Excesso de diversificação é tão ruim quanto não diversificar

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Amigo que “trabalha no mercado financeiro” é sempre uma fonte de consulta para saber “qual é a boa” para investir. Recentemente, um amigo me disse que tinha quase 40 ações de diferentes empresas, sob a justificativa da diversificação. Ao continuarmos a conversa/consulta, obtive um pouco mais de informações sobre o padrão de investimento:

“[Por que ter tantas ações?] Não sei, você vai vendo e comprando.”

“Antes da pandemia comprei várias, mas não quero zerar com perdas.”

A partir desta conversa, percebi que este padrão é mais recorrente do que imaginava. Portanto, gostaria de explorar um pouco mais sobre a tão falada diversificação, entendida por muitos como uma condição sine qua non para o sucesso nos investimentos.

A teoria tradicional propõe que a diversificação diminui o risco da carteira. Em finanças, o risco é medido pela volatilidade, que é calculada através do desvio-padrão (medida estatística que expressa o grau de dispersão de um conjunto de valores em relação à sua média). Logo, a volatilidade indica a intensidade e a frequência das oscilações nos preços em um determinado período de tempo, sendo importante parâmetro para medição do risco de um ativo.

Pesquisadores têm se dedicado a descobrir o número ótimo de ativos que otimiza a relação risco-retorno de uma carteira. Deve-se observar que não existe carteira sem risco, que é composto pelo risco de mercado (sistemático ou não diversificável) e risco específico (não-sistemático ou diversificável). A diversificação atua justamente nessa segunda parcela.

A depender do número de ativos presentes na carteira, há evidências de que o efeito incremental da redução de risco com a introdução de um novo ativo pode ser muito pequeno. A partir disso, no livro “A random walk down Wall Street” é demonstrado que um portfólio com 20 empresas bem diversificadas seria suficiente para equilibrar o binômio risco-retorno. Já em ”Fundamentals of Investments”, uma carteira com 30 ativos, ponderados igualmente, reduziria quase que totalmente o risco diversificável.

Gosto de citar também alguns ensinamentos de Peter Lynch, uma das grandes referências de Wall Street e que ganhou notoriedade ao administrar o fundo de ações Fidelity Magellan, cuja valorização foi de 2.700% entre 1977 e 1990. Ao falar sobre diversificação, Lynch enfatiza a importância de possuir o máximo de ações, mas ressalta que o importante é o investidor ter uma vantagem analítica, ou seja, conhecer bem a empresa investida. Considero este um ponto relevante, pois já estive do lado do research. Para um analista profissional, dedicado exclusivamente ao acompanhamento de empresas, é normal que se dediquem a um número restrito de ações e setores. Diria que um analista consegue cobrir até 15 ações, de 2 ou 3 setores correlatos. É muito comum que um analista se dedique exclusivamente a seguir um único setor. Imagine um investidor comum, que tem sua profissão alheia ao mercado. Qual seria a capacidade de acompanhar todas as empresas do seu portfólio, a ponto de ter uma “vantagem analítica”?

Recorrendo novamente a Peter Lynch, em portfólios pequenos, o gestor fala em três a dez posições, o que permite um melhor acompanhamento das ações em carteira.

O objetivo da diversificação também pede que os ativos que compõem a carteira tenham retornos esperados não correlacionados. Ou seja, a quantidade pode não se traduzir na diversificação, pois o investidor tem que observar se há distribuição setorial. Por exemplo, não adianta um investidor ter 20 ações, mas todas do setor de varejo, administradoras de shopping e credenciadoras de cartões de crédito. Há quantidade expressiva de ações, mas os retornos destes setores costumam ser correlacionados, uma vez que as empresas são influenciadas por fatores comuns. Afinal, uma alta dos juros terá o mesmo efeito sobre todas, provavelmente de forma negativa sobre a demanda.

Creio que o importante é que haja equilíbrio, com menor diversificação quando os recursos iniciais forem baixos, aceitando-se um maior nível de risco. À medida que se acumula um montante maior investido, aumenta-se a diversificação e assumem-se menores riscos.

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