada, com possibilidades reais de vir a se tornar a líder em alguns anos”, comentou Paulo.

O início de tudo

A atual maior exportadora e detentora de reservas cambiais do mundo, prossegue o especialista, iniciou sua trajetória de crescimento econômico pela descoletivização da agricultura na zona rural. Entre 1958 e 1960, o líder da Revolução Comunista da China, Mao Tsé-Tung, havia instituído um regime de comunas agrícolas para os camponeses.

A abolição do modelo comunal, com autorização para as famílias cultivarem e venderam a produção de forma individual, a preços de mercado, “levou a rápido aumento da produção agrícola e a uma consequente melhora da qualidade de vida dos agricultores”, diz Paulo Filho.

A criação das Zonas Econômicas Especiais (ZEE), marcadas pela concessão de incentivos fiscais para investimentos estrangeiros e por certa flexibilidade nas relações trabalhistas, foram outro passo na construção do que hoje se denomina “socialismo com características chinesas”.

“As reformas propiciaram um rápido crescimento econômico, e o país se transformou em um imenso canteiro de obras para a criação da infraestrutura necessária”, de acordo com o planejamento dos chamados Planos Quinquenais – modelo de planejamento econômico inspirado pela organização soviética.

Nos planejamentos, de acordo com o Núcleo de Estudos do Brics da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (NEBRICS – UFRGS), “são traçadas as principais metas sociais, econômicas e também de setores considerados chave pelo governo central, como os setores energético e tecnológico”. Adotados por Pequim em 1953, os Planos Quinquenais “também traduzem as diretrizes, estratégias e políticas de desenvolvimento em forma de metas e objetivos”.

Atualmente, a China executa o 14º Plano Quinquenal, referente ao período entre 2021 e 2025. Por conta da mistura entre empresas estatais e privadas, nacionais e estrangeiras, “os chineses denominam o seu modelo econômico uma mistura de socialismo com economia de mercado”.

O desandar da China hoje

A pandemia de Covid-19, que começou no final de 2019 para os chineses, na cidade de Wuhan, trouxe um desequilíbrio ainda não solucionado para a segunda maior economia do mundo. Em 2020, o PIB da China registrou o pior crescimento em 44 anos, de 2,3% – em 2018, foram 6,6% de alta, menor taxa desde 1990.

Para este ano, comenta Paulo Filho, a expectativa de crescimento anual da economia chinesa é de 2,8%, “muito abaixo dos índices anteriores à pandemia”. Nas últimas duas décadas, a participação da China no PIB global mais que quadruplicou, à medida que o país se tornou o “chão de fábrica do mundo”, de acordo com o The Wall Street Journal.

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Participação global da China (vermelho), EUA (azul) e resto do mundo (cinza) no PIB global. A linha pontilhada marca o início do governo de Xi Xinping. [Fonte: Wall Street Journal/Banco Mundial]
André Duarte, economista internacional da Occam, atribui a recente desaceleração econômica da China a uma série de fatores, “alguns de natureza estrutural e outros de natureza cíclica”.

No primeiro aspecto, observa-se “forte desaceleração do crescimento da força de trabalho, redução de investimentos externos em decorrência de conflitos geopolíticos e excessos no setor de construção residencial”. A política de Covid-zero é o principal vetor de natureza cíclica.

Paulo Filho acrescenta a crise no mercado imobiliário chinês à lista dos indutores de desaceleração, haja vista que o setor “é responsável, direta e indiretamente, por um terço do PIB chinês”. Diversas companhias no país tiveram dificuldade em terminar empreendimentos, dado o aperto do crédito disponível em 2020.

Por conseguinte, narra o especialista, “os compradores dos imóveis, ao perceberem que a entrega de suas unidades habitacionais estava ameaçada, passaram a se recusar a fazer pagamentos de hipotecas em edifícios inacabados”. O processo levou o preço de imóveis em algumas cidades a mais de 20% de queda este ano.

Também recentemente, Pequim aumentou a pressão regulatória sobre as gigantes da tecnologia, como as companhias privadas Tencent e Alibaba. Em reação, “grupos estrangeiros passaram a tirar dinheiro investido nessas empresas, que viram seus lucros diminuírem muito no corrente ano”.

O futuro já começou

O economista da Occam vê aceleração da China para o primeiro semestre de 2023, ante a flexibilização da política de restrições contra a Covid-19. O efeito deve ser o suficiente para fazer o PIB do ano que vem exceder o de 2022.

Entretanto, prossegue André, o impulso é passageiro: “depois [a China] desacelera novamente em 2024, devido às razões estruturais”. Além dos vetores internos, o mercado ocidental também deve pressionar a economia asiática, em meio ao aperto monetário introduzido este ano em grandes economias como EUA, Zona do Euro e Inglaterra.

Quanto à bolsa de valores do Brasil, o profissional chama atenção para o setor de commodities. “A desaceleração chinesa impacta os preços de commodities e a arrecadação do governo”, finaliza.

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